ANA MARIA OLIVEIRA

 

ANA MARIA OLIVEIRA


Ana Maria Rodrigues Oliveira (17 de fevereiro de 1960, Portugal). Em 1986 finalizou a licenciatura em Filosofia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Licenciatura que lhe permitiu lecionar filosofia durante alguns anos. Edita o seu primeiro livro de poesia em 2008 através da Corpos Editora “Grito de liberdade”. Dedica este livro a todas as mulheres, pela luta e determinação com que enfrentam as adversidades de uma sociedade que ainda manipula e escraviza. Ainda no mesmo ano participa em duas coletâneas: Uma de Prosa e Poesia “A arte pela escrita” da editora Escritartes e a outra, “Poemas sem fronteiras” “Ora vejamos…2008”, Editora LULU de Leiria que faz uma recolha impressionante da poesia contemporânea. Nesta última Ana Maria Oliveira obtém o prémio da Menção honrosa com o seu poema “Farsa”. Faz uma edição de autor “Espírito Guerreiro”, o seu segundo livro de poesia, em 2014. Em 2021 edita o terceiro livro de poesia “Estilhaços no caminho”.  Em 2022 “Ao encontro da terra” e “DEVIR QUÂNTICO”. Mantem alguns sites onde divulga a sua escrita. Participa durante alguns anos, num projeto ligado a “Filosofia para crianças”. Apresenta os seus trabalhos, entre eles algumas resenhas, em várias revistas de literatura e poesia.


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Tornei ao lugar de partida desenhado de ausência

Rebelião desgosto violência e traição

Voltei aos solos húmidos e movediços

Repletos de anémonas desmaiadas

Troncos nus cicatrizados pelas águas dos rios

Em enchentes alucinantes incontroláveis

 

Retorno ao passado qual viagem galáctica

Perante o tempo e espaço que ensaiam velhas alianças

Novas técnicas de truques mágicos

Em pleno circo apático de exorcismos

Malabarismos políticos

Pinturas esquemáticas e provisórias de altas finanças

 

O meu corpo regressou à sinfonia do mar

Como caranguejo fugidio que quer sobreviver

Em meu redor nada humano existe a não ser o silenciar sem fim

Apenas a espuma branca anunciando a pigmentação do bramido

A continuação da loucura do extermínio descolorido

E neste caos entre a vida e a morte desnutrido

Retornei a mim!


As cores do silêncio

 

A escrita tropeçou nos jogos de vaidades alheias

Esmoreceu na carência de primaveras floridas

E esfumou-se nos enfeites improvisados à pressa

Nas cabeças anémicas e desesperadas

De estrangulados em espaços lamacentos

Que em agonia e aflição do submundo se desprendem

 

As tonalidades do silêncio esbatem-se

Nas entranhas embalsamadas pelas correntes lávicas

Dos subterrâneos encardidos pelas sombras artificiais

Da luz gélida que anseia o paraíso em troca de infernos reais

 

Agora os drones perjuram os humanos no folclore das queimadas

E na gastronomia improvisada dos verdugos

As ogivas nucleares aguardam o gesto tétrico do extermínio

Gerado pelos circuitos danificados dos cérebros apodrecidos

Dos poderosos defensores da morte que dão vivas ao seu macabro hino


Corvos

 

Manchas negras agitam-se no areal tempestuoso

Saltitam por entre o lixo que delineia o areal

Em ondas improvisadas debaixo de um sol débil e cinzento

Cinco corvos farejam desperdícios animais por entre as canas partidas

Empurradas pela corrente do Tejo desaguando a mar aberto

Cinco pontos pretos ligados entre si pela vontade de sobreviver à tempestade

Vêm anunciar a regeneração pois que trajados de mau presságio

Escondem nas asas a sapiência e a conexão subtil entre a óbito e o alento

 

