LUCAS V. DUTRA & IVAN A. PINHEIRO
A Inteligência Artificial e a literatura como instrumentos de trabalho do maçon contemporâneo
I
Lucas Dutra – Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, GLESP, Or. de São João da Boa Vista, Psicólogo, Professor Doutor em Psicologia, Especializado em Maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com.
Ivan A. Pinheiro – Mestre Maçom, Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br.
Já há tempos os autores têm se ocupado da inovação (organizacional, gestão, docência) e dos avanços tecnológicos enquanto vetores que, queiramos ou não, reverberam em meio à Ordem (Pinheiro, 2021, 2023a, b, 2025; Pinheiro e Dutra, 2025a, b; Pinheiro, Dutra e Filardo, 2025). A Inteligência Artificial (IA), por exemplo, em abordagem especulativa já foi estudada a partir das ideias e publicações de autores já consagrados (R. Kurzweil, Y. N. Harari, M. Nicolelis e outros), bem como matérias mais atualizadas veiculadas nas grandes medias no Brasil, muitas, reproduções dos originais publicados no exterior. De outro lado, os autores também têm se ocupado em desenvolver “ferramentas de trabalho” para o maçom contemporâneo, bem como explorar novos usos para fontes já existentes, como é o caso da Literatura no texto “A Literatura como Ferramenta para a Compreensão da Arte Real na Maçonaria Especulativa”, a ser publicado, em breve, pela Revista Ars Studiorum. Um ensaio sobre como a literatura pode iluminar a trajetória dos Iniciados pode ser visto em Norenberg (2025).
Por oportuno, importa destacar que tem sido crescente o emprego da IA na produção de textos de toda natureza e em todos os ambientes, o que certamente inclui a Maçonaria, seja ele (o uso) declarado ou não pelo autor e/ou percebido pelo leitor, o que revela a atualidade e a relevância do tema. Não obstante, e não sem razão (adiante voltaremos ao assunto), também já há veículos que restringem o seu uso, como foi o caso do recente Edital da Revista Ars Studiorum que no seu Termo de Ciência e Responsabilidade, firmado por todos os que submeteram trabalhos, estabeleceu: “Estou ciente de que é vedado o uso de tecnologias de inteligência artificial (IA) generativa ou preditiva como meio autônomo de elaboração do trabalho acadêmico, sendo proibida sua utilização com o fim de produzir, total ou substancialmente, o conteúdo do artigo”.
Desta feita os autores combinam os seus 2 (dois) objetos de estudo e inauguram uma nova Série na qual, a partir da obra “A Morte de Ivan Ilitch” (Tolstoi[3], 2002), exploram os alcances e os limites da Inteligência Artificial para a pesquisa e a elaboração de trabalhos no contexto da Maçonaria. Metodologicamente foram adotados os seguintes procedimentos:
1. a escolha de um prompt (instrução, comando, etc.) para a IA extrair da obra conteúdos pertinentes e de utilidade ao maçom;
2. relatar a extração na forma de um ensaio com até 3 (três) páginas;
3. a submissão do mesmo prompt a 3 (três) dentre as IA mais usuais e na sua versão gratuita, portanto sem recursos adicionais e potencializadores: Gemini 2.5 Flash, Grok e DeepSeek;
4. os textos gerados, foram (serão) então incorporados aos textos autorais – sem ajustes (à exceção da formatação) ou correções, etc.
O que se segue, então, em cada texto da Série, são as análises e as considerações a partir dos achados de pesquisa que exploram, entre outros aspectos:
- as semelhanças e as diferenças entre os textos gerados;
- a existência de padrões estruturais, semânticos ou outros entre as versões;
- o cruzamento de informações entre as respectivas versões;
- as simulações a partir de pequenas mudanças introduzidas no prompt;
- ainda que as versões gratuitas sejam natural e intencionalmente limitadas em recursos, entende-se que, mesmo sendo um exercício, não é possível deixar de tecer alguma apreciação crítica-comparativa. Entretanto, é importante ressaltar que mesmo as versões públicas quase diariamente são atualizadas com novos recursos que podem(riam), de um dia para outro, alterar o documento gerado e, por consequência, a apreciação ora referida; e, finalmente,
- os autores apresentarão, em contraste, um texto produzido, efetivamente, a 4 (quatro) mãos.
