U m d i a p r o m e t i f a l a r c o m i g o
Não, não usava fato azul. Não era ainda esse o tempo. Estávamos nos anos noventa. Integrava a direcção do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), na Universidade de Coimbra. Onde me movimentava, de um modo discreto e humilde.
Quando não havia programa de palco, partilhava as aulas que leccionava aos meus alunos do Instituto, com os funcionários do TAGV na “Sala dos Espelhos”.
O Professor José de Oliveira Barata (JOB) enviou, para residir no TAGV enquanto estagiário de doutoramento, um seu estudante da História do Teatro. Não era a primeira vez que o JOB me solicitava a apoiar os seus alunos interessados pelo Teatro Universitário. Mas este aspirante a doutor, era de uma arrogância impar. Um visionário do que veio a ser hoje os jovens em modo PIA [Petulantes, Insolentes, Arrogantes].
Bem perto do Teatro, do outro lado da Praça da República, havia um Centro Comercial onde ia eu frequentemente fazer fotocópias para os meus trabalhos pessoais. Terminados os meus afazeres do dia no TAGV, lá fui ao início da noite à papelaria tirar fotocópias de catálogos, livros, jornais e cartazes onde surgiam trabalhos de poesia visual publicados. (O Ernesto Melo e Castro pediu-me com urgência esses referentes para um dossier que estava preparando para o Brasil). Então entra na pequena papelaria o doutorando. E apressa-se o estudante a comentar com uma presa gargalhada — estás a copiar os poemas do António Barros, se ele vem a saber, estás tramado. Prendi a respiração e respondi-lhe que não se preocupasse que eu iria falar com o António Barros.
No dia seguinte, no TAGV, alertaram-me os leais funcionários que, o estagiário para doutor, tinha gargalhado, desconsiderando-me, que eu andava a fotocopiar as artes do poeta António Barros.
Mas, os funcionários surpreendidos com o despropósito, esclareceram — mas ele é o António Barros.
Dias depois, o estudante para ser futuro doutor, encontrou-me no TAGV e logo nervosa(a)mente pediu-me desculpa. Não reagi. Há gestos que despRezo. Não mais vim a saber do, algures hoje doutor.
Do Professor Barata, ainda vai convulsivamente surgindo nas plataformas sociais da comunicação em desperdício.
Há estórias que não são estórias, aconteceram mesmo, são: a História mal dita. Essa reza que despReza.
António Barros, casadoparque, 30 de março 2025