Um rato inanimado rodeado de pequenos troncos é manjar dos voadores

Objetos humanos de plástico fruto da selvajaria capitalista

Provocadora de desgastes físicos e emocionais

Poluem o meu olhar suspendendo nas nuvens o vazio interior

Num jogo macabro de perdas roubos e desgastes

Um mordisco na praia para cinco corvos

Mas não lhe tocam e seguem até ao final do extenso areal

Debicando aqui e ali levantando voo finalmente em direção à serra

 

O pentagrama anunciado ficou bordado nas ondas inconstantes

E no movimento mágico dos sentidos

A sabedoria preveniu a bondade

Que a justiça tem várias faces a verdade não é absoluta

E o amor vibra diferentemente conforme a melodia

 

Ainda permaneço e pertenço ao desabrochar da humanidade

Em que cada elemento em delírio patológico afia as garras

Tremendo de medo que invadam espaços e palacetes dourados

Ou no extremo oposto que morram à míngua na sociedade esclavagista

 

Há mais pureza nos necrófagos que limpam os corpos desfeitos

Impedindo a proliferação das doenças

Do que nos seres humanos que se alimentam uns dos outros

Sugando a energia em competições e campeonatos

Armadilhados por psicopatas camuflados


Holograma no horizonte

 

A transparência do ser azul tornou-se visível

Numa esquina acanhada na tela em suspensão

Será o meu coração batendo ao ritmo da desesperança

Pela frieza com que os répteis me envolvem

Sem me captarem a alma nos dias de perseverança

 

Será o ser azul a monotonia desagradável que sufoca

Porque os gritos do mundo ferem a sensibilidade que acalento

Será que é o mensageiro da depressão e me alerta

Para o perigo da estranheza que me corrompe os órgãos

Me bloqueia o oxigénio e me cega o olhar como criatura ruim

Ou será o anunciador da água e da harmonia

Que em danças imaginárias flutua ainda em mim

 

A árvore desenhada no chão movediço

Anuncia o latejar das veias

Os nutrientes generosos da luz

De sorrisos e melodias

Semeando possibilidades de agitação

A caneta esquecida virou costas ao teclado

Provocador de intempéries cognitivas

Permaneceram acabrunhados sob as camadas de pó

Em camuflagem qual hibernação

Em campos de petardos e exterminação


Sinais no areal

 

 

Descortino por entre as formas rochosas

Brincando com a imaginação sedenta de frenesi e renovação

Um castelo onde os heróis descansam para novas batalhas

Para lá do nevoeiro cerrado descubro fortes embarcações

Sulcando os mares rumo às ilhas desertas sem mortalhas

 

Onde se escondeu a força de contestação que me anima

Provavelmente desintegrou-se na velocidade das algemas

No silenciador de línguas

Nos milhões de almas que fogem à guerra

No cadafalso para onde me empurram

Não!

 

A sandália colorida de criança vem até mim repousando a meus pés

Anunciando-me novas caminhadas em exploração de trilhos

Agitações encantadas por regatos inebriados de suculentas raízes

Aguardando a arquitetura das montanhas e das estrelas

Anunciam a boa nova do retorno à veneração da mãe Terra

 

O coração lilás qual brinquedo macio ao toque

Em posição amorosa com a água do mar abrindo-se ao sentimento

À ligação comunicação firmamento

E a pétala ansiada que surge apenas no final da caminhada

E em florescimento já não era esperada

Envia-me a mensagem de beleza

De perfeição renovação e glória

Criação fertilidade crescimento

De evolução espiritual depois de tempos de interregno

Abstraída do meu ser minha verdade

Energia amiga minha realidade

 

A espuma secreta dos dias traz com ela

A dose quântica da limpidez das mágoas

E sentada sobre a relva perscrutando o horizonte

Sei que me encontro comigo mesma

E não haverá fantasma derrotista imundo

Que me corte a garganta porque entre mim e o mar

Nenhuma anémona se intrometerá

Entre mim e o sol nenhum neurótico me aniquilará

 


 

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