Mamãe

 

 

 

 

 

 

 

MARIA ALZIRA BRUM LEMOS


Mamãe neurótica e romântica. Mamãe fervores e melancolia. Mamãe brega. Mamãe Beat acelerado, mamãe eu adoro. Mamãe com sua blusa preta, existencialista em pleno trópico. Mamãe ausente, mamãe solteira, mamãe ninguém. Mamãe apostando tudo. Mamãe caminhando durante horas. Mamãe caindo num lugar qualquer. Game over! Mamãe toponímia. Copacabana, Rio Comprido, Rocinha, Tijuca. Méier, Maracanã. Mamãe Assunção. Mamãe geografia. Montanhas, lagos, baías, picos, ocos, vazios. Mamãe ilha. O mar cercando mamãe. Mamãe a água fria de onde saio eu. Mamãe Billie Jean. Mamãe numa viagem alucinógena, sentindo a cidade se inverter e caminhando em nuvens psicodélicas. Mamãe perdendo seu peso. Mamãe de fumaça, mamãe imaterial. Mamãe praia de fotografia. Mamãe notícia no jornal. Mamãe estatística. Mamãe entropia. Mamãe castelo de areia. Mamãe corpo se desfazendo no mar do Rio de Janeiro.

*

Segundo meus parentes, minha mãe não parecia especialmente preocupada ou apreensiva. Embora não soubessem muito da vida dela, pelo que me contaram, era uma mãe solteira como muitas outras. Gostava de música, havia muitos vinis em nossa casa, dela e emprestados, naquela época as pessoas costumavam emprestar discos, e estes, como as histórias, acabavam misturados, indiscerníveis. Minha mãe via telenovelas. Eu preferia os episódios do He-Man e das Tartarugas Ninja.

Mas o que ela mais gostava eram as revistas e qualquer tipo de publicação que vendessem em bancas: horóscopos, receitas, fascículos de biografias de personagens históricos, guias de plantas, manuais de medicina popular, revista Seleções, receituários, almanaques, romances com nome de mulher, como Sabrina, revistas de variedades, ciência, música e até de cinema, embora raramente fôssemos ao cinema. Talvez ela fosse ao cinema sozinha. Talvez. Não tenho ideia de onde ia ou que fazia quando não estava comigo. De qualquer forma, se estiver em algum paraíso, este deve se parecer a uma banca de revistas bem variada e com acervo infinito.

*

Mamãe Menina veneno. Mamãe cercada de eletrodomésticos fálicos, abduzida por ex-hippies que fazem previsões apocalípticas em telenovelas e revistas. Mamãe numa seita futurista com militantes de esquerda intergalácticos que habitam castelos de areia ou de skull. Mamãe máquina automática programada para parar de funcionar em 1985. Mamãe tentando mandar mensagens para o futuro. Mamãe analógica. Mamãe sem conexão. Mamãe Kodak instamatic 1979. Mamãe indo embora. Mamãe saindo de cena justo no momento antes. Mamãe abrindo as pernas e expondo seus pequenos e grandes lábios. Mamãe vagina rosada de onde escorre água viscosa e salgada. Mamãe me parindo e me nomeando. Nome estranho, nome alheio, salto da palavra ao puro significante, perfume, toque de pele. Mamãe no momento antes do fim da história. Mamãe me tornando nome, me batizando na baía da Guanabara. Mamãe alagando a cidade de gozo e nome. Mamãe sacoleira das estrelas viajando na pura superfície, na morte lisa do papel. Mamãe rastro de luz. Mamãe ruído de fundo, radiação cósmica. Mamãe Fullgás. Mamãe ao norte da cidade futura. Mamãe Acari, Brás de Pina, Grajaú, Inhaúma, Madureira. Mamãe Todos os Santos, Maria da Graça, Caju. Mamãe barracas, feiras, bancas. Mamãe e sua herança, este costume de perder-se.

