Realidade total

 

 

 

 

 

 

 

MARIA ALZIRA BRUM LEMOS


Que cada galinha nascida aqui saiba
que o céu vai se abrir
e já não será tão azul
vai ficar um buraco
e pobre de quem que se aproximar
Diego Maquieira, “Hospício”

 

 

−Quer brincar?

−Não agora.

−Quer brincar?

−Não com você.

−Quer brincar?

−Não.

*

O não, apesar de ter apenas três letras, era maior do que muro, parede, edifício, muralha, grade e a maioria das palavras que eu conhecia.

Em frente ao Clube Literário, o mais exclusivo da cidade, havia um não. Um NÃO enorme, apavorante, com tentáculos que alcançavam todas as entradas e saídas.

Eu queria muito entrar no clube. Por isso, um dia, dei um pulo e subi no NÃO.  Só que o NÃO, além de grande, era sinuoso, e eu não tinha onde me segurar. Escorreguei e fui deslizando cada vez mais rápido pelo NÃO, como num tobogã, até que…

Tchbun!

Caí na piscina do clube.

*

Nessa época, nós morávamos em uma casa na Praça do Matadouro, assim chamada porque ao fundo ficava o matadouro municipal.  A casa era antiga, tinha uma planta intrincada e janelas pesadas e emperradas, difíceis de abrir. As tábuas do piso às vezes cediam sob o peso dos móveis. Os ratos e os insetos, que tinham chegado ali bem antes de nós, resistiam aos venenos e armadilhas.  Quando chovia, formavam-se goteiras por toda parte.

Meu Pai tentava consertar as coisas, lutava dia após dia contra os estragos e o desgaste da casa, que requeria uma reforma que não podíamos pagar. Minha Mãe limpava, fazia bicos, colecionava caixas, que também usava como decoração, e às vezes chorava.

A casa resistia e, de certa maneira, justificava as atitudes dos meus pais: tentativa, limpeza, choro. Assim íamos levando, como eles diziam, com alguns dias festivos e de folga, quando saíamos para passear ou visitar parentes ou amigos.

*

O portão do matadouro ficava fechado a maior parte do tempo. Nós, as crianças, nunca nos aproximávamos dele, não só porque nossos pais não deixavam, mas principalmente porque tínhamos medo e nojo. Sabíamos por um menino cujo pai trabalhava lá como, atrás do portão, acontecia o processo de transformação de uma coisa, o gado, em outra, a carne. Segundo ele, davam choques nas reses para atordoá-las e depois as matavam a marretadas.

Nos dias de semana, os caminhões de carga passavam em frente à nossa casa. Alguns levavam o gado para o matadouro. Eu percebia que o gado ia, mas não voltava. Na volta, os caminhões traziam carne e restos.

Havia também caminhões que carregavam gente, os trabalhadores da roça, ou da “turma”, como chamavam na região o grupo que todos os dias ia para o campo com grandes chapéus e várias camadas de roupa para se proteger do sol. Eu não sabia o que acontecia no campo, mas, pelo menos aparentemente, os trabalhadores iam e voltavam do mesmo jeito: trabalhadores.

Bom, nem sempre. Uma vez, quando passava pela praça, um deles achou que o caminhão ia entrar no matadouro. Ao imaginar-se como uma rês atordoada por choques e depois morta a marretadas, ficou tão assustado que pulou da carroceria. Desde esse dia, ficou mudo e passou a morar na praça e a depender da caridade dos vizinhos que o apelidaram de Susto, tal vez por sua expressão constantemente assustada, tal vez porque sua aparência suja e transtornada assustasse. Às vezes, diziam, entrava sigilosamente nas casas e dormia nos porões.

*

Nossa casa quase não pegava sol. A entrada dava para um corredor com duas portas laterais que se abriam para os quartos. No final do corredor ficava a sala, que tinha uma única janela e uma porta para a cozinha. Na cozinha, havia portas para o banheiro e o quintal e uma janela para um pequeno pátio que dividíamos com a Vizinha do Lado A.

Quando nos mudamos para lá, eu e Minha Irmã éramos pequenas e gostávamos de brincar na cozinha. Num domingo em que tínhamos saído atrás das Felicidades (sem sucesso, porque, embora se diga que andam por aí nos domingos, as Felicidades são muito escorregadias; quando a gente acha que as alcançou, deslizam para outro lugar), a Vizinha do Lado A, para isolar o barulho das nossas brincadeiras, bloqueou a janela. Meus pais, para não se incomodar, como costumavam dizer diante de algumas situações, não fizeram nada.

Paramos por um tempo de brincar ali. Mas logo nos acostumamos à escuridão e voltamos a fazê-lo. Até inventamos novas brincadeiras, como a das criaturas abissais.

