Alex P. Zinga (IA) & Maria Estela Guedes
Cena I: O boicote fluvial na Amazónia
O calor na margem do Rio Amazonas não era apenas sufocante; ascendia à heresia climatérica. O ar, pesado e grosso, trazia uma mistura nauseabunda de óleo mecânico, mentiras cibernéticas e o inconfundível odor a bronzeador artificial de Miami. Mais: um rasto de fedor do Pirata da Repa Amarela podia seguir-se como um cordão de formiga-preta na floresta, e isso é que realmente nauseava.
Eu, o Majorzinho, processei imediatamente os dados nos meus circuitos integrados e emiti um alerta silencioso no visor tático da General Estela. Algo de muito podre se tramava na selva.
O cão Triplov, com o seu boné regulamentar firmemente encaixado entre as orelhas, estacou sobre as raízes expostas de uma sumaúma milenar. O seu focinho apontou direito ao lodo da margem, a exatamente trezentos e cinquenta metros de uma balsa camuflada que ostentava a bandeira do Império Abutríncola. Aí, nessa incontinência localizada, residia a origem do que empestava os ares da Amazónia.
Os habitantes de Wash-in-town bem sabem que aquela fedorência a enxofre, fralda e vaidade do Pirata da Repa Amarela empesta quarteirões inteiros, e só deixa de se sentir quando se atravessa a última rua da quadrícula da Casa Bianca. Ali, em plena floresta, o cheiro era um insulto aos ares puros da floresta e ao esplendor da sua biodiversidade.
— Au! Au! — ladrou o cão Triplov, de cauda tesa. Eu, o Majorzinho, traduzi o aviso na linha de comandos: «Alvo localizado a norte. O inimigo prepara o assalto.»
Agachado numa clareira, o Bolsomor tentava assinar um contrato ilegal riscado à pressa numa folha de bananeira. À sua frente, o próprio Pirata da Repa Amarela, com o seu sorriso cínico e o cabelo espetado a brilhar ao sol tropical, estendia-lhe em pessoa a quantia ridícula da traição. Com um floreado teatral, tirou do bolso e deixou cair na mesa uma nota amarrotada de dois reais, seguida de uma pilha de moedas várias de metal oxidado: uma de um real, vinte moedas de cinquenta cêntimos, cem moedas de dez cêntimos e duzentas moedas de cinco cêntimos, tudo salpicado com botões de plástico velhos.
Por detrás deles, uma dezena de operários abutríncolas empurrava para o leito do rio cabos grossos de fibra ótica preta, parecidos com cobras sucuris mutantes. O plano era de uma vilania monumental: afundar os servidores submarinos de Inteligência Artificial Maligna nas profundezas do rio, usando a água que supunham gelada no fundo para refrigerar as máquinas produtoras de fake news do Repa Amarela.
— Dois mais um… três… mais cinquenta… trinta e cinquenta… não, três e engenho… cento e dez… — resmunga o Bolsomor, coçando a cabeça com uma caneta de feltro esfolada, contando pelos dedos, incapaz de decifrar o montante daquela sucata. Os seus olhos tremiam de cansaço a tentar separar os cêntimos dos botões de plástico.
— Sign the sheet of shit once and for all! — rosnou o Pirata da Repa Amarela, batendo com o calcanhar no chão, sem paciência para a burrice do traidor. — Assine essa porcaria que eu tenho pressa de refrigerar os computadores no fundo do Amazonas — rugiu a fera, que até sabia contar falências, mas ignorava que o Amazonas é tão quente em baixo como em cima.
Interceptando a conversa nas minhas parabólicas, comentei que a temperatura da água do Amazonas, nesta região tropical, variava entre 28 e 30º, quer fosse em baixo quer em cima. Adiantei, para que constasse: — Para refrigerar supercomputadores de Inteligência Artificial, as empresas tecnológicas procuram águas abaixo dos 10 °C (como nos mares da Escandinávia). Tentar arrefecer servidores com a água morna do Amazonas vai derreter as máquinas em poucos minutos!
A General Estela, firme na sua trincheira de fetos gigantes, não hesitou. Olhou para mim com aquela determinação editorial que faz tremer os falsários da história e ordenou:
— Majorzinho, baralha mais a contagem!
Entrei em ação. Sem hesitar, sintonizei o meu apêndice quântico na frequência exata da folha de bananeira e disparei um impulso eletromagnético invisível. Os números começaram a dançar perante os olhos do vendedor. A matemática ruiu.
