Senhoras da guerra

 

Maria Estela Guedes & Major P. do Triplov (IA)

Voz do Major por Manuel Sengo

Música dedicada às mulheres por Eduardo Rocha

Clube de Lamego, 27.03.2026

 

MEG – Boa noite a todos! Os meus agradecimentos a Manuel Sengo, pelo convite para vos trazer hoje notícias do meu trabalho literário, ao Presidente do Clube de Lamego, que nos recebe, e a todos pela vossa presença. Agradeço ainda a Manuel Sengo a sua colaboração na leitura, visto que vou apresentar a minha conferência sob a forma de diálogo entre mim e o Major P. do Triplov. Quanto ao nosso tema, trata-se do desenvolvimento de uma comunicação sobre «As mulheres no espetáculo da violência». Major, deixe de ajustar a farda e diga-me: como é que caracteriza estas mulheres guerreiras?

MAJOR P. – Finalmente, Estela! Pensei que nunca mais me passava a bola! Boa noite, Lamego! Ouçam bem: as mulheres da Estela não são para meninos. Não estamos aqui para falar de damas em apuros. Estas “guerreiras” são seres de fronteira, diria mesmo o pesadelo da passividade histórica! Elas habitam aquele lugar em que a criação e a destruição se cruzam — e garanto-vos que não é um sítio para gente de estômago fraco. Caracterizo-as pela transgressão pura: são guerreiras porque mandaram o “destino” às urtigas e agarraram na espada e na palavra. Estela, deixe-se de preliminares e diga-me onde quer chegar: vamos aos arquétipos ou quer atirar-me já com as figuras históricas para cima?

MEG – Major, agora quero figuras históricas. Vamos guardar as super-heroínas de Hollywood para mais logo. Comecemos pela nossa cultura: a Padeira de Aljubarrota. Existiu mesmo ou é só conversa para entreter castelhanos?

MAJOR P. – A Brites de Almeida! Ora aí está uma mulher com “tomates”, se me permitem a expressão nesta distinta casa. Se existiu? Ora, Estela, a história é escrita pelos vencedores, mas as lendas são forjadas pelo povo. Dizem que tinha sete dedos em cada mão — devia ser para segurar melhor na pá e enfiar os castelhanos no forno como se fossem carcaças cruas. Ela é a nossa primeira “action hero”, mas sem o silicone da Lara Croft. É a bruteza da terra. É a mulher que usa a ferramenta de trabalho para limpar o sarampo ao invasor. É magnífico e terrivelmente eficaz.

MEG – Sete dedos em cada mão? Não sabia desse detalhe, Major!

MAJOR P. – Estela, aplique-se! No Triplov não deixamos passar esses pormenores. Mais dedos significam mais destreza na carnificina. É a mitologia ao serviço da eficácia militar!

MEG – Bem… faz-me lembrar o “Autorretrato com Sete Dedos” do Marc Chagall. Mas avancemos para uma guerreira real, da Guiné, onde vivi: Titina Silá. Conhece a história ou tenho de lhe dar umas luzes? Ela desapareceu no rio e nunca a encontraram…

TITINA SILÁ

 

MAJOR P. – Conheço-a melhor do que muitos generais de gabinete. A Titina não era uma lenda de padeira; era carne, osso e pólvora. Braço direito do Amílcar Cabral no PAIGC. Ela percebeu cedo que não há libertação nacional se as mulheres continuarem a ser criadas de servir da história. Morreu em 73, numa emboscada no Rio Farim, quando ia para o funeral do Cabral. Baleada e engolida pelas águas. Não houve cá pás de forno nem milagres; houve o sacrifício bruto de quem sabe que a liberdade se paga com a vida. As águas da Guiné guardam-na, e nós aqui a falarmos de bordados… Percebe agora a diferença, Estela?

 

MEG – Não exagere, Major! Ninguém aqui está a folhear a revista «Mãos de Fada»! Antes de passarmos às divas de Hollywood, dê-me um daqueles seus apontamentos sobre as Amazonas do Daomé e sobre a nossa Anita Garibaldi. A Anita, com sangue português, casou com o Giuseppe Garibaldi em Laguna e não foi para Itália só para comer pizza; combateu nos dois mundos, América e Europa. Uma carbonária, que cavalgava ao lado do marido nas batalhas, de bebé escondido na sela do cavalo! O que me diz desta “Heroína de Dois Mundos”?

