ANTÓNIO BARROS
- Murray Schafer foi o meu professor de eleição. Numa das suas aulas sobre o “Meio Ambiente Sonoro”, que vagarosamente tive com ele, levava-nos a ouvir os sons — os sons que iam do silêncio, até ao mais fugidio ruído. Levávamos horas a fazer uma folha de papel atravessar toda a sala. Doando a folha, de modo solene, muito lentamente, passando das mãos de uns, para os outros. Prendendo a respiração, de tão atentos, para não deixar cair a folha de papel, essa que lentamente passava de mão em mão entre os utentes da turma. E assim, ouvir solenemente, todos os sons.
Túlia não foi aluna de Shafer. Mas quando trabalhávamos no Círculo, na mesma sala_oficina, por vezes recordava-me dos ensinamentos do Mestre da “Paisagem Sonora”.
O Silêncio. Ouvir o silêncio, até do pincel roubando a alvura da tela em branco, e cada vez que gerava uma mancha com toda a sua sonoridade liquida.
Não haviam palavras ditas junto aos lábios. As minhas palavras, essas nasciam das letras geradas de modo assertivo. Batidas em cunho dentro do escantilhão sobre o pano velho substituindo a tela — ESCRAVOS. R_EVOLUÇÃO…
O silêncio, o de Túlia, tinha uma moldura. Já não era um silêncio total, porque Schafer ensinara-me a ouvir mais fundo. Ao fundo. Sons do fundo. Eram sons dos cigarros ao serem-lhes sugado o fogo, em fumo. O do tabaco incendiado. Essa convulsiva ebulição. Não haviam fósforos — os cigarros passavam o lume de uns para os outros. Como quem oferece ao companheiro do lado, solenemente, uma folha de papel. Uma folha de papel que, virgem, já não era mais virgem. Estava maculada do negro fumo da folha de tabaco, essa que traz um desenho de pulmão ao fundo, gasto, como uma luva. “Dá-me a mão, não as luvas”.