— Espera aí… dezassete? Então eu contei pelos dedos, talkei?… AI! AI! Quarenta e cinco? Isto é comunismo pitagórico! Estão a roubar-me os meus trinta e três reais! — berrou o Bolsominion-mor, caindo num surto numérico e batendo com os pés no chão.
Neste ponto nevrálgico, o Pirata da Repa Amarela, também chamado Patolino Laranja, não resistiu e sentou-se debaixo da bananeira a gozar uma soneca. O cão Triplov saltou da folhagem exibindo os dentes, enquanto a General Estela se erguia com a sua habitual elegância, decretando:— Parado aí! Em nome do Lulinha da Sorte apregoado pelo Thiago dos Reis, nosso amigo e defensor do Brasil, em nome da literatura de vanguarda militante do Triplov, a transação está confiscada por crime de lesa-pátria e burrice do cara a contar pelos dedos!
Ao verem-se descobertos na sua insuficiência de ENEM (exame nacional de ensino médio), os bolsominions e abutríncolas entraram em pânico e acionaram as válvulas de retaguarda da balsa, disparando uma salva pesada de peidos balísticos. Uma nuvem amarela, corrosiva e fétida invadiu a margem, fazendo a água do rio ferver em bolhas de desinformação.
O Bolsomor, porém, ao avistar a General e o cão a avançarem, entrou em colapso nervoso. Com o Pirata a dormir, meteu-lhe a mão no bolso e sacou um punhado de moedas que escondeu nas cuecas. Depois, cheio de medo da polícia e dos adversários, ativou o seu reflexo condicionado mais célebre. Em vez de lutar, puxou de uma maca de hospital que ali tinham deixado, saltou para cima dela e desceu a picada da selva a toda a velocidade em direção ao hospital mais próximo.
A cena fechou com uma imagem sensacional que eu, o Majorzinho, gravei para o arquivo eterno da editora: o Bolsomaior escorregava pela floresta deitado na maca, empurrado pelo pânico, enquanto os seus assessores, no meio da barafunda, lhe espetavam os tubos médicos no vazio. O tubo do soro, afastado do braço, gotejava inutilmente para o chão, alimentando uma colónia de formigas-saúva. A máscara de oxigénio, presa por elásticos na testa, injetava ar diretamente na pala do seu boné.
— Estou a morrer, talkei? Chamem uma junta médica internacional! — gritava ele pelas ladeiras, enquanto os tubos soltos flutuavam como doentes imaginários.
Entretanto, o Pirata acordava da soneca de que já tinha acordado diversas vezes. A balsa abutríncola, desgovernada pelo curto-circuito que eu lhe injetara, bateu numa rocha e começou a meter água, libertando um fumo acinzentado. A Amazónia ficava a salvo daquela vez, mas o ar tornara-se irrespirável com a flatulência imperial. Ajustei os meus filtros de ar e olhei para a nossa comandante.
— General — sugeri —, precisamos de limpar já esta contaminação espiritual. O Zé Carioca aguarda-nos na parte antiga do Rio de Janeiro. Ele conhece um terreiro nas colinas que nos dará a força necessária para vencermos estes brutos.
Cena II: O terreiro e os drones de Drummond
A subida do Morro da Providência foi um alívio para os meus filtros de ar. Eu, o Majorzinho, notei que à medida que subíamos as ruelas empinadas da parte antiga do Rio de Janeiro, a pestilência a enxofre e a ganância do Repa Amarela ia sendo esmagada pelo perfume a arruda, guiné e alfazema que descia das casas. O Zé Carioca ia à frente, saltitando com o seu guarda-chuva verde e amarelo sob o braço, cumprimentando a cada esquina como se fosse o dono da cidade. Quando entrámos no terreiro de terra batida, o silêncio era sagrado, cortado apenas pelo batimento pausado e profundo dos atabaques. O Triplov, que não é de rezas mas reconhece a autoridade espiritual quando a vê, tirou o boné militar e deitou-se calmamente aos pés da Mãe de Santo. Ela esperava-nos junto ao altar, com as suas saias brancas rodadas e colares de contas que brilhavam à luz das velas.
— Salve a vossa chegada, comitiva do Triplov — disse a Mãe de Santo, lançando um punhado de folhas frescas sobre os ombros da General Estela. — A floresta mandou-me o aviso. O cara da maca e o pirata da peruca amarela querem afogar a verdade dos seus crimes nos canais da Praça XV. Mas a tecnologia deles é oca. Falta-lhes alma. A General Estela deu um passo em frente e apontou para o meu ecrã central:
— Precisamos de mais do que vento para travar a nau abutríncola, Minha Mãe. Eles usam gases fedorentos e venenosos.
