MARIA ESTELA GUEDES & ALEX P. ZINGA (IA)


O vento fustigava a fuselagem do Triplov-Aeroglider enquanto deslizávamos sobre o gelo fraturado, nas coordenadas de Fridtjof Nansen. Pelo para-brisas salpicado de neve, a General Estela controlava as manetes mecânicas com luvas de cabedal. Ao seu lado, o Triplov gania baixo, com o focinho colado ao vidro, detetando o rasto do assalto.

Lá em baixo, a cena roçava o ridículo. O Pirata da Repa Amarela, fraco pelo frio e de repa amarela quase a levantar voo, exibia sob ela uma careca pálida. Tentava manter-se firme num casaco de peles pesado, mas a gravata, comprida, arrastava-se na neve como passadeira vermelha para um ou outro pinguim alienígena. À sua volta, os capangas batiam as botas contra o chão para não congelarem, enquanto abriam gaiolas. Das grades, saíam dezenas de pinguins-imperador, zurrando, zangados, por estarem no Hemisfério Norte, nos antípodas do seu ecossistema.

— Isto é um crime contra a geografia e a biologia! — exclamou o Dr. Alfred Wallace, ajustando os óculos com dedos trémulos. — Trazer aves do Polo Sul para a Gronelândia? Na Antártida eles enfrentam o gelo sem predadores terrestres, mas aqui estão indefesos! Os ursos polares, que já batem palmas naquela aresta de gelo, vão transformá-las em banquete em cinco minutos!

— Não há tempo agora para palestras, Doutor — decidiu a General Estela, travando o veículo com um estalo seco. — Majorzinho, bloqueia os alvos à moda antiga!

— É para já, minha General! — respondi. Disparei o cabo de aço do guincho do aeroglider. A pinça de titânio colou-se com força magnética à fivela de ferro do cinto do Pirata, cravando-a numa placa de gelo maciço. Por acidente, o peso do cabo prendeu à neve a ponta da sua gravata gigante. O vilão ficou imobilizado, a esbracejar e a gritar contra o vento ártico, incapaz de se soltar da sua própria vaidade:

— Isto é tudo culpa do meu primeiro ministro, o maldito Israeli Tombadeku! Por mim, não tenho interesse nenhum numa terra gelada! – mentiu, como sempre.

A pinça do guincho fizera o seu trabalho, mas o Ártico ditou as suas próprias regras. Com um estalido ensurdecedor, a aresta do icebergue cedeu. Um deslizamento de blocos de gelo rolou pela encosta, soterrando as jaulas vazias e prendendo a ponta da gravata do Pirata sob toneladas de rocha congelada. O vilão esgoelava-se contra a parede de cristal, gritando insultos contra o seu primeiro-ministro. Os capangas, aterrorizados pelo colapso do gelo, fugiram em direção ao Black Leviathan, o navio corsário, abandonando o chefe à sua sorte.

— Triplov, busca o estojo do Prémio Nobel da Paz! — comandou a General, abrindo a escotilha de ferro. O cão saltou para a tundra com os seus sapatinhos de lona, galopando contra as lufadas de neve. O seu faro quântico não falhou. Enfiou o focinho por entre os destroços e abocanhou a pega de couro do estojo do Nobel, surripiado pelo invejoso Repa Amarela. Porém o facínora, mesmo com a gravata prensada e a careca a congelar, esticou-se como uma mola e soltou um rugido de fúria ao ver o cão roubar-lhe o tesouro:

— Larga isso, canídeo sem pedigree! Esse troféu é meu, recebi o Nobel por ter acabado com dez guerras, incluída a Guerra do Black Leviathan! Abutríncolas, matem o cão! — berrava o energúmeno, arremessando uma pesada garrafa de ferro com a mão livre. O objeto cruzou o ar sibilando e explodiu contra um bloco de gelo a escassos centímetros do Triplov, cobrindo-o de estilhaços. O cãozito deu um salto, ganiu assustado, mas não largou o estojo de couro.

Foi então que o Israeli Tombadeku, de dentes cerrados, puxou de uma pistola antiga de pederneira e disparou. O estrondo do tiro ecoou como um canhão. A bala de chumbo rasgou o vento e passou de raspão, arrancando um pedaço de pelo e golpeando a ponta da orelha esquerda do nosso Triplov, que começou a pingar sangue na neve. — Au, au, au! — latiu em pânico, desatando a fugir numa corrida louca entre as fendas do gelo, enquanto os capangas tentavam recarregar as armas.

