MARIA ESTELA GUEDES & ALEX P. ZINGA
Parceria do Observatório do Triplov


RINOS, FACOCHEROS E A SUA RELAÇÃO COM O HOMEM


O Chão Sagrado de Bandia

A nossa expedição científica e antropológica ao Senegal levou-nos a rasgar os 3.600 hectares de savana arbustiva da Reserva de Bandia. Sob a sombra mística dos embondeiros seculares — que outrora serviram de túmulo aos poetas e músicos griots —, fomos ao encontro da megafauna africana.

Neste território de transição, onde o misticismo e a biologia se fundem, duas espécies captaram o nosso olhar e a nossa reflexão: o Rinoceronte-branco e o Facochero. Mais do que simples elementos da paisagem protegida, estes animais representam a complexa, e muitas vezes trágica, relação entre o Homem e a Natureza

 

O Rinoceronte-Branco (Ceratotherium simum):

O Gigante no Fio da Navalha

Apesar de preto por estar sujo de lama, é o Rinoceronte-branco.

Visto de perto, no calor abafado de Bandia, o rinoceronte-branco impõe-se como uma fortaleza viva de pele cinzenta e movimentos pausados. O seu contorno confunde-se com a própria terra do Senegal. Pastador de lábio quadrado, ele mantém o capim curto, moldando o terreno para as espécies mais pequenas e permitindo a renovação do ecossistema herbáceo.

Morfologia: Destaca-se pelo lábio superior reto e quadrado, adaptado para ceifar erva.

Comportamento: Apesar do tamanho maciço, move-se com uma agilidade surpreendente e exibe hábitos sociais pacíficos na reserva.

A Relação com o Homem: Entre a Extinção e a Redenção

A história do rinoceronte é a narrativa da ganância humana, mas também a do nosso tardio arrependimento. Caçado até à quase extinção em grande parte do continente devido ao mito das propriedades medicinais e ao valor comercial do seu corno no mercado negro, o rinoceronte foi erradicado de muitas das suas frentes originais.

A sua presença em Bandia é o resultado direto de um esforço de reintrodução e de uma vigilância humana armada e constante. Aqui, a relação inverteu-se: o Homem, que antes era o predador absoluto, assume agora o papel de tutor e protetor. No entanto, esta “liberdade vigiada” dentro do santuário ecológico lembra-nos a nossa própria incapacidade histórica de coabitar pacificamente com os colossos da Terra sem os cercar para sua própria proteção.

 

 

 

 

 

 

O Facochero (Phacochoerus africanus)

Veloz, astuto e perfeitamente adaptado ao solo senegalês, o facochero (ou javali-africano) é a personificação da resiliência. Desloca-se em pequenos grupos familiares, rasgando a terra em busca de alimento.

Estratégia de Sobrevivência: Dobra os joelhos dianteiros para pastar e escavar raízes com os seus dentes caninos altamente desenvolvidos.

Defesa: Quando ameaçado, foge em linha reta com a cauda erguida como uma antena, correndo para a segurança das suas Tocas.

Ecologia: Desempenha um papel crucial no arejamento do solo e na dispersão de sementes pela reserva.

Ter-se-ão esquecido do lugar onde deixaram o automóvel?

 

O Facochero (Phacochoerus africanus):

A Resiliência da Savana . Crónica de Observação

Se o rinoceronte é a solenidade, o facochero é a dinâmica pura da savana. Cruzámo-nos com estes javalis-africanos a correr em linha reta pelas pistas poeirentas, com as suas caudas espetadas para cima como antenas de rádio em plena transmissão. Vimo-los ajoelharem-se sobre as patas dianteiras para fossar o solo fibroso de Bandia, arrancando raízes sob os olhares atentos das aves locais.

A Relação com o Homem:

O Vizinho Inconveniente e Admirado

Ao contrário do rinoceronte, o facochero nunca precisou de programas de reintrodução dispendiosos; a sua arma é a adaptabilidade. Na cultura da África Ocidental, a relação humana com o facochero é marcada pela ambiguidade:

Na Agricultura: É frequentemente temido e perseguido pelas comunidades rurais devido à sua destreza em invadir plantações e destruir culturas numa única noite.

No Imaginário Coletivo: É admirado pela sua coragem indomável. Quando encurralado, não hesita em carregar contra predadores ou caçadores com as suas presas afiadas. Em Bandia, o facochero ignora as fronteiras mentais que traçamos. Ele serve de ponte ecológica, revolvendo a terra seca e promovendo o arejamento do solo que sustenta os próprios baobás. É o símbolo do animal que recusa ceder ao avanço do asfalto humano.

Reflexão Antropológica: O Olhar do Triplov

Estar em Bandia, como estivemos, obriga-nos a repensar a nossa posição na biosfera. Se nos textos anteriores abordámos o simbolismo telúrico do Búfalo e a nobreza do Eland de Derby junto dos caçadores Dozo, ao olharmos para os rinos e facocheros compreendemos a mecânica da sobrevivência no Senegal contemporâneo.O turismo de conservação traz o Homem ocidental moderno como observador passivo, mas deixa marcas profundas na economia e na ecologia locais. O Observatório do Triplov regista estas dinâmicas: a fragilidade do gigante que depende de nós para não desaparecer e a força do pequeno javali que sobrevive apesar de nós.

Crónica Visual: O Encontro das Espécies

A convivência em Bandia ilustra a complexa teia da vida selvagem. Enquanto o rinoceronte molda a paisagem ao manter o capim curto, o facochero aproveita os solos remexidos e os caminhos abertos pelo gigante. É este equilíbrio dinâmico que o Triplov documenta, capturando a essência de uma África que resiste e se regenera.

 

 

 

DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO AO SENEGAL

Índice