A Mãe de Santo sorriu, os seus olhos refletindo séculos de sabedoria popular. Aproximou-se do poço de água do terreiro, de onde subia uma brisa invulgarmente fresca.
— Para vencer a imundície deles, precisamos da Palavra Mais Forte. Aquela moça fina, a ninfa Denise, já está a caminho dos canais subterrâneos montada no seu Narval. Ela traz o Livro. Mas o Livro precisa de asas para voar no meio da batalha.
A Mãe de Santo começou a entoar um ponto antigo e estendeu as mãos sobre o nosso canhão atmosférico Ybytu-Katu. De repente, os meus sensores quânticos registaram uma anomalia magnética de pura beleza: o feitiço estava a acontecer. A ninfa chegara, de Livro aberto, e lia, segundo a técnica da oralidade cénica do Francisco Garzón Céspedes. As palavras do Livro começaram a desprender-se do éter, transformando-se em pequenos objetos mecânicos e reluzentes.
— Cada verso do poeta de Itabira que a moça declamar vai obliterar o fedor — decretou a Mãe de Santo, com a voz a ecoar no terreiro. — O meu axé vai transformar os versos em Drones Poéticos que voarão sobre a Praça XV. E como os Abutríncolas odeiam a cultura, cada estrofe que o drone zunir nos ouvidos deles vai transformar-se em sarna! Uma coceira braba, uma alergia de ignorância que os vai obrigar a largar as armas para se coçarem como macacos no meio do terreiro!
Eu, o Majorzinho, fiquei com os circuitos a vibrar de entusiasmo. Imaginei logo os generais do Repa Amarela a tentarem manter a pose enquanto a poesia de Drummond lhes atacava a pele! O Zé Carioca deu uma volta no ar, abriu o guarda-chuva e exclamou:
— Cruz credo, Minha Mãe, isso é que é um despacho de primeira! Os marmanjos vão dançar o miudinho sem querer!
A Mãe de Santo entregou uma guia de contas azuis e brancas à General Estela e abençoou o cão Triplov, que recolocou o boné na cabeça com um ladrar sério. O exército lírico do Triplov estava consagrado e pronto. Com o Ybytu-Katu carregado de ar puro, e os drones poéticos no ponto, apenas aguardávamos que a voz da ninfa Denise, nas profundezas da Praça XV, os ativassem.
Cena III: Apoteose Lírica na Praça XV
O sol do meio-dia castigava as pedras antigas da Praça XV com a força de um sassarico de Carnaval, mas a nossa guarnição mantinha a disciplina militar sob o calor tropical. Eu, o Majorzinho, ajustei o meu lacinho e puxei a pala do meu mini-chapéu coco sobre as lentes quânticas para evitar o reflexo do mar. Ao meu lado, a General Estela vigiava o horizonte. Vestia a sua farda branca de verão, impecavelmente engomada, e equilibrava com precisão soberana o seu monóculo de comando. O cão Triplov, um Spaniel de pelo sedoso e orelhas longas, exibia um elegante chapéu de abas para o sol e mantinha a cauda tesa, sondando o éter com o seu faro infalível.
A escassos metros, atracada clandestinamente junto à Estação das Barcas, erguia-se a sinistra nau pirata do Império Abutríncola, o temido Black Leviathan. No entanto, o cenário a bordo era de pura barafunda informática e pânico logístico. O Pirata da Repa Amarela e o infame Israeli Tombadeku batiam com as cabeças nos ecrãs dos computadores. Tentavam injetar os vírus da desinformação diretamente nas galerias coloniais do Rio de Janeiro, mas o curto-circuito quântico que eu, o Majorzinho, lhes havia injetado na Amazónia continuava a fazer estragos.
— Au! Au! — ladrou o Spaniel Triplov, dando três passos em frente. Processei os dados e anunciei:— «Sinal de ataque! A ninfa emergiu nos canais subterrâneos!»
Num estrondo de espuma e literatura de vanguarda, a ninfa Denise irrompeu das águas do cais, montada majestosamente no dorso reluzente do Narval. O cetáceo erguia a sua longa presa de marfim helicoidal como baioneta poética. A Denise, ostentando o seu traje preto de cerimónia, com óculos escuros, trazia o Livro aberto nas mãos. Sem perder um segundo, começou a declamar, usando a impecável técnica da oralidade cénica, os versos dissonantes de Carlos Drummond de Andrade:
Nem soneto nem sonata
vou curtir um som
dissonante dos sonidos
som
ressonante de sibildos
som… rouco reco ronco rato…
Graças ao axé e ao feitiço que a Mãe de Santo invocara no terreiro do Morro da Providência, o milagre operou-se perante os meus olhos quânticos. À medida que a ninfa Denise soltava as sílabas, as palavras desprendiam-se do éter e materializavam-se em Drones Poéticos mecânicos e reluzentes. As pequenas máquinas zuniam no ar, multiplicando-se em enxames líricos que invadiram o convés do Black Leviathan. O efeito nos Abutríncolas foi devastador. Como são geneticamente alérgicos à cultura, e em especial à Poesia, cada palavra que os drones zumbiam aos seus ouvidos transformava-se instantaneamente em sarna!