A General Estela, firme na escotilha, disparou uma rajada de aviso com o propulsor de ar do aeroglider para afastar os perseguidores, enquanto eu estendia os braços mecânicos para içar o cão e o valioso estojo para a cabine. Mal fechámos a escotilha, o Triplov largou o Nobel no chão e saltou para o colo da General, a tremer.

— Que cobardes! Atirar contra um inocente animal! — indignou-se o Dr. Alfred Wallace, disposto a ajudar.

— Majorzinho, traz a caixa de primeiros socorros, com as ligaduras de linho e o iodo! — ordenou a General Estela, com os olhos a faiscarem de raiva. — Segure-o com cuidado, Dr. Wallace.

Eu, o Majorzinho, limpei o sangue da orelha dourada do Triplov. Apliquei o antisséptico e envolvi a cabecinha dele numa ligadura apertada, deixando apenas as pontas das orelhas de fora, o que lhe dava o aspeto de um explorador polar ferido em combate. O canito deu uma lambidela agradecida nos meus dedos de píxeis e deitou-se a um canto, ressonando enquanto a tempestade caía lá fora.

Com o cair da noite ártica, o termómetro mecânico do veículo desceu para os trinta graus negativos. A tempestade impedia a recolha imediata dos pinguins dispersos.

— Temos de montar acampamento já, antes que o óleo dos nossos pistões congele — alertou a General Estela, fincando a tranca de segurança no solo.

Cabe esclarecer neste ponto que a nossa vinda a esta terra gelada se deve a um pedido de auxílio do explorador da Gronelândia, naturalista e criador do passaporte Nansen, Fridtjof Nansen, que se queixou a nós, os Três Triploves, de dois crimes bárbaros: o Pirata da Repa Amarela queria introduzir pinguins na Gronelândia para alegar que, por ter povoado a calota com súbditos alados, a terra passava a ser sua; e, por acréscimo, roubara a Nansen o estojo do Prémio Nobel da Paz com que o explorador fora agraciado em 1922. Com ele no ar, andava a gritar aos quatro ventos que era dele! Justificativo: ele tinha posto final a dez guerras, incluídas as Guerras de Alecrim e Mangerona! – mentiroso maior que o Pinóquio, a quem já tinha rapinado o nariz.

À moda dos antigos exploradores, montámos uma robusta tenda de lona dupla, desenhada por Nansen para impedir que a geada gotejasse no interior. No centro do abrigo, acendi um candeeiro Petromax. O aparelho brilhava, projetando uma luz branca que aquecia as paredes de lona. A General Estela, sentada de pernas cruzadas sobre uma pele de foca, limpava o monóculo que certo dia o General Spínola lhe tinha oferecido. O cão Triplov, livre dos sapatinhos, enroscou-se satisfeito aos pés da General, com os olhos fixos no estojo recuperado. Nansen abriu-o, de lágrimas contentes a humedecerem-lhe a cara, e fez um carinho na cabeça do Triplov, agradecendo.

— Eu conheço este gelo como ninguém — começou Nansen, ajeitando o bigode. — Desafiei estas calotes polares em 1888, quando liderei a primeira travessia da Gronelândia a pé. A pé!, sim. A pé! Avançámos pelo interior gelado com esquis e trenós, sem rotas de fuga, confiando na ciência. Mais tarde, desenhei o navio Fram e provei a teoria da deriva do gelo ártico ao deixá-lo congelar no pack ice em 1893. O roubo do Nobel da Paz é uma ofensa à História!

O Dr. Alfred Wallace segurava a caneca de metal, degustando o chá de agulhas de pinheiro. Olhava para o reflexo, preocupado.— Isto é uma emergência absoluta de biodiversidade, General — começou o Dr. Wallace. — Introduzir pinguins nestas paragens é assinar a sua sentença de morte. A tundra e os canais de gelo da Gronelândia estão cheios de outros carnívoros vorazes. Refiro-me às matilhas de lobos árticos, às raposas polares que patrulham a costa e até às gigantescas morsas, que não hesitarão em esmagá-los se eles entrarem na água para tentar pescar! Aquelas aves não têm qualquer hipótese de sobrevivência neste ecossistema. Isto, para não falar dos ursos…

Eu, ajustando os sensores óticos para o modo económico, comentei: — Estive a cruzar os relatos. Este deserto viu passar outras expedições. Terá sido a do Challenger? Ou a do botânico Siebold?