Justifica-se, pois, a divulgação no formato “Série”: para evitar que o relatório de pesquisa (artigo) final ficasse demasiado extenso julgou-se conveniente dividi-lo. Assim, as análises e considerações serão crescentes: além de cada ensaio (gerado por IA) se fazer acompanhar dos comentários pertinentes ao texto per se, conforme sejam incorporados novos ensaios, as análises e considerações serão expandidas já em nível de agregação e comparação.
A divulgação do prompt, logo a seguir, e que antecederá cada texto da Série, tem por objetivo estimular os leitores com índole investigativa:
- a reproduzir os passos dos autores;
- a promover variações sobre o tema (what if?);
- a compartilhar os achados de pesquisa, em especial se gerados a partir de outras IA ou, se as mesmas listadas acima, potencializadas a partir de recursos só disponíveis em versões proprietárias; e, por fim, mas não menos importante,
- a participar de uma rede estudos que leve a novas descobertas sobre os alcances e limites da IA aplicada à Maçonaria.
A primeira publicação, a seguir, foi gerada pela IA Gemini 2.5 Flash a partir do seguinte comando emitido no 10.11.25:
- Elabore um ensaio de até 3 páginas sobre a obra literária “A Morte de Ivan Ilicht”, contendo duas partes. A primeira deve conter e justificar as cinco principais noções que determinam a importância da obra. A segunda deve realizar uma integração das noções contidas na primeira parte, que poderiam tornar esta obra literária uma ferramenta pessoal de aperfeiçoamento e conscientização para o Maçom, no que tange aos preceitos e valores da Ordem.
A Morte de Ivan Ilitch: O Espelho da Vida e a Busca pela Luz Interior
A novela A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, publicada em 1886, transcende a simples narrativa da agonia de um juiz de alto escalão. É uma profunda meditação sobre a existência, o propósito e a inevitabilidade da morte, servindo como um implacável libelo contra a superficialidade da vida burguesa do século XIX, que permanece incrivelmente atual. Sua importância filosófica e moral reside na sua capacidade de forçar o leitor a confrontar a pergunta central da vida de Ivan: “E se a minha vida inteira tivesse sido errada?”
Primeira Parte: As Cinco Principais Noções de Importância da Obra
A relevância duradoura de A Morte de Ivan Ilitch é sustentada por pelo menos cinco noções existenciais e morais cruciais.
1. A Hipocrisia da Vida “Correta” e a Alienação Social
A vida de Ivan Ilitch é caracterizada pela busca incessante da conformidade social[4]. Ele segue o roteiro estabelecido: casa-se por conveniência, ascende na carreira por vaidade e decora sua casa com base nas tendências da moda. O principal pilar da obra é a crítica à superficialidade: a vida de Ivan é “a mais simples e a mais comum, e, ao mesmo tempo, a mais terrível”.
A importância desta noção reside no seu papel de crítica social atemporal. Tolstói revela que viver uma vida materialmente bem-sucedida, mas destituída de significado autêntico, é viver uma falsidade. Quando Ivan adoece, seus amigos e familiares veem sua doença e morte como meros inconvenientes sociais, jamais como uma tragédia existencial, expondo a frieza e a falsidade das relações baseadas na aparência.
2. A Inevitabilidade Existencial e o Silêncio da Morte
Um dos aspectos mais perturbadores é o silêncio em torno da morte. Ivan é atormentado pelo silogismo que aprendeu na juventude: “Todos os homens são mortais; Caio é um homem; logo, Caio é mortal.” No entanto, ele nunca aplicou essa verdade a si mesmo. Sua importância reside na negação universal da mortalidade. Sua família e os médicos mentem e evitam o assunto, buscando manter uma fachada de normalidade.
Essa negação força Ivan à solidão incomunicável. O leitor é convidado a testemunhar essa negação em sua própria vida. A obra é, portanto, um lembrete veemente de que a morte não é um conceito abstrato ou algo que acontece “aos outros”, mas o destino mais pessoal e inegociável.
3. O Sofrimento como Ferramenta de Conscientização
É apenas através da dor física e moral excruciante que Ivan é capaz de iniciar sua jornada de autodescobrimento. Ele percebe que o sofrimento não é um castigo, mas uma ferramenta purificadora que desmascara a futilidade de seu passado. O sofrimento torna-se o único caminho para a verdade.
A importância desta noção reside na inversão do valor da dor. A agonia de Ivan é o motor de sua consciência moral. A obra sugere que a verdadeira redenção ou “luz” só pode ser alcançada após o reconhecimento e a aceitação plena da miséria da própria existência equivocada.
