NICOLAU SAIÃO
Era altinho, alourado e usava com esmero elegante fatinhos assertoados. Com botões de metal, daqueles granditos e muito apresentáveis, fazia um vistão que claramente agradava às raparigotas. Despertaria paixões? Talvez, mas naquele tempo, com apenas 16 anos, de calças sempre bem vincadas e com discreta listinha acinzentada, seria possivelmente objecto de sonhos (acordados) mas talvez não sujeito de entesoamentos matrimoniais ou clandestinos.
Era o Figueira. Ernesto Figueira de seu nome quase completo, que os restantes sempre me escaparam à recordação. Filho dum senhor tesoureiro duma repartição benquista da Cidade, falava de mansinho e com muito propósito aos que o destino, ou a condição de filho-família, lhe colocara nos recantos da vida de relação. Era taful e perfumava-se, o que a mim, que utilizava quando muito o sabão azul ou, festivamente, o tradicional Palmolive, me largava na alma e no ar ambiente já não digo inveja mas justa e cheirosa admiração.
Era colega de estudos e, na cantina, sempre que comprava sandes para lanchar, eram de chouriço e bem servidas. As outras, mais baratas, eram providas de atum, tirado pelo sr. Baptista ou pela D. Armanda que usava bata lilás, duma lata grande e redonda onde nunca por nunca ser vi boiar moscas, parece que usual condimento como condiscípulos mais marotos afirmavam com irónica malandrice. Era das que eu preferia, não só devido ao preço mais em conta mas porque sempre gostei do sabor conserveiro do pequeno e simpático, requintado, peixe azul-ferrete.
Eu via o Figueira como uma figura típica que iria mais tarde, já adulto e bem maduro, aparecer na minha memória quando topo algum exemplar masculino com semelhanças físicas e de postura com as daquele mija-mansinho da minha segunda adolescência.
E lembrei-me do Ernestinho Figueira, anteontem, quando vi na TV e atentei melhor no estilo do Sr. José Luís Carneiro, parece que socialista de truz e, com estrutura significante, candidato e possivelmente futuro secretário-geral daquela formação política que já teve no cardápio gente como um inenarrável J.Sócrates, um hábil manobrador de (seus) futuros A.Costa, um torrencial qualquer coisa Rodrigues ou um truculento e virilão, fazendo de másculo arrebatador, P.Nuno Santos.
O de agora, Carneiro e delicadinho, com mansuetude e bom-propósito, em estilo Figueira do meu tempo passado, porque aos socialismos locais tem corrido ao que parece mal a brusquidão de maneiras ideológicas em que se enfronharam eleitoralmente, vem até nós para nos seduzir com um estilo mansarrão, de excelente mija-mansinho, prometendo que vai ser bonzinho e delicado, com lhaneza e sem chamar fascista ou outra amenidade pelo estilo a todo e qualquer que ouse – pensando social-politicamente de maneira diversa – relembrar as maroteiras cavilosas e as incompetências gloriosas em que o seu partidão é useiro e vezeiro.
Acho, em meu modesto entender, que ele não deve ter ainda raciocinado a matéria e pensado aturadamente no que as lusas gentes de facto querem: pois na sua maioria, tenho-o verificado mediante conversas fortuitas que nos meus minutos vou mantendo com exemplares concretos do povão, eles não desejam ali, naquele espaço público, um delicadinho da silva, assim como anteriormente já não se enlevavam num truculento, num manhoso ou num inenarrável.
O que a maltosa quer, o que a maralha almeja – é que vocemecês, com mansidão ou não, se vão embora, nos desamparem a loja, não nos envinagrem mais o dia-a-dia.
Em suma, que não chateiem a gente, como talvez há demasiado tempo têm feito, com benefício próprio mas claro prejuízo da cidadania e do quotidiano nacional…!
Ite, missa est!