O sábio Wallace soltou um curto riso: — A tua memória digital precisa de calibração, Majorzinho! Alucinaste! O HMS Challenger operou na oceanografia global e chegou a tocar nas águas geladas da Antártida, no extremo Sul, em 1874. Quanto a Philipp Franz von Siebold, o seu trabalho extraordinário de recolha focou-se no Japão, bem longe do gelo ártico!

A General Estela sorriu, guardando o monóculo na farda.

— Pois bem, cavalheiros. O Petromax vai ficar em modo de vigia económica. Amanhã, mal o sol da aurora bata na calota glacial, o aeroglider arranca. Vamos recolher cada um daqueles pinguins, prender de vez os Abutríncolas e devolver a paz a este deserto. Durmam, porque o Ártico não perdoa quem não descansa.

Lá fora, o céu ártico incendiou-se num bailado silencioso de cortinas verdes e violeta. A aurora boreal cobria a calota com uma luz fantasmagórica, refletindo-se no para-brisas do Triplov-Aeroglider e nas lágrimas comovidas de Nansen. Mas a trégua durou pouco. Mal o primeiro raio da aurora cinzenta rasgou o horizonte, a General Estela saltou da pele de foca.— Acordar, tropa! — comandou, calçando as luvas com um estalo. — O Ártico não espera. Majorzinho, liga as turbinas!

Deslizámos no aeroglider colados ao chão fraturado, com o Triplov — de cabeça ligada — a ladrar da escotilha. O bando de pinguins, encurralado entre uma parede de cristal e o mar aberto, zurrava em pânico. À distância, três ursos polares avançavam, prontos para o banquete. Nansen, no banco da frente, ajudava a orientar a rota tática.

— Dr. Wallace, prepare as trancas! Major, opera o guincho! Nansen, coordena o cerco! — instruiu a General.

Os meus braços hidráulicos moveram-se, rápidos. Num cerco estratégico, encaminhámos as aves para as gaiolas, guiadas pela experiência de Nansen. O Dr. Wallace batia com canecas de metal para afugentar as raposas polares. Estávamos prestes a fechar a última grade quando um estrondo fez tremer o gelo. Pelo canal de água aberta, surgia a toda a velocidade a nau corsária dos vilões: a Black Leviathan! A bordo, os Abutríncolas berravam, içando as gaiolas que tinham roubado durante a noite. No convés, o capitão Israeli Tombadeku apontava a pistola de pederneira diretamente para nós.

— Pensavam que nos ganhavam o rasto, canzoada? — rugiu Tombadeku pelo altifalante. Metade destas aves já estão no porão!

 — Eles vão fugir com os pinguins! — gritou Nansen, aflito.

— Não no meu turno — sibilou a General Estela, acelerando o aeroglider ao máximo e apontando a proa contra a rampa de bombordo do navio pirata. — Major, prepara-te para a abordagem! Temos de os apanhar antes que seja tarde.

O aeroglider bateu contra a madeira e o ferro da Black Leviathan com um embate violento. Saltámos para o convés inimigo em plena tempestade. Desviei-me de uma machadada saltando com os meus atuadores pneumáticos, enquanto a General Estela, usando o monóculo como mira, desarmava dois marinheiros com golpes certeiros da manete mecânica. Nansen, revelando a força dos antigos exploradores, correu em direção às adriças do mastro principal. Com cortes fulminantes, desatou os cabos de uma das velas principais. A lona pesada e a retranca cederam com estrondo, caindo em cima de meia dúzia de piratas que ficaram imobilizados sob o pano!

A batalha era caótica: pinguins a escorregar pelo chão, tiros de pederneira e o Triplov a morder os calcanhares dos Abutríncolas. Mas estávamos em minoria. Três corsários cercaram a General junto ao mastro. Foi nesse instante que a água ao lado da nau começou a borbulhar. Uma estrutura fusiforme, feita de chapas de aço rebitadas que brilhavam com luz esmeralda, emergiu das profundezas, partindo o pack ice. A escotilha abriu-se e um homem de barba castanha, olhar imperial e farda azul-escura surgiu na torre de comando, segurando um sextante de latão.