*

Era uma vez, há muitos e muitos anos, uma ilha chamada Itzwarthya. De fato, continua existindo, embora neste momento não se possa vê-la em nenhum mapa. Isso se explica porque Itzwarthya é uma destas ilhas instáveis que aparecem e desaparecem, e os mapas não podem apanhá-las.

Naquele tempo os estadunidenses conheciam sua localização, informação que guardavam, como o projeto do túnel do tempo, a sete chaves porque, com apoio dos malvados oliquentes, que haviam tomado o governo da ilha, exploravam o ostromênio, um metal raro usado principalmente em tecnologia de ponta. Esta era praticamente a única atividade econômica da ilha e ocupava a maioria dos seus habitantes, que entregavam muitas horas e recebiam poucos bilhetes.

Ali também viviam os aquafantes e Iridiayra, uma bela moça que adorava passear pela praia nos entardeceres para observar o mar e as manadas brilhando sob aquela luz tão especial.

Durante um desses passeios, um rapaz estrangeiro se aproximou, sorriu para ela e lhe perguntou o que estava fazendo ali. Ela respondeu que estava observando os aquafantes, e ele achou muita graça na resposta. Ela então lhe perguntou: e você? Ele disse que estava observando uma princesa.

O que é uma princesa? quis saber Iridiayra. Uma moça bonita e poderosa que vive num castelo, disse ele. Iridiayra ficou fascinada com as palavras do rapaz e com o vologuindo, como ele disse que se chamava uma máquina de anotar que levava. Ela nunca tinha ouvido palavras tão bonitas nem visto um vologuindo. Uma princesa pode ter tudo o que quiser? perguntou. Quase tudo, ele respondeu.

A partir desse momento Iridiayra decidiu se tornar uma princesa.

Acontece que Itwzwarthya era um lugar mágico e numa caverna estavam guardados os photogliphos, escrituras de luz que continham os possíveis das palavras. Os poucos que conheciam o segredo dos photogliphos os consultavam como se fossem um oráculo para criar novos sentidos. Isso era útil, por exemplo, para fazer acordos, inventar e descobrir coisas novas e nomeá-las, dar outras explicações às velhas e inclusive para não se aborrecer e mudar os contos, as histórias e, quem sabe, vencer a batalha da História grandona e com maiúscula. Seja como for, o segredo era fundamental para a sobrevivência da ilha.

Obcecada em se tornar princesa, Iridiayra decidiu se apropriar dos photogliphos para que ninguém mais pudesse usá-los e obter o poder que precisava para concretizar seu plano. Todas as noites, ia até a caverna, tirava alguns e com eles começou a construir um castelo perto da praia.

Esta ação, no entanto, traria sérias consequências para a ilha, que já sofria com a dominação estrangeira e o mau governo dos oliquentes.

A crise tinha começado com a exploração do ostromênio, que fazia com que os itzwarthienses não se dedicassem aos cultivos e se esquecessem de consultar os photogliphos. Agravou-se com o aumento dos giriquedeques, pequenos crustáceos que tinham chegado ali como brinquedos para as crianças. Naquele tempo achavam que eram espécies débeis e incapazes de sobreviver por si mesmas longe do seu hábitat, os lagos salgados de Rio de Janeiro. No entanto algumas crianças, porque cresceram ou se aborreceram, o que às vezes é a mesma coisa, se esqueceram de cuidar deles, e os giriquedeques acabaram livres, reproduzindo-se por toda Itzwarthya e gerando espécies mutantes muito potentes. Estas, por sua vez, comeram as plantas, o que provocou escassez de comida para a maioria dos animais, incluindo os aquafantes, que se alimentavam principalmente de um tipo de alga irisada, por isso tinham a pele irisada, e foram desaparecendo.

A tudo isso se somou a queda dos preços do ostromênio. Um país distante tinha desenvolvido um método para produzir um similar sintético, e rapidamente o colocara no mercado a baixo preço. À crise do meio ambiente e ao fim da exploração do ostromênio se seguiram a fome e o êxodo da maioria da população para o continente.

