
MARIA ALZIRA BRUM LEMOS
King Kong não cabe num táxi, porque é um gorila gigante. Muito menos se o táxi em questão é um fóssil mecânico que, resistente, permanece ativo como veículo de passageiros na Cidade do México.
Embora a “coisa” ou a res King Kong não caiba num táxi, as palavras King e Kong, e a história que evocam, podem perfeitamente caber na palavra táxi mediante um exercício de raciocínio lógico-dedutivo, imaginação e retórica, ou seja, algumas das habilidades que se supõe nos diferenciam dos outros primatas.
A história é conhecida. Kong, um deus para os habitantes de uma ilha remota, termina morto pelo arsenal bélico estadunidense. Metáfora do suposto conflito entre “civilização e barbárie” ou de nossa trágica condição de ser ao mesmo tempo primatas e humanos.
Voltemos ao táxi. Tudo começou no momento em que, há uns 20 minutos, tomei este para ir à casa de uns amigos.
Entrei, dei o endereço ao motorista, um senhor baixinho e com farta cabeleira, e aguardei a pergunta habitual dos taxistas desta cidade, que veio em seguida: em que você trabalha? Sou artista. Pinta quadros? Não (na verdade não sei pintar nem desenhar). É atriz? Não. É poeta? Não (uma poeta neste ponto do texto já teria resolvido a equação e feito King Kong, sua história e muitas outras coisas caberem num táxi).
Adentramos uma grande avenida. Tráfico lento, calor. Pelo rádio ouvi a temperatura: 24 graus. Talvez na estação meteorológica ou no estúdio, não dentro dessa lata velha sem ar-condicionado cercada de cimento, asfalto, vidro, plástico e metal e incontáveis materiais sintéticos.
Eu me defendi com monossílabos, e ele parou de falar. Até que vi, no piso, um boneco de plástico e retomei a conversa. E este King Kong? Desculpe, não entendi, disse. Este King Kong, repeti, erguendo o objeto como prova física (uma poeta resolveria com a retórica) de que não me referia a algo hipotético ou absurdo.
O boneco era preto e oco, com uns 30 centímetros de altura, forma de gorila e uma abertura na cabeça. Poderia ser apenas isso. Mas não. A forma do boneco, como um poema bem feito, indicava que se tratava de uma figura de King Kong e que era, ou tinha sido, uma espécie de cofre.
Agora era o motorista quem me devia respostas, o que me fez sentir que passara a ganhar a batalha (física ou retórica, de qualquer forma, inútil) “Civilização x barbárie”. Não vi que estava aí, alguma criança deve ter esquecido. Muita gente esquece coisas no táxi. Quase sempre guarda-chuvas, às vezes celulares, destes eu consigo achar o dono. Só uma vez encontrei uma boneca. Se você quiser, pode ficar com ele.
Comecei a pensar no que poderia fazer com o King Kong. Os espaços nas grandes cidades são disputados por coisas rentáveis como, por exemplo, pelos menos às vezes, a arte contemporânea.
No filme de 1933 (depois apareceram remakes, séries e videogames), um grupo de artistas fracassados chega à ilha onde Kong é adorado. Os indígenas sequestram uma atriz e a entregam como oferenda ao seu deus. Ele se apaixona por ela. O líder do grupo, por meio de um plano engenhoso, consegue que Kong seja capturado e levado a Nova York. Ali o enjaulam, lhe dão o apelido King, o tornam rentável e, finalmente, como ele se rebela e escapa, o matam em uma grande operação de guerra. A atriz se compadece de Kong, mas não pode fazer nada por ele.
E eu, o que posso fazer com e por este King Kong? Talvez usá-lo para uma instalação que consistisse em espalhar pela cidade objetos de diferentes rituais, como representações de aluxes e, por que não, brinquedos industrializados. Incluí-lo nesta obra permitiria alterar o roteiro, restituir a King Kong sua condição de deus, dar-lhe um novo lugar na cidade, mais além da ideia de guerra e oposição entre “nós e eles” e questionar esta dualidade e nossa tragédia. Tudo bem explicado num projeto e, depois, para o público ávido de lazer e divertimento.
No rádio insistiam nos 24 graus. Na Avenida, com o trânsito praticamente paralisado, a sensação era de mais de 40. Em meio a altares, fósseis mecânicos altamente poluentes, sacrifícios a divindades da indústria cultural e metáforas mais ou menos óbvias, minha mente evocava best-sellers, filmes, séries reais e imaginários: primata nu, primata interior, primata pensante, primata no espelho, primata no táxi, planeta dos primatas.
Poderia usar o boneco como modelo para construir uma série de figuras de arame e de pelúcia, recordando a experiência cruel em que alguns filhotes de macacos foram separados de suas mães e colocados com mães substitutas, uma de arame e outra de pelúcia. Os cientistas colocavam comida na mãe de arame e os filhotes se alimentavam. Saciados, corriam para a mãe de pelúcia, onde passavam o resto do tempo. Segundo se divulgou, esta experiência demostrou que o estímulo era a “unidade básica da ação social”, sendo tão importante para a sobrevivência dos macacos quanto o alimento ou o ar. Uma crítica ao capital e uma alusão à condição dos artistas nas sociedades atuais, diria o folheto da instalação.
O que não se divulgou é que em outras versões da experiência não houve mãe de pelúcia, e todos os primatas que passaram por elas são filhos de uma mãe de arame.
Finalmente, como os artistas do filme, decidi tomar posse do King Kong.
Ao descer do táxi, só tive tempo de ver tanques, aviões e helicópteros avançando. Queriam explodir meus miolos. Pude sentir os primeiros projéteis, milhões de pontos de dor aguda, fragmentos de filmes, ideias e raciocínios lógico-dedutivos. O ADN do plástico, o dos primatas e o meu fundidos numa instalação ruim.
*Uma primeira versão deste conto foi publicada em espanhol no livro Bienvenido Armagedón! Cuentos sobre el fin del mundo, organizado por Carlos Rengifo. (Lima, Altazor, 2013). Outra versão, também em espanhol, foi publicada em Amostra tátil (Curitiba, Medusa, 1917).