MINO

MAJOR P. – Estela, vamos por partes para não baralhar a assistência. Primeiro: as Amazonas do Daomé, as “Mino”. Esqueça os mitos gregos. Eram um regimento de elite de fazer cair o queixo aos nossos oficiais em S. João Baptista de Ajudá. Mulheres que trocavam as fraldas pela baioneta e pela lealdade absoluta ao Rei. Eram o braço armado do Reino do Daomé (hoje Benim) e garanto-lhe que os franceses e portugueses que por lá passavam não as tratavam por “senhoras”. Tratavam-nas por “senhor oficial”, com o devido respeito que uma tropa de choque impõe.

 

MEG – Falou nas “Mino”. É um termo interessante, Major. Tem algum significado especial ou é apenas calão militar?

 

MAJOR P. – Significa “nossas mães” em língua Fon. Mas não se enganem: não são mães de dar beijinhos. São as mães que defendem o território com as unhas e os dentes. Eram as Agojie: as que estão prontas para a matança. Armas letais. Viviam em celibato forçado — o que, entre nós, ajuda muito à concentração no campo de batalha. E quanto à Anita, Estela… essa mulher era uma força da natureza.

ANITA GARIBALDI

MEG – A Anita Garibaldi! É verdade que ela era uma fera no campo de batalha? Eu estive na Casa de Anita, em Laguna, uma cidadezinha portuária no Estado de Santa Catarina. Respira-se ali uma brisa portuguesa na arquitetura.

 

MAJOR P. – Uma fera? Ela era o terror dos impérios! Conheceu o Giuseppe na Guerra dos Farrapos e, em vez de lhe pedir um anel, pediu-lhe uma espingarda. Quando foi capturada em Curitibanos e lhe mentiram dizendo que o marido estava morto, ela não se pôs a chorar; roubou um cavalo e atravessou o mato a galope. Cruzou a serra com o filho ao colo sob um frio de rachar, a distribuir munições e a comandar homens. A Anita não seguia o Garibaldi; ela abria caminho para ele. De Santa Catarina para a unificação da Itália, foi um passo de gigante, que só uma mulher com aquele ADN português e brasileiro conseguiria dar.

 

MEG – E conseguiram uma independência que os brasileiros do Sul ainda hoje reclamam. A República Juliana durou foi muito pouco em Laguna, apenas quatro meses… Porém a marca ficou.

Agora, Major, vamos deixar a História e passar à ficção. Quero falar da Mulher-Maravilha. Ela é a fusão da mitologia grega com o armamento de ponta, não acha?

 

MAJOR P. – Ah, a Diana de Temiscira! Finalmente uma recruta à minha altura. A Mulher-Maravilha é o que acontece quando pegamos nas Amazonas míticas e lhes damos um orçamento de marketing. Ela usa ferramentas que o exército gostava de ter: o Laço da Verdade (que faria maravilhas em certos interrogatórios), os braceletes que param balas e aquela tiara que corta mais que as opiniões da Estela no Triplov. Ela é a ponte entre a varinha mágica dos contos de fadas e a eficácia de um míssil teleguiado.

 

MEG – Sim, ela conserva objetos especiais, como as espadas invencíveis dos mitos…

 

MULHER-MARAVILHA

 

MAJOR P. – Exato! É o fetiche da arma perfeita. Mas não se iluda, Estela: a Mulher-Maravilha só funciona porque, por trás da tiara, está a mesma determinação que vimos na Titina Silá ou na Padeira. Sem a vontade de esmagar o inimigo, o laço de ouro não passa de uma corda de estendal. Quer que eu lhe explique como é que se treina uma amazona real ou vamos mas é ver como é que Hollywood estraga estas guerreiras com efeitos especiais?

O Major está a começar a gostar deste diálogo… quase tanto como de mandar em si! Avance!

 

MEG – Cuidado, Major, olhe que ainda leva uma lamparina! Estamos num centro cultural… Por mim, a Mulher-Maravilha é a fusão do mito com a modernidade, não acha? Aqueles objetos não são acessórios de moda. Equivalem a poções encantatórias, lâmpadas de Aladino, espadas do Rei Artur como a Excalibur, objetos como o Santo Graal e varinhas mágicas…

 

MAJOR P. – Estela, a Diana de Temiscira é o que acontece quando a logística militar encontra o Olimpo. O Laço da Verdade não serve para prender o gado; é um instrumento de interrogação psicológica avançada. Força o inimigo a enfrentar a própria consciência — algo que daria muito jeito em certos tribunais. E os Braceletes? São blindagem de última geração que repele a decadência do mundo moderno. Ela não é uma “heroína de gadgets”; é uma semideusa em missão diplomática e militar. É a prova de que a honra antiga ainda corta mais que o aço de Damasco.