Quando Iridiayra finalmente conseguiu terminar a construção do seu castelo de photogliphos, estes imediatamente se transformaram em areia. Mesmo assim, Iridiayra e o rapaz estrangeiro foram morar ali e tiveram uma filha a quem chamaram Anaïs. Ao perceber que o castelo se desfazia, que Itzwarthya estava virando um deserto de coisas e palavras e que eles se aborreciam, passaram a procurar formas de salvar a ilha e sua própria história.

Um dia, o rapaz teve que partir para uma missão importante e secreta, mas prometeu voltar quando a cumprisse.

Iridiayra e Anaïs trataram de sobreviver. A menina se tornou amiga de um dos últimos aquafantes, que era muito sábio e, além do elefantês no dialeto de água, também sabia falar itzwarthês. Foi ele quem lhe contou que restavam photogliphos intactos numa caverna e lhe mostrou onde ficava. Tiveram então uma ideia para salvar Itzwarthya. À noite, quando todos estivessem dormindo, iriam consultar os photogliphos em busca de palavras e histórias para reconstruir as atividades e a vida na ilha. Assim fizeram, e pouco a pouco foram conseguindo reviver as coisas.

Agora, o castelo é uma casa de tijolos em construção de onde se avistam alguns cultivos à distância. O rapaz não voltou porque não conseguiu encontrar Itzwarthya. Iridiayra e a menina brincam muito e não querem ser princesas.

*

Ela caminha pela praia quando um castelo de areia meio desfeito chama sua atenção. Para e começa a observá-lo. Enquanto está assim, abstraída, um rapaz de jaqueta escura com uma espécie de caderneta na mão se aproxima, sorri para ela e a cumprimenta um tanto tímido. −Oi…

É um rapaz moreno, ela não sabe dizer se é bonito, não consegue reter suas feições. Como costuma acontecer quando alguém nos agrada imediatamente, e ele lhe agradou assim, por ter essa qualidade própria dos habitantes da memória e dos sonhos, a de uma saudade misturada com uma projeção.

Ela responde ao cumprimento −Oi− e acrescenta uma pergunta (ela não é, ou não parece, tímida). −O que você está fazendo por aqui?

−Estou criando o mundo −responde, apontando a caderneta sem deixar de sorrir.

−Então vamos registrar este grande feito −diz ela, recolhendo do chão uma sacola e tirando uma câmara.

−Você é fotógrafa?

−Não, quem me dera. Sou sacoleira. Vendo coisas que trago do Paraguai, relógios, radiocassetes, perfumes, câmaras também. Esta é sensacional, a mais recente da Kodak. Vem num estojo com flash e um carretel. –Estende a câmara−. Pode examinar se quiser.

Enquanto ele pega desajeitadamente a câmara, se olham nos olhos. −Não sou muito bom com este tipo de…

−Com esta qualquer um pode tirar fotos, é automática.  Foi planejada como um produto direcionado ao público feminino, que segundo os fabricantes não entende do manejo de câmaras e artefatos mecânicos. O que você faz?

−Eu estudava, terminei o colégio e ia entrar na universidade. Melhor dizendo, vou. Quero estudar jornalismo ou sociologia, gosto de escrever…

−Você está estudando?

−Não. Parei por um tempo.

−Política?

−…

−Não se preocupe, sou sacoleira, não agente do DOPS. Além disso, as coisas mudaram…

−Nem tanto, ainda faltam muitas mudanças… Onde você mora?

−No Méier. E você?

−Que coincidência! Eu também.

−Não diga! Juraria que você é da Zona Sul.

−Pareço tão burguês?

−Não −sorrindo−, burguês não. Parece culto.

−Obrigado. Posso perguntar com quem você mora? É casada?

−Não sou casada. Moro com a minha mãe.

−Por quê?

−Por que o quê?