4. A Figura do Servo Gerasim e a Simplicidade Autêntica
Em meio à hipocrisia, a única figura que oferece consolo e autenticidade é o servo Gerasim. Gerasim não teme a morte e trata a doença de Ivan com compaixão e naturalidade, em contraste com a artificialidade dos ricos. Ele oferece conforto físico e moral simplesmente por ser verdadeiro consigo mesmo e com o sofrimento alheio.
Esta noção sublinha a mensagem central de Tolstói: a salvação moral reside na simplicidade, na humildade e na capacidade de empatia desinteressada, qualidades perdidas na complexidade vazia da vida social de Ivan. Gerasim representa o ideal da vida não contaminada pela vaidade.
5. A Passagem da Treva para a Luz e a Redenção
O clímax da obra é a passagem da treva para a luz. Após três dias de luta agonizante, Ivan finalmente aceita que sua vida foi mal vivida. Nesse momento de rendição e libertação, ele sente que a dor cessa e vê “uma luz” no fim do túnel, transformando a morte em uma libertação espiritual.
A importância final desta noção é a possibilidade de redenção in extremis. Tolstói não oferece um caminho fácil, mas um caminho de reconhecimento moral. A morte, que era o maior horror, transforma-se no maior triunfo da consciência, provando que é o modo como se vive, e não como se morre, que define o valor de uma alma.
Segunda Parte: Integração e Aplicação para o Maçom
A jornada de Ivan Ilitch, do homem mundano alienado ao homem que encontra a luz na morte, oferece um roteiro poderoso de aperfeiçoamento pessoal e conscientização que ressoa profundamente com os preceitos e valores da Ordem Maçônica. O trabalho de Ivan sobre si mesmo, iniciado sob coerção da dor, é o trabalho que o Maçom se compromete a realizar voluntariamente sobre sua “pedra bruta”.
Integração 1: Do Vício Social à Busca pela Verdade (Hipocrisia e Maçonaria)
A Hipocrisia da Vida “Correta” de Ivan serve como um alerta contra a Vaidade e a Aparência — vícios que a Maçonaria ensina a combater. O Maçom jura buscar a Verdade e viver segundo a Virtude, rejeitando o “mundo profano” que Ivan personifica. A obra lembra que a verdadeira elevação não está no título profissional ou na decoração da casa (as ambições vãs de Ivan), mas na construção de um Templo interior moralmente íntegro. A falência da vida de Ivan é a falência de um homem que construiu sua casa sobre a areia das convenções sociais, e não sobre a rocha dos princípios.
Integração 2: Consciência do Tempo e da Mortalidade (Silêncio da Morte e Maçonaria)
A Inevitabilidade Existencial é um preceito central na Maçonaria, simbolizada pela Ampulheta e pela Foice do Tempo. O Maçom é constantemente lembrado de que o tempo é escasso e que o trabalho de “desbastar a Pedra Bruta” deve ser feito agora. A negação da morte por Ivan e seus pares é o exato oposto da vigilância que a Ordem exige. Ao confrontar A Morte de Ivan Ilitch, o Maçom é compelido a não esperar pela dor física para se conscientizar de que não é apenas “Caio” quem é mortal, mas ele próprio, acelerando a urgência do aperfeiçoamento moral.
Integração 3: O Cinzel da Dor e o Autoconhecimento (Sofrimento e Maçonaria)
O Sofrimento como Ferramenta de Conscientização é análogo ao trabalho simbólico com os instrumentos. A dor excruciante de Ivan funciona como o Cinzel e o Malho quebram a crosta da ilusão profana. A Maçonaria prega o Conhece-te a ti mesmo, mas o caminho é frequentemente difícil e doloroso, exigindo a demolição de velhos hábitos e egos. O Maçom pode ver na agonia de Ivan a dureza necessária para transformar o erro em verdade, aceitando que a verdadeira Luz só vem após a introspecção mais severa e honesta.
Integração 4: O Valor da Simplicidade e Fraternidade (Gerasim e Maçonaria)
A autenticidade de Gerasim é o modelo de Fraternidade e Humildade que a Ordem Maçônica busca incutir. Gerasim trata Ivan com genuína caridade e compaixão, sem esperar recompensa social ou profissional. Ele não julga o doente; ele o ampara. A solidão incomunicável de Ivan é o resultado de uma vida sem laços fraternos verdadeiros. A Ordem, ao colocar os Irmãos no mesmo nível, independentemente de sua posição social no “mundo profano”, visa criar uma rede de apoio que previna a solidão existencial de Ivan, baseada na Ajuda Mútua e no amor fraternal desinteressado.