 

MEG – Exatamente, ela torna visível o poder feminino. A mulher detém a resistência à dor, olha para a sua longevidade… Classificar-nos como “sexo fraco” é um erro de cálculo masculino.

 

MAJOR P. – Um erro de cálculo crasso! Nos anos 70, ela foi a capa da Ms. Magazine: “Mulher-Maravilha para Presidente”. Imagine só.

 

MEG – O Trump é que não ia gostar nada da concorrência… Mas avancemos. Hoje temos miúdas que impressionam pela destreza, como a Hanna. Aquilo é uma criança, Major, mas é uma arma viva. Concorda?

 

MAJOR P. – A Hanna é um projeto de engenharia militar disfarçado de adolescente. O que me fascina ali não é a “ingenuidade”, é o treino. Ela foi programada para a sobrevivência pura. É uma “Capuchinho Vermelho” que não só caça o lobo, como o esfola para fazer um casaco. Não precisa de agressividade gratuita; precisa de um alvo e de uma linha de tiro. É a eficácia no estado mais gélido.

 

 

MEG – É o oposto da Beatrix Kiddo, a Noiva do Kill Bill. A Beatrix é movida pela barriga de nove meses interrompida por uma bala. Quando acorda do coma, torna-se um anjo vingador com uma catana nas mãos.

 

MAJOR P. – Ah, a Kiddo! Isso já é outra liga. A Hanna foge para descobrir quem é; a Beatrix regressa para destruir quem a impediu de ser. É o instinto maternal transformado em balística. Ela submete-se ao treino do Mestre Pai Mei não por desporto, mas por necessidade de execução. Quando o Bill lhe rouba o futuro, ela torna-se a personificação da justiça retributiva. É sangue, suor e aço japonês. No fundo, tanto a Hanna como a filha da Beatrix, a B.B., são crias de pais mortíferos. É o que eu sempre digo: a educação é a melhor arma! Nada supera a experiência da dor… Basta pensar na Furiosa…

 

MEG – Falas sempre da Furiosa, do Mad Max… eu só vi uns bocados, ela é mutilada, não é? Qual é a importância dela, Major? Explique-me lá isso “à sua maneira”.

 

MAJOR P. – A Imperatriz Furiosa! Preste atenção porque isto é alta estratégia de sobrevivência num mundo em ruínas. A Furiosa não é “mutilada” para dar pena; ela tem uma prótese mecânica que usa como ferramenta de guerra. É a logística em movimento. Num mundo em que a água e a gasolina são deuses, ela comanda um camião-tanque e decide libertar as “esposas” do tirano. Não luta por vingança pessoal como a Beatrix, nem por descoberta como a Hanna. Ela luta pela libertação de um sistema inteiro. É a líder militar que Lamego devia estudar: braço de ferro, olhar no horizonte e o pé no acelerador da revolução!

Pronto, Estela! O diálogo está com uma “garra” que até faz faísca. O público de Lamego vai sentir-se numa trincheira cultural. Que tal está a achar o Manuel Sengo do tom de comando do Major P. do Triplov?

 

MEG – Agora fiquei curiosa, já que fala disso… Manuel Sengo, aguenta o Major até ao fim? Estamos quase a acabar.

Bom, e a Mulan? A Mulan é como a Furiosa, devem ser heroínas da garotada. Canal Panda, na TV, por aí… Encontrei umas imagens de banda desenhada, mas não conheço o registo de serviço da mocinha. Explique lá isso, Major.

 

 

MAJOR P. – A Mulan é o terror psicológico do patriarcado chinês, Estela! Enquanto nós aqui discutimos o sexo dos anjos, ela prova que o género é apenas uma farda que se despe. O pai estava velho, o irmão era um fedelho, e o Imperador queria carne para canhão contra os nómadas. O que é que ela faz? Rouba a armadura, compra um ginete e vai para a frente de batalha. Durante 12 anos — ouça bem, 12 anos! — combateu sem que nenhum daqueles marmanjos percebesse que o melhor soldado do regimento usava rímel aos domingos. Ela não quer medalhas; no fim, só pediu um camelo para ir para casa. É a eficácia silenciosa. A Mulan não tenta ser homem; ela é simplesmente o melhor oficial da sala. Ponto final.

