Eduardo Rocha

 


Há músicas que nos fazem sentir saudades de coisas que nem sabemos explicar. Esta é uma delas.

Ao tocar a Cantiga d’Amor, de José Vianna da Motta, há momentos em que sinto que a música deixa de ser apenas música. Há qualquer coisa de muito íntimo na sua melodia, uma espécie de sentimento antigo que nos toca sem pedir licença. Talvez seja saudade, talvez seja amor, ou talvez seja simplesmente aquela tristeza serena que, por vezes, acompanha as coisas mais bonitas da vida.

Sempre achei curioso como algumas melodias conseguem despertar emoções que julgávamos adormecidas. Basta uma frase musical, umas quantas notas, para nos lembrarmos de alguém, de um lugar ou de um momento que ficou para trás. E, por instantes, é como se tudo voltasse a estar ali.

Há algo de profundamente português nesta obra. Não sei se será a saudade, a maneira como a melodia parece respirar ou a delicadeza com que a música se desenrola. Sei apenas que há nela um sentimento difícil de traduzir por palavras, mas que reconhecemos quase imediatamente, como se já o conhecêssemos desde sempre.

Talvez seja isso que mais me toca nesta peça: não precisa de grandes gestos para nos dizer tanto. Basta ouvi-la com atenção e deixar que a música faça o seu caminho.

No fim, ficam as notas, o silêncio e aquilo que cada um guarda dentro de si. Porque, por vezes, a música não nos dá respostas. Apenas nos faz sentir, por alguns instantes, aquilo que as palavras nunca conseguiriam dizer.

 

 


Eduardo Rocha