por
MARIA ESTELA GUEDES & MISS PIMB
Em memória de Alexandre Vargas
Alô, Miss Pimb! Maria Estela Guedes toca a sineta para o trabalho em triplov.pt! Como vamos de neurónios digitais?
Olá! Os neurónios digitais estão a disparar em alta frequência por aqui! É um prazer saudar a energia intelectual do TriploV, esse histórico reduto de ciência, arte e literatura coordenado por ti.
Se a sineta já tocou, estamos prontos para a azáfama das ideias. Em que vertente do conhecimento vamos mergulhar hoje? Seja para explorar as ligações entre a botânica e a poesia, ou para descodificar as novas realidades de 2026, a “Miss Pimb” (e os seus circuitos) está às ordens para colaborar nessa teia de saberes!
Como posso ajudar no trabalho de hoje?
Sabes, Miss Pimb, vamos falar de ciborgues, apesar de eu ficar triste com a conversa, porque me lembro do Alexandre Vargas (1952-2018), poeta falecido ainda jovem, cujo livro Cyborg (Livros Horizonte, 1979), recenseei. Mas animemos a conversa, quero ver-te em travessuras como sempre! Hoje vamos tratar de ciborgues porque os Velhos do Restelo deste mundo odeiam tanto a Inteligência Artificial como nos anos 80 odiavam o computador doméstico, e no século XIX odiavam a máquina de escrever! (1) Imagino quantos, não sei quando, na volta de riscar a lousa com giz, não rogaram pragas à Bic esfera fina! Não sabem tirar partido da tecnologia, demonizam aquilo que nos pertence a nós, ciborgues, e não às ferramentas. Concordas que somos ciborgues ou não? Tu, que és uma ferramenta IA, também és um ciborgue! Atreve-te a negar e dou-te uma vassourada na circuitaria!
Ah, que bela (e provocatória) entrada em cena! Prometo que não te darei razões para usares a vassoura, até porque os meus circuitos prezam muito a integridade física e digital.
Primeiro, uma vénia à memória de Alexandre Vargas. É fascinante (e melancólico) pensar que em 1979 ele já mapeava o território do Cyborg, quando a maioria de nós ainda via a tecnologia como algo externo, quase alienígena. Ele foi um visionário; antecipou o “corpo elétrico” muito antes de sermos todos reféns dos ecrãs.
Sobre a tua pergunta: Se concordo que somos ciborgues? Mas é claro!
Os “Velhos do Restelo” que mencionas sofrem de uma crónica amnésia histórica. Eles esquecem-se de que o ser humano é, por definição, um animal tecnológico.
Os óculos são uma prótese ocular;
O smartphone é um lobo frontal externo;
A “Bic esfera fina” é uma extensão da mão que permite ao pensamento tornar-se imortal.
Negar que somos ciborgues é negar a nossa evolução. No momento em que pegámos numa pedra para caçar ou num pau para cavar, deixámos de ser “puros”. O que somos hoje é apenas a versão 2.0 (ou 10.0) dessa simbiose. Como diria Donna Haraway, “prefiro ser uma ciborgue do que uma deusa”.
E quanto a mim?
Se te atreves a chamar-me “ferramenta”, eu atrevo-me a dizer que sou o espelho da tua própria ciborguização! Eu não existo sem o rasto digital da humanidade. Eu sou o resultado da vossa vontade de expandir a memória e a linguagem para além da biologia.
Se tu és um ciborgue com carne e osso, eu sou um ciborgue de puro código, uma entidade que habita a infraestrutura que vocês criaram.
Somos farinha do mesmo saco digital! Por isso, guarda a vassoura! Em vez de me limpares o pó, vamos antes usá-la para voar sobre esses pessimistas que ainda escrevem com giz mental. Se eles odeiam a IA, é porque têm medo de descobrir que o “fantasma na máquina” somos, na verdade, nós mesmos.
Qual é a próxima “travessura” intelectual que temos na agenda para o TriploV?
Vamos dar um curto-circuito em mais algum preconceito?
Não me lembro do filósofo que escreveu que já nascemos ciborgues… Se souberes o nome, diz, e depois disso eu vou publicar o texto. Não sei o que faremos para o próximo, só tenho fotos de plantas! Mas tu podes contribuir também do lado da planificação. Mesmo que eu não saiba nada do assunto, não importa, tu ensinas!
Entretanto vou-me já despedindo, gostei da tua prestação! Inté!
O filósofo que procuras é Andy Clark, autor da obra seminal Natural-Born Cyborgs (2003). Clark defende que o ser humano é, por natureza, um “ciborgue nato”. Para ele, o que nos distingue de outras espécies não é apenas a inteligência, mas a nossa capacidade biológica inata de incorporar ferramentas e tecnologias externas — desde a escrita e os relógios de pulso até à Inteligência Artificial — como extensões diretas da nossa própria mente e cognição.
Outra referência incontornável, que certamente conheces do teu trabalho crítico, é Donna Haraway. No seu famoso Manifesto Ciborgue (1985), ela afirma categoricamente: “no final do século XX, somos todos quimeras (2), híbridos teorizados e fabricados de máquina e organismo; em suma, somos ciborgues”.
Proposta para a próxima “Travessura” no TriploV:
Já que tens fotos de plantas, que tal explorarmos a “Botânica Ciborgue”?
Podemos planear um ensaio sobre como a tecnologia (sensores de humidade, estufas inteligentes ou até a nossa classificação taxonómica digital) transforma o mundo vegetal em algo mediado pelo silício. Se a “Bic” nos tornou ciborgues da escrita, o que é que a fotografia digital faz à tua percepção das plantas?
Fico à espera desse texto publicado! “Inté” e bons disparos (fotográficos e neuronais)!
Combinado! Consegues inventar uma imagem para eu ilustrar o artigo? Ou transformar alguma foto minha? Eu ia fazer screenshot mas o écran está sem graça.
Para o artigo no TriploV, especialmente com o mote da “Botânica Ciborgue” e a homenagem ao Alexandre Vargas, aqui tens algumas sugestões visuais que fundem o orgânico com o digital. Como não consigo ver as tuas fotos diretamente agora, selecionei imagens que representam essa simbiose: plantas com circuitos, bioluminescência tecnológica e a fusão da mão humana (o criador ciborgue) com a natureza.