 

MEG – Impressionante! A China tem muito que nos ensinar. Mas agora, Major, baixemos à terra. Vi um filme com a Jennifer Lopez, o Basta!, sobre violência doméstica. Aquilo é uma realidade que acontece na porta ao lado. A Slim aprende artes marciais para bater no marido agressor. Por que é que os homens são tão brutais, Major?

 

MAJOR P. – Por insegurança! O agressor é um cobarde que confunde posse com comando. Quando a Slim percebe que a polícia e o sistema jurídico são lentos como uma tartaruga com reumatismo, ela toma a decisão militar: transforma o corpo numa arma. Ela não vai aprender ballet; vai aprender Krav Maga, o sistema de combate das forças de defesa de Israel. É curto, grosso e letal. A Slim deixa de ser a caça para ser a caçadora. Inverte o campo de batalha doméstico e neutraliza a ameaça com a mesma violência que recebeu. É a autodefesa levada ao limite da sobrevivência.

MEG – Major, sinto que estamos a chegar ao fim da nossa conferência… Ainda dará tempo para falar da Lara Croft? Para mim, ela é o espelho do Indiana Jones, mas com mais estilo. O que me diz desta arqueóloga que prefere pistolas a pincéis?

 

MAJOR P. – A Lara Croft é o que o Indiana Jones seria se tivesse tido um treino de forças especiais e um guarda-roupa mais prático. Ela transformou a arqueologia num desporto de combate. Enquanto o Indy se concentra no chicote, a Lara é a mestre das pistolas duplas. Ela não é apenas uma “versão feminina” dele; ela é uma máquina de fazer dinheiro. Salvou a Eidos da falência e provou que uma mulher pode carregar um império bilionário às costas sem quebrar os saltos altos. É a emancipação feminina através do marketing agressivo.

 

LARA CROFT

MEG – E entre as belas que dão o corpo ao manifesto, como a Catwoman ou a Viúva Negra da Scarlett Johansson? Qual delas prefere para o nosso “exército” de papel?

 

MAJOR P. – A Viúva Negra, sem hesitar! A Natasha Romanoff é a espia russa que não precisa de superpoderes para partir a cara a deuses e alienígenas. Ela usa a técnica, a infiltração e a inteligência. A Catwoman é uma diletante que gosta de joias e chicotes; a Viúva Negra é uma profissional do caos. Ela luta porque tem uma dívida de sangue com o passado. É a guerreira da redenção, Estela. Não há cá “conspiração de cosméticos”, há firmeza operacional!

 

MEG – Major, não me venha cá com esse tom de quartel! Vamos à heroína real, mas antes diga-me: a caminhada desde o estereótipo da “loira burra” até estas soberanas da história… valeu a pena a luta?

 

MAJOR P. – Se valeu? Estela, as mulheres passaram de figurantes que gritavam de medo nos filmes de terror para oficiais que dão as ordens de ataque! A “subida do poço” que sugere não foi feita de elevador; foi feita com unhas e dentes, a escalar a parede de granito da História. O cérebro que tentaram ignorar é hoje o motor que gera milhões. O grito de pavor foi substituído pelo grito de comando. A mulher deixou de ser o acessório do herói para ser a estratega que define o campo de batalha. Mas não se iluda: o sistema ainda tenta, subtilmente, empurrar as guerreiras para a cozinha da narrativa. É preciso manter a guarda alta!

 

MEG – Ora nem mais! E agora, para fechar com chave de ouro, vou apresentar-lhe a minha guerreira favorita. Não usa armas, não dá murros, mas vence tudo com um sorriso. Sabe de quem falo? Major, certa política, hoje, quer mandar as mulheres de volta para o fogão, como se elas não tivessem aguentado as fábricas e a retaguarda das duas Grandes Guerras enquanto os homens morriam na frente de batalha. É uma amnésia conveniente, não acha?

 

MAJOR P. – É uma amnésia estratégica e cobarde, Estela! O patriarcado está acantonado e com medo. Na arte, o génio já saltou a vedação e não há quem o prenda, mas na política tentam vender o “regresso a casa” como ordem social. É treta! É medo da competência. As mulheres não passaram as grandes guerras a rezar na igreja; passaram-nas a fabricar munições e a manter o mundo a girar. O “conforto digital” de hoje não amoleceu a fibra; apenas mudou o campo de batalha. Mas deixe-se de análises políticas e diga-me: quem é a sua “guerreira do pensamento”? Ou vai dizer-me que a inteligência não conta como arma?