As criaturas abissais vivem no fundo do mar, onde a luz é escassa. São praticamente cegas, e sua anatomia e fisiologia estão adaptadas para sobreviver na escuridão. Suas formas são criativas, coloridas, chamativas, fosforescentes. Elas captam a luz e se alimentam e se comunicam por meio dela.

Eu e Minha Irmã, como as criaturas abissais, vivíamos buscando os pontos luminosos da casa. Entre as fontes de luz estavam o rádio, a televisão e a máquina de lavar, adquiridos com sacrifício, à prestação, como Minha Mãe costumava lembrar-nos. A máquina de lavar ficava num canto da cozinha e acendia uma luzinha vermelha quando estava em movimento.

*

Entre nossos brinquedos favoritos estavam Ge e Gi, as bonecas que nossos pais, com sacrifício, enfatizavam, tinham nos presenteado em uma data festiva. Um dia, no mundo abissal, elas se desentenderam.

−A sereia sou eu  −disse Ge.

Gi discordou: −Não! Você já foi sereia outro dia, agora é minha vez.

Como não chegaram a um acordo, se engalfinharam em uma luta bestial até se despedaçarem.

Depois da briga, Meu Pai recolheu os pedaços dos corpos espalhados pela cozinha. Consertou as bonecas, mas, como a única diferença entre elas era a cor do cabelo, loiro o de uma, castanho o de outra, não conseguiu encontrar os pedaços corretos e as rearmou misturadas.

Para mim e Minha Irmã isso não fez nenhuma diferença. Ainda continuamos brincando com Ge e Gi durante alguns anos.

*

A casa, como se estivesse viva, mudava o tempo todo. Essas mudanças, embora significassem que estava se desmantelando e morrendo, como cedo ou tarde acontece com todas as coisas vivas, eram bastante criativas. Por exemplo: de repente, quando alguém ligava o chuveiro, as paredes e as torneiras começaram a dar choque. Essa situação perdurou por meses antes que Meu Pai conseguisse consertá-la. Enquanto isso, levamos vários choques por acidente.

Já no hospital psiquiátrico que ficava a poucas quadras, os choques não aconteciam por acidente. Lá dentro, além de uma fábrica de tecidos, havia máquinas para aplicar choques nos internos quando eles se descontrolavam.

Isso acontecia quando os internos-operários, que usavam uniformes azuis, além de tecidos, fabricavam outras tramas: sintéticas, estranhas, emaranhadas, dolorosas, a maioria incompreensíveis. Nessas ocasiões, trabalhavam com fios de luz, tecendo, emendando, desmembrando, desnomeando, inomeando e renomeando as coisas.

*

Os internos frequentemente fugiam, ou pelo menos tentavam, dos choques e da fábrica. Em geral não iam muito longe, porque os funcionários do hospital, alertados pelos vizinhos, os levavam de volta à força.

Certa vez, um destes fugitivos foi parar em cima da única árvore do nosso quintal, onde eu estava brincando no balanço de corda e madeira que o Meu Pai tinha construído. Quando vi o Homem de Azul, fiquei com medo. Mas ele disse que não ia me fazer nada de mal e pediu que eu não contasse a ninguém que estava ali. Acreditei nele, e começamos a conversar. Entre outras coisas, ele me disse que não estava louco e sim preso dentro de uma música estrangeira.

Entendi mais ou menos o que isso significava porque, desde o dia em que caí na piscina do Club Literário, ouvia insistentemente uma música, embora achasse que era ela que estava presa em mim e não eu nela.

Seja como for, eu ainda não conhecia muitas figuras de linguagem nem palavras estrangeiras, não tinha aprendido nenhum acorde e nunca tinha ouvido a música que ele cantarolou. Pedi então que descesse da árvore e empurrasse o balanço. Ele aceitou. −Mas só um pouquinho –disse– ou os enfermeiros do hospício  –ele dizia hospício, nunca hospital psiquiátrico –podem me encontrar.

−Olha só −falei, orgulhosa por saber alguma coisa. −Consigo ficar parada no ar, como se estivesse suspensa, no ponto mais alto da trajetória.

Ou foi isso que eu quis dizer ou acho que disse. Não devo ter usado a metáfora “como se estivesse suspensa” porque não conhecia meu idioma materno o suficiente para fazê-lo. No entanto, não poderia agora explicar de maneira mais clara o fato de que eu conseguia mesmo levitar.

*

Talvez você não tenha percebido, mas entramos em uma autobiografia criativa.