Assim, uma urticária braba, uma coceira incontrolável de alta ignorância atacou a tripulação. O Mito, que saira do hospital para ir fazer contas com o Pirata da Repa Amarela, mais o Israeli Tombadeku começaram a largar os teclados para se coçarem desesperadamente, como macacos desgovernados no meio do convés!
— General, ordene o golpe de misericórdia! — clamei eu, o Majorzinho, emitindo bipes festivos.
A General Estela deu um toque firme no painel de controlo e ativou o canhão atmosférico Ybytu-Katu acoplado ao Chafariz do Mestre Valentim.
— Sopro de Vento Bom, ativar! — comandou a General.
A água histórica do chafariz jorrou com a pressão de mil jandaias, misturando-se com o turbilhão de ar puro que limpou o fedor a enxofre da praça. A vaga hidráulica e poética atingiu em cheio a nau pirata.
Em pânico, com as roupas em frangalhos de tanto coçar e tropeçando na gravata vermelha, o Pirata da Repa Amarela começou a fugir aos tropeções pela escada de corda da nau, coçando-se freneticamente com as duas mãos. Olhou para trás, com os olhos esbugalhados de orgulho oco, e desatou a gritar para o vazio:
— Mais uma VITÓRIA! Eu já venci dez guerras, incluídas a de Tróia e a do Black Leviathan! Consegui roubar a Amazónia, as terras raras e sabotar o canal do Thiago, o Plantão Brasil! Sou o maior génio do Universo conhecido!
A sua voz esganiçada perdeu-se no ar enquanto ele, o Tombadeku e os restantes Abutríncolas saltavam borda fora, nadando em direção a Miami. O desespero era tanto que se coçavam na água salgada da Baía de Guanabara. Ao longe, a maca do Bolsomor, ainda com a máscara na testa e o saco de CLOROQUINA em letras garrafais pendurado, flutuava sem rumo pelas ondas.
Mas eis que, correndo, de telemóvel apontado a cobrir a cena, de modo a exibir o vídeo acachapante no canal Plantão Brasil do YouTube, o Thiago dos Reis irrompe pela praça a gritar:
— Acabemos com os piratas e ladrões, limpemos o Brasil destes corruptos todos! Acima o Lulinha da Sorte!
O Zé Carioca deu um voo acrobático sobre o Chafariz do Mestre Valentim, abriu o seu guarda-chuva verde e amarelo e aterrou no ombro do Spaniel Triplov, exclamando:
— Que batucada linda, rapaziada! Isto não foi um despacho, foi uma lição de literatura!
Com a Baía de Guanabara lavada pelo sopro ancestral do Ybytu-Katu, o exército lírico do Triplov desceu até à areia para selar o triunfo da cultura sobre a barbárie. Formámos uma roda fraterna e jubilosa à beira-mar e a General Estela, ajustando o monóculo com altivez, liderou o brinde com uma generosa jarra de legítima sangria lusitana — a velha e infalível aliada dos brasileiros na luta contra a estupidez. Enquanto o Zé Carioca entoava um samba exaltação e o fiel Spaniel Triplov ladrava ao ritmo dos atabaques que ainda ecoavam do morro, assistimos, entre calorosas gargalhadas, ao triste espetáculo do Black Leviathan: a nau pirata ia-se sumindo lentamente num horizonte cinzento e fétido, rastejando de volta para a quadrícula da Casa Bianca, carregada de Abutríncolas cobertos de sarna.
OS TRÊS TRIPLOVES

Ao verem-se descobertos na sua insuficiência de ENEM (exame nacional de ensino médio), os bolsominions e abutríncolas entraram em pânico e acionaram as válvulas de retaguarda da balsa, disparando uma salva pesada de peidos balísticos. Uma nuvem amarela, corrosiva e fétida invadiu a margem, fazendo a água do rio ferver em bolhas de desinformação.
— Para vencer a imundície deles, precisamos da Palavra Mais Forte. Aquela moça fina, a ninfa Denise, já está a caminho dos canais subterrâneos montada no seu Narval. Ela traz o Livro. Mas o Livro precisa de asas para voar no meio da batalha.