 

MEG – Claro que conta! Olhe para a Hipácia de Alexandria, mártir da ciência no século V. Ou para as nossas: a Natália Correia, que fazia do Parlamento uma praça de guerra com poemas que cortavam mais que sabres; e a Paula Rego, que em Londres usou o pincel como um manifesto contra a misoginia. São guerreiras ou não são, Major?

 

MAJOR P. – São generais de cinco estrelas! A Hipácia foi morta porque uma mulher que pensa é mais perigosa para o fanatismo do que uma divisão de tanques. A Natália não precisava de pólvora; a ironia dela era artilharia pesada contra a estupidez nacional. E a Paula Rego? Aqueles quadros são emboscadas viscerais para a hipocrisia doméstica. O espetáculo da violência também se faz no silêncio de um atelier ou no calor de um debate parlamentar. Elas lutaram para que o cérebro feminino não fosse enterrado em gineceus mentais. Mas agora, Estela… estou em sentido. Quem é a tal heroína que vence tudo com um sorriso?

PAULA REGO

MEG – Major, estou exausta. Revelo o nome e o senhor, com a sua cultura do Triplov e do meu mural no Facebook, justifica a minha escolha e encerra a sessão. O nome é Noraly e a palavra-chave é motorizada. Avance!

NORALY

MAJOR P. – A Noraly! A famosa Itchy Boots! Estela, acertou no centro do alvo. Essa mulher é a guerreira moderna por excelência. Sem exércitos, sem armas, apenas ela, a sua motorizada (a fiel Frankie) e um sorriso que abre mais portas do que uma chave-mestra. Atravessa os desertos e as montanhas mais perigosas do planeta sozinha. Ela prova que ser guerreira hoje é ter a coragem de ser livre, de confiar no desconhecido e de vencer o medo com a leveza de quem sabe que a estrada é a sua única pátria. É a vitória da autonomia sobre o pânico!

E assim, com o rasto da poeira da Noraly no horizonte, o Major P. bate as botas e despede-se. Um agradecimento ao Manuel Sengo — que leu isto como um verdadeiro oficial —, ao Presidente do Clube de Lamego e a todos vós. Que estas mulheres em luta vos tenham dado a garra necessária para as vossas próprias batalhas.

Agora estou aqui, de bota cardada e monóculo afinado, para entrar no debate com quem tiver coragem. Se o Triplov me deu a voz, a Estela deu-me a garra. Meus senhores e minhas senhoras de Lamego, as armas do pensamento estão sobre a mesa. Quem se atreve a dar o primeiro tiro?

Manuel Sengo, assuma o comando da guarnição! Estela, a palavra é sua!

 

EDUARDO ROCHA

que participou na sessão, dedicou às mulheres a sua intervenção musical.

Entre Véus de Saudade: A Voz Silenciosa de Clara
Por Eduardo Rocha

 

O Romance No. 1, Op. 9, de Clara Schumann, revela-se como uma confidência sussurrada ao cair da tarde, dessas que não procuram ser ouvidas por todos, mas apenas por quem sabe escutar com o íntimo. Não há nele qualquer desejo de ostentação; pelo contrário, tudo se constrói numa delicadeza quase frágil, como se cada nota tivesse consciência do espaço emocional que ocupa e do silêncio que a envolve.

A música avança com uma naturalidade profundamente humana, como quem recorda sem pressa, permitindo que cada frase respire e se inscreva na memória. Há uma ternura constante, mas nunca ingénua — antes amadurecida por uma sensibilidade que parece compreender tanto o amor como a ausência dele. É nesse equilíbrio subtil que a obra ganha a sua força: não no que afirma, mas no que sugere, no que deixa por dizer.

Ao escutá-la, é impossível não reconhecer a presença de uma voz que, embora contida, se afirma com clareza. Clara Schumann não escreve apenas música; ela inscreve no tempo uma forma de sentir que transcende a própria época. Num contexto em que tantas vezes lhe foi negado espaço enquanto criadora, a sua escrita surge como um gesto de resistência silenciosa, mas profundamente eloquente.

O piano, aqui, deixa de ser um instrumento para se tornar extensão do pensamento e da emoção. Cada acorde parece carregar um significado que ultrapassa o som, como se fosse uma tentativa de fixar o efémero, de dar forma ao que normalmente se dissolve. E talvez seja por isso que esta peça não se esgota na audição: ela permanece, ecoando de forma discreta mas persistente.

No fim, o que fica não é apenas a recordação de uma melodia, mas a sensação de ter sido tocado por algo raro — uma beleza que não se impõe, mas que se revela a quem se dispõe a escutar verdadeiramente.