Integração 5: A Busca pela Luz Interior (Passagem da Treva para a Luz e Maçonaria)
O momento final de Redenção e Luz de Ivan é a mais direta aplicação maçônica. A Luz é o objetivo final do trabalho maçônico — a Gnose, o conhecimento da Verdade e a união com o Grande Arquiteto do Universo. Ivan Ilitch, no fim, abandona a Treva de sua vida egoísta e, ao aceitar a verdade de seu erro, encontra a paz e o Esclarecimento moral. A obra ensina que a elevação espiritual não é um rito externo, mas um ato de consciência interno, o último e mais importante passo no desbaste da Pedra Bruta, culminando na unificação com o princípio superior, simbolizada pela visão de luz e a superação do medo da morte.
Em síntese, A Morte de Ivan Ilitch funciona como um Livro das Constituições existencial. Ela não apenas ilustra o que acontece quando os princípios da Virtude, da Fraternidade e do Autoconhecimento são negligenciados, mas também dramatiza o difícil, porém recompensador, caminho da Iniciação Existencial — o reconhecimento de que, para se viver uma vida plena, é preciso antes de tudo estar preparado para morrer bem.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
NORENBERG, Mateus. O Idiota – Você já se sentiu um idiota por ser justo ou verdadeiro? Freemason, 07 nov. 2025. Disponível em https://www.freemason.pt/o-idiota/. Acesso em 09.11.25.
PINHEIRO, Ivan A. O copo está meio cheio ou meio vazio? In: MORAIS, Cassiano Teixeira de (Org). Maçonaria Pós-Pandemia. Brasília, DF: CMSB, 2021, p. 139-157.
PINHEIRO, Ivan A. Modelo Geral de Análise & Interpretação Simbólica – MGA&IS. Bibliot3ca Fernando Pessoa. 16 jul. 2023a. Disponível em https://bibliot3ca.com/15764-2/. Acesso em 10.11.25.
PINHEIRO, Ivan A. A Associação que Abriga a Loja Maçônica – um espaço à criatividade, alcances e desdobramentos gerenciais. Freemason, 17 ago. 2023b. Disponível em https://www.freemason.pt/a-associacao-que-abriga-a-loja-maconica/. Acesso em 09.11.25
PINHEIRO, Ivan A. Inteligência Artificial – ser ou não ser, eis a questão. Freemason, 25 mar. 2025. Disponível em: https://www.freemason.pt/inteligencia-artificial-ser-nao-ser-eis-a-questao/. Acesso em 09.11.25.
PINHEIRO, Ivan A.; DUTRA, Lucas V. Em Busca de uma “Pedagogia” Maçônica. In: AMVBL – Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras (Org.). Os Desafios da Maçonaria na Contemporaneidade – tecnologia, olhares e impactos na sociedade. Brasília, DF: Independently Published, 2025a, p. 24-54.
PINHEIRO, Ivan A.; DUTRA, Lucas V. Tecnologias e Dilemas Morais. Freemason, 02 abr. 2025b. Disponível em https://www.freemason.pt/tecnologias-e-dilemas-morais/. Acesso em 09.11.25.
PINHEIRO, Ivan A.; DUTRA, Lucas V.; FILARDO, José. O Repto da Modernização e a Arte Real. In: AMVBL – Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras (Org.). Os Desafios da Maçonaria na Contemporaneidade – tecnologia, olhares e impactos na sociedade. Brasília, DF: Independently Published, 2025, p. 55-81.
TOLSTOI, Leon. A Morte de Ivan Ilitch. Porto Alegre: L&PM, 2002. ISBN 85.254.0600-7.
Fonte: https://www.maconariacomexcelencia.com
II
Ao primeiro olhar, sem sequer apreciar o mérito do conteúdo, o leitor mais habituado à leitura e à produção textual “dita”[1] acadêmica, chamam a atenção 2 (duas) ausências: a de Citações no corpo do trabalho e, ao final, a das respectivas Referências Bibliográficas. E não são questões de menor importância, como, em detalhes, pode ser visto em Pinheiro (2025) e também em Cichoski (2025): a segunda tem sido uma das exigências dos principais veículos e editais no ambiente editorial maçônico, e quando promovida sem a devida correspondência, caso a caso com a primeira, pode suscitar dúvidas quanto à licitude dos procedimