
MARIA ALZIRA BRUM LEMOS
Envelhecer
Envelheço. Envelhecemos. O relatório Envelhecimento no Século XXI: Celebração e Desafio do Fundo de população das Nações Unidas diz que “o envelhecimento populacional é uma das mais significativas tendências do século XXI. Apresenta implicações importantes e de longo alcance para todos os domínios da sociedade. (…) É um fenômeno que já não pode mais ser ignorado”. Aprendemos com os movimentos sociais, políticos e estéticos do século XX, e com os meios de comunicação, a valorar positivamente o jovem, associando-o a “revolucionário”, a “mudança”, e negativamente o velho, associando-o a “ultrapassado, descartável”. Mas esta perspectiva, como muitos lugares comuns, é uma distorção. “Mudança” e “novo” nem sempre significam algo positivo, já que esses termos têm sido largamente utilizados pelo fascismo, pelas direitas ultraconservadoras e pela publicidade. Por outro lado, boa parte dos velhos de hoje não apenas conhece como experimentou de alguma maneira as ideias da “revolução juvenil” do século XX, como a ecologia, o rompimento com os padrões estabelecidos pela moral religiosa, a contracultura etc. Diante disso cabe repensar a relação jovem-velho na perspectiva de uma cultura interconectada em que a experiência com o tempo não se dá apenas na diacronia, mas também na sincronia. Somos todos contemporâneos, e o diálogo e a experiência transgeracionais são possíveis. Se, frente ao aumento da população jovem, inventaram-se no século XX “novas maneiras de ser jovem”, diante do envelhecimento, cabe propor “novas maneiras de ser velho”. Isso passa por combater os estereótipos negativos em que os velhos são apenas consumidores, parasitas, excluídos, desesperados em busca de juventude física e aparência ou simplesmente invisíveis. Não se trata de não ter idade nem debilidades. Ao contrário, trata-se de ter todas as idades no exercício da troca de experiências e afetos. Apropriar-se do nosso tempo, do agora. Perceber o corpo, a vida e o tempo não só como limite, mas também, e principalmente, como possibilidade.
Literatura
“Tentei fazer (o romance) uma fórmula ou representação sintética da experiência de viagem, ou um objeto que a contivesse e evocasse: uma lembrança. No fim, a própria vida pode ser considerada uma jornada, ou um deslocamento no tempo que contém outras jornadas, um conjunto finito e ilimitado em que os elementos se relacionam entre si. E na vida, como nesta obra, o viajante não pode determinar suas circunstâncias, embora possa escolher e criar caminhos ao longo da jornada… A língua materna muitas vezes nos leva à repetição por hábito, impedindo que o pensamento se transforme. Portanto, e ao contrário do que possa parecer à primeira vista, escrever em uma língua estrangeira, em vez de uma dificuldade ou limitação, é uma ferramenta para explorar e descobrir dimensões…” (Novela souvenir)
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Hakim Bey diz que “as palavras pertencem a quem as usa, mas apenas até que alguém as roube novamente”. Arrisco-me a usar duas palavras um tanto desgastadas pelo uso de expressões idiomáticas, nomadismo e hacking, tanto para descrever meu processo quanto para delinear uma ideia de literatura como um bem comum. Um nômade é alguém que toma emprestado um território, um abrigo, uma língua; usa-os, explora-os, mas não os possui nem congela seu significado. Hacking é o procedimento de entrar ou invadir um sistema e alterá-lo. Cada nova forma de fazer literatura afeta o significado da literatura como um todo. Não existe um único significado fechado, a priori, para a literatura. Palavras, línguas, a própria literatura são propriedade coletiva e, portanto, ao contrário do que ditam a modernidade e o mercado, são códigos abertos para uso e transformação criativa.
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Estamos em um processo acelerado de transformações nas formas de ler, produzir, entender e difundir textos. Nas últimas décadas tem havido grande apropriação das ferramentas da arte, da ficção, da poesia, do jornalismo, da edição e difusão. Nunca se escreveu nem se leu tanto. As instâncias de valoração, no entanto, permanecem em sua maioria ancoradas em conceitos e normas que visam estabelecer autoridades para vender comportamentos, nomes, tendências. Como acontece com outros tipos de bens, a maior produção literária corresponde uma maior concentração da propriedade dos meios.
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A literatura, ao contrário do que nos tentam fazer crer, não é neutra, nem eterna, nem universal, nem nacional, nem absoluta ou sedentária. Como as demais atividades criativas, se constrói e se lê desde o contingente, o mutável. Desde uma migração. A escritura e a leitura são tanto atos de construção como de destruição do romance, da biografia, de qualquer gênero que se apresente como tal e também da aturoria. O sentido e a criação se dão no processo. Portanto, no comunitário e no coletivo. No plural: literaturas.