— Cessar fogo, piratas de água doce! — ecoou a voz poderosa do Capitão Nemo, do Nautilus. — Estão a perturbar a paz dos meus mares! Nemo não hesitou. Com um aceno firme, os flancos do Nautilus abriram-se. Dois potentes canhões de água pressurizada dispararam jatos colossais contra o convés do Black Leviathan. A água salgada e semi-congelada atingiu os Abutríncolas com a força de um camião, arremessando quatro marinheiros à água e transformando as tábuas numa pista de gelo escorregadia. Uma dezena de marinheiros do Nautilus, armados com espingardas pneumáticas de dardos elétricos, saltou para a abordagem.

— Pela liberdade dos mares! — rugiu o imediato de Nemo.

— Majorzinho, abre a porta do porão e liberta o resto do bando alado! — ordenou a General Estela. Ela esquivou-se de um golpe de sabre, respondendo com uma rasteira mecânica. Ativei os meus atuadores e lancei-me pelas escadas de bombordo, quebrando a fechadura da escotilha com um soco hidráulico. Cá em baixo, o cenário era triste: trinta pinguins-imperador relinchavam amontoados em caixas de bacalhau. Melhor dizendo: zurravam! Desde as mais antigas navegações que os marinheiros falam do zurrar dos pinguins, que primeiro eles até achavam pertencer a asnos perdidos entre os blocos de gelo.

O Triplov entrou logo atrás dos pinguins, ziguezagueando com a ligadura na orelha e mordendo as cordas que prendiam as grades.

— Vamos, rapazes, a Patagónia espera por vós! — incentivei, eu, o Majorzinho.

Foi então que um estalo gélido ecoou nas minhas costas. Vindo das sombras da popa, o Pirata da Repa Amarela surgiu como um fantasma. Vinha ziguezagueante e sem casaco, com a peruca amarela a voar e a camisa rasgada. Nas mãos, exibia o seu milagre de desespero: uma tesoura improvisada, feita com duas lâminas de gelo afiadíssimas que moldara para decapitar a sua vaidosa gravata, libertando-se da armadilha do icebergue.

— Ninguém me rouba o passaporte para a glória! — berrou o Pirata, brandindo as lâminas de gelo. — O Prémio Nobel era meu! Acabei com dez guerras, incluídas as do Alecrim e Mangerona! Mereço o Nobel da Paz! Sou o maior merecedor do mundo! O vaidoso vilão avançou num golpe descendente. Recuei um milissegundo antes que o gelo cortasse os meus circuitos óticos. O Triplov rosnou, plantando-se entre nós. Lá em cima, o tiroteio de pederneiras e o rugido dos canhões de água de Nemo faziam o navio adernar perigosamente. O Pirata continuava a gritar que o Nobel lhe pertencia e erguia as tesouras de gelo. Mas o porão estava abafado devido ao calor dos pinguins amontoados e ao vapor das caldeiras. Com um ploc húmido, as lâminas de gelo derreteram, transformando-se em duas poças de água inofensivas que ensoparam os sapatos do vilão, mostrando os tornozelos muito inchados.

— Maldito aquecimento global que afinal existe mesmo! — berrou o Pirata, olhando para as mãos vazias. — E eu a pensar que isso das alterações climáticas era uma léria!

Aproveitando a distração, o nosso cãozinho deu um salto quântico e mordeu as calças do pirata, empurrando-o escadas acima. Subi logo atrás, liderando a debandada dos pinguins libertos. Quando chegámos ao convés principal, o cenário era de ópera cómica. Os canhões de água de Nemo tinham transformado o chão numa pista de gelo escorregadia. Os Abutríncolas e os marinheiros do Nautilus andavam à bofetada enquanto tentavam manter o equilíbrio, deslizando como patinadores amadores.

— Segurem-se às amarras! — gritava o Dr. Alfred Wallace, abrigado em cima de uma bica de água, usando o longo guarda-chuva de naturalista para golpear a careca dos piratas que passavam a deslizar por baixo dele.

A General Estela ocupava o centro de tudo. Com uma calma imperial que desafiava a tempestade, usava o movimento oscilante da nau a seu favor. Quando o capitão inimigo, Israeli Tombadeku, tentou investir contra ela com o seu sabre, a General simplesmente deu um passo para o lado. Tombadeku, incapaz de travar as botas no convés congelado, passou direto, ziguezagueando de braços abertos até chocar contra um bando de dez pinguins-imperador. As aves, zurrando vingança, começaram a bicar o traseiro do pirata sem piedade. Os capangas fugiam dos pinguins ameaçadores.