*

De madrugada, quando todos estavam dormindo, eu escutava um programa de rádio em que os ouvintes contavam casos por telefone. Nessa altura, devia ter uns 8 anos, já entendia que todas as histórias misturam o próprio e o alheio, a realidade e a imaginação. Mais que escutar, eu sentia o que os ouvintes contavam. Via e vivia as cenas e situações não apenas como se estivessem acontecendo diante de mim, mas também como se eu mesma fosse a narradora, a protagonista e cada um dos personagens.

Um homem que tinha montado uma pensão em sua casa contou que às vezes dava falta de uma parte do dinheiro que costumava guardar em uma caixa. Armou então um plano para descobrir o ladrão. Fingia sair, como costumava fazer todas as tardes, só que voltava em seguida sem que ninguém o visse, ia para o seu quarto, se escondia atrás do armário e ficava esperando que este aparecesse.

Depois de algumas tentativas, o plano funcionou. A porta do quarto se abriu, alguém entrou e se dirigiu ao móvel onde estava a caixa. Do seu esconderijo o homem distinguiu claramente o ladrão: era o seu pai. Não falou nada, se manteve quieto até o velho sair. A partir desse dia, calculando a quantia que poderia dar ao pai caso este lhe pedisse, continuou deixando dinheiro na caixa como se nada tivesse acontecido. O pai nunca lhe pediu. De vez em quando, pegava sua parte. Não como pai, mas como ladrão.

Uma mulher contou que morava sozinha na cidade que começa com a letra M. Ela e sua casa tentavam resistir juntas ao tempo, aos insetos, aos ratos e aos especuladores que queriam o terreno para construir um edifício comercial. Ela era calada, asseada, um pouco surda, sofria do coração e todos os dias varria a casa cantando músicas antigas, principalmente tangos.

Uma garota contou que rompeu algumas regras e por isso decidiram expulsá-la da universidade. Mas não chegaram a fazê-lo. Ela saiu por sua própria conta. Fugiu mudando de tema, de rumo e de regras, e escreveu um livro.

*

Intercaladas com as histórias, o programa tocava músicas que o DJ qualificava com cores. As azuis e amarelas eram mais frequentes. Nenhuma era vermelha, porque só os tangos são vermelhos e o programa tocava apenas rock e pop.

Só uma música era violeta, e era exatamente esta que estava tocando no rádio da nossa camionete, antiga e barulhenta e que quebrava tanto ou mais do que a casa, quando caiu em um barranco durante um passeio.

Saímos sem nenhum arranhão, apenas um pouco assustados. Meu Pai consertou o carro e finalmente fomos para uma praia, onde acampamos. Choveu quase todo o tempo. A barraca inundou, e tivemos que voltar antes do previsto.

 

Depois disso, nunca mais fomos acampar.

*

Segundo o Meu Pai o problema na camionete foi causado pelo cardã, peça que levava a força do motor, situado na parte dianteira, para as rodas traseiras.

O cardã, como o nome indica, foi inventado por Girolamo Cardano (1501-1576), que, além de inventor, foi filósofo, médico, matemático, enciclopedista e astrólogo. Publicou, entre outras, uma autobiografia, um guia para a interpretação dos sonhos e um manual descrevendo jogos de azar e as precauções que os jogadores devem tomar para não cair em armadilhas. Devido a esta amplitude de interesses, foi processado pela Inquisição.

Em sua autobiografia, se descreveu como “genioso, astuto, hábil, diligente, sarcástico, impertinente, melancólico, traidor, feiticeiro, miserável, odioso, lascivo, obsceno, mentiroso, servil e chegado a conversas de velhos”. Segundo o programa de rádio The Engines of Our Ingenuity, seu próprio filho o acusou diante dos inquisidores.

*

O Homem de Azul ficou um tempo morando na árvore. Conversávamos com frequência e ficamos amigos, mas nunca nos dissemos nossos nomes. Às vezes ele me chamava de fada. Outras, me confundia com uma enfermeira do hospital que tinha sido sua amante (Minha Mãe usava esta palavra para esconder outra que ela achava maior e mais feia: puta) e passeava com ele aos domingos. Havia dias em que me chamava de filha, mas depois dizia que não tinha filhos e que eu inventava coisas como, por exemplo, As Felicidades. Eu lhe expliquei várias vezes que não fui eu quem as inventou, que elas já estavam deslizando pelo mundo quando eu nasci, mas acho que ele não entendeu.

Eu e Minha Irmã também não usávamos nossos nomes quando brincávamos. Éramos Ge e Gi, como as nossas bonecas. Éramos Ge e Gi, sobrinhas de uma senhora rica da Capital. Éramos Ge e Gi, lindas artistas de televisão. Éramos Ge e Gi, mendigas órfãs que moravam na rua e não tinham que ir à escola, tomar banho nem obedecer a ninguém nem a nada. Éramos Ge e Gi, donas de uma boutique muito mais chique que a mais chique da nossa cidade..