−Por que não é casada? Você é bonita…

−Isso é o que todo mundo me diz −ri−, você podia ser mais original. Não leve a mal, é brincadeira. Venha, vamos tirar uma foto. Assim teremos como provar que o mundo foi criado hoje e que a câmara funciona devidamente.

A proposta o surpreende. −Não sei…

−Não se preocupe. Já disse que sou sacoleira, não agente do DOPS. Você não fez nada de mal, não é?

−Não, juro que não.

−Venha, vamos pedir a alguém para tomar a foto.

*

Percebi bem cedo que Anaïs era um nome idiossincrático, pelo menos no meu meio, já que foi somente na adolescência que vim a saber sobre minha homônima escritora. No entanto, durante minha vida escolar Anaïs esteve longe de ser o nome mais estranho da lista de chamada. Ainda soa na minha memória Sonielson presente, Wellizandra presente, Kelvin e Maikel (eram gêmeos) presente. Iridiayra também não é nada comum e, pensando agora, Paraguaia, embora fosse um apelido, também me soa estranho. (Estranho, apelido, paraguaia).

Os mecanismos pelos quais os pais nomeiam seus filhos são os mais diversos. Vão da eleição apoiada puramente no som a referências a personagens de romances ou de telenovelas, sendo que estes últimos são particularmente comuns. O meu nome vem de Anaïs Anaïs, perfume lançado no ano em que nasci e descrito no catálogo do fabricante como “feito para mulheres sensuais, femininas e sensíveis com uma fragrância buquê floral, combinando notas de flor de laranjeira, tangerina, jasmim, sândalo, cedro e âmbar”. Ao contrário do que muita gente pensa, o nome do perfume também não foi inspirado na escritora e sim em Anaites, deusa do amor na Pérsia antiga. O nome, duas vezes pronunciado, continua o fabricante, volta como um eco.

Este perfume se tornou muito popular entre as clientes da minha mãe, e ela também o usava. Além disso, ela gostava como ecoava Anaïs Anaïs (Anaïs, gostava, soava, sândalo, cedro, jasmim, Anaïs). Terá ouvido falar da escritora? Seja como for, isso não determinou sua escolha. O meu nome, portanto, vem de um som, puro significante. Como Kelvin, Maikel e Sonielson. Não é lindo? Não é pura poesia? (Som, é lindo, Kelvin, Maikel, Sonielson).

Em todo momento um nome, alguém, nasce de um texto, de uma história, de um romance, de uma telenovela, de um ruído de fundo e até de uma marca. Por isso todos deveríamos nos apropriar, nem que seja uma vez, dos nossos nomes, reinventá-los, dar-lhes um novo conjunto de referentes e manejar de alguma forma a poesia da vida.

Eu nasço de uma fotografia e meu nome soa significante, singular, referência a uma qualidade, a um perfume, a outra pessoa, a uma deusa e a um produto comercial.

Quanto ao homem que aparece na foto com a minha mãe, deve sua existência a mim. Se não fosse meu pai, seria ninguém (fosse, seria, pai, ninguém), um rosto como os que aparecem nas fotos das feiras de antiguidades. De modo que sou eu, Anaïs, quem o resgata da morte, da fria superfície lisa do papel. (Anaïs, superfície, seria). Eu, Anaïs, sou sua mãe e lhe dou existência, voz e história.

*

Talvez eu devesse incluir este texto como meu próprio testemunho para o projeto de história em que estou trabalhando. A música que acompanha o relato é 1979, do Smashing Pumpkins. Talvez isso ultrapasse muito os limites do gênero. Talvez.

 

Trechos são do livro inédito Anaïs: um quase romance. Uma versão em espanhol, reduzida e bastante diferente, foi publicado na revista La Palabra, editada pela Escola de Idiomas e pelo Mestrado em Literatura da Universidade Pedagógica e Tecnológica da Colômbia. O livro completo em português deve sair este ano.


REVISTA TRIPLOV 

Primavera 2026. Maria Alzira Brum Lemos .

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