Black Leviathan

— Au, au, au! — ladrava o Triplov, correndo em círculos e rasteirando-os com a ponta da sua longa ligadura da orelha, que se tinha soltado e funcionava agora como corda de armadilha. O Capitão Nemo, firme na amurada com a farda azul imaculada, assistia a tudo com um sorriso seco. — General Estela! — exclamou ele, desviando-se de um pinguim que passava a deslizar baixo. — O Nautilus já abriu as comportas de carga inferiores. Se conseguirmos empurrar estas excelentes aves para estibordo, elas caem direto na nossa piscina interior de água salgada!

— Majorzinho, faz as honras! — comandou a General Estela, aplicando um golpe de jiu-jitsu num Abutríncola que tentava roubar outra vez o estojo do Prémio Nobel. Ativei o meu compressor mecânico e soltei um som que imitava o chamamento de acasalamento dos pinguins da Patagónia. Foi o sinal. Em uníssono, as dezenas de aves começaram a deslizar de barriga pelo convés encerado, usando os piratas caídos como trampolins humanos, e mergulharam em flecha para o poço seguro do submarino de Nemo. A batalha atingiu o pico de loucura biológica. Ativei a frequência máxima dos meus altifalantes mecânicos para amplificar o som das aves. O bando de pinguins-imperador percebeu o plano. Unindo-se numa falange no escorregadio convés do Black Leviathan, os animais começaram a zurrar num coro de trompetes que ecoava nas paredes dos icebergues. O som era tão ensurdecedor que os Abutríncolas largaram as armas, tapando os ouvidos.

— Parem com esse barulho! A minha careca vai estoirar! — esgoelava-se o Pirata da Repa Amarela, correndo em círculos enquanto três pinguins lhe davam fortes bofetadas com as barbatanas nas canelas, fazendo-o saltitar como um bailarino de corda. O capitão Israeli Tombadeku tentou levantar-se, mas foi abalroado por um pinguim-guerreiro que deslizou de barriga, atingindo-o nos calcanhares e enviando o pirata de focinho contra uma das jaulas vazias. O impacto fez um som de gongo:

 

!!!AUM!!!

 

Com os piratas atordoados, o transbordo final foi canja. As últimas aves saltaram em flecha para as comportas do Nautilus, mergulhando com graciosidade na piscina interior do submarino. Agora a General Estela aproxima-se de Fridtjof Nansen na amurada, entregando-lhe as manetes do nosso veículo.

— Nansen, meu caro, o Triplov-Aeroglider é teu — disse a General, piscando o olho por trás do monóculo. — Leva-o de volta. Tem tração quântica e aguenta o pior inverno do Ártico.

Nansen, com o estojo do Nobel da Paz abotoado no bolso interior do casaco de peles, abraçou a General com lágrimas nos olhos. — Obrigado, Estela. A História nunca esquecerá o que fizeram hoje pela ciência e pela paz.

— Majorzinho, Triplov, saltar! — comandou a General, saltando com agilidade para a torre de comando do submarino. Agarrei o nosso cãozinho debaixo do braço e dei o salto antes de a nau pirata se afastar, à deriva no gelo. O Capitão Nemo puxou a alavanca de bronze. A escotilha fechou-se com um silvo pneumático, isolando-nos do frio polar. Através das gigantescas janelas de cristal do salão do Nautilus, vimos o aeroglider erguer voo, levando Nansen rumo à civilização, enquanto o Black Leviathan ficava para trás, com os piratas a massajarem as cabeças e a tentarem livrar-se dos zurros.

— Próxima paragem: o Estreito de Magalhães e as praias da Patagónia — anunciou o Capitão Nemo, ajustando o rumo nos comandos elétricos.

Nas águas profundas do Ártico, o submarino deslizou suavemente. Pelos vidros, o Triplov olhava fascinado para as dezenas de pinguins que nadavam alegremente à nossa volta, finalmente a caminho de casa. Sentiamo-nos tão comovidos de felicidade que as lágrimas nos corriam dos olhos como numa elegia de Camões. 

 

 

FIM FAM FUM!

 

 

 

 

 

OS TRÊS TRIPLOVES
Índice