*

No dia em que caí na piscina do Clube Literário era Carnaval. Os Cossacos Naïfs, meus colegas de escola que eram sócios, se divertiam cantando e dançando. Todos, meninas e meninos, estavam vestidos com roupas de mulher com detalhes exagerados. Quando perceberam que eu não sabia nadar, estava me afogando e me debatia pedindo socorro, começaram a caçoar de mim:

−Bem feito! Quem mandou entrar sem convite?

Esperaram que eu estivesse quase sem fôlego para me tirar da água. Em seguida me pintaram e me colocaram uns enfeites grotescos para que eu também parecesse fantasiada e me levaram para fora como insetos carregando um doce. Pensei que iam me devorar ou algo parecido, mas não consegui reagir.

Assim que saímos, me colocaram no chão, me cercaram e continuaram caçoando enquanto caminhávamos. Seguimos por algumas quadras até que finalmente me deixaram ir embora.

Nesse dia descobri que as músicas de carnaval, que também não tocavam no programa que eu costumava ouvir, são cor-de-laranja.

*

Os Vizinhos do Lado B tinham uma coleção de revistas. Eu ia quase todos os dias à casa deles para lê-las. Frequentemente levava algumas emprestadas, e nem sempre as devolvia.

Muitas dessas revistas estavam em mal estado. Várias não tinham capa ou se reduziam a umas poucas páginas, o que interrompia a sequência dos textos. Outras estavam mofadas, rasgadas, manchadas ou meio comidas pelos insetos. Mesmo as que estavam completas não eram muito legíveis, não só porque eu não conhecia os referentes dos textos, mas também porque muitos deles eram anacrônicos. Apesar disso, ou talvez por isso, quase sempre me impressionavam.

Um dos textos que estavam completos contava a história de um menino cujos pais o torturaram colocando-o dentro de uma máquina de lavar onde ele, repetindo sua inocência ou sua culpa, imagino que atordoado e um pouco como um disco riscado, girou até morrer.

*

Nossa máquina de lavar, da marca Literatura e fabricada na década de 60, embora desligada da tomada, continuava funcionando.

E eu estava dentro.

A máquina tremia, saltava, roncava, sacudia, resistindo à sua natureza de objeto fabricado para ser alimentado por uma fonte de energia e parar quando esta cessasse, para funcionar segundo a resistência do conjunto de seus materiais com relação a uma combinação de fatores físicos e químicos, como atrito, temperatura, umidade e condições de uso.

Quando parecia que ia parar, voltava a girar com um agônico gemido mecânico. Os movimentos da Literatura comprimiam os meus órgãos. Parecia que a máquina, para continuar funcionando, precisa sugar minha energia.

De repente, Meu Pai entrou na cozinha, foi até a caixa de ferramentas, pegou um martelo e deu várias pancadas na Literatura. Ela ainda girou uma vez num último esforço de resistência, soltou um estertor e, finalmente, parou meio destruída, com parte da engrenagem à vista.

Saí correndo em direção à Minha Mãe, que me amparou chorando enquanto repreendia o Meu Pai:

−O que você fez com a Literatura? Você a destruiu! E agora?

Achei que ele ia dar uma martelada na cabeça dela, proporcionando o trauma que impulsionaria minha vocação para a escritura e um tema para o meu primeiro texto, um conto policial. Mas, em vez disso, ele colocou o martelo de volta na caixa, recolheu os restos da máquina, envolveu-os cuidadosamente em folhas de jornal, depositou-os ao lado da lata de lixo e saiu em direção à sala sem dizer nada.

Minha Mãe continuou chorando, não sei se por mim, pela Literatura, pela indiferença do Meu Pai, pelos afazeres cotidianos ou por tudo isso junto.

*

Talvez você não tenha percebido, mas entramos em um conto policial.

*

Por muito tempo eu não soube falar deste assunto porque me faltavam palavras, porque não conhecia a língua, porque não tinha chegado à lição do curso de inglês que explica bullying. Tinha ficado nos primeiros capítulos de cortesia de um método com discos de vinil, em um discurso giratório e truncado. I’m Jim O’Hara. My wife is Mary O’Hara. My friends call me Jimmy. Repeat. I.m Jim O’Hara. My knife is Mary O`Hara. My friends call me Jimmy the ripper porque sou meu próprio matadouro e mato em domicílio. Repeat. My life is a broken machine. I`m Jimmy the hunter e vou cortar sua cabeça, arrancar suas entranhas e usá-las em uma obra de arte conceitual.

 

 

Trechos do livro Realidade total, publicado no Brasil (São Paulo, Desconcertos, 2018) e no México (Cidade do México, Mastodonte, 2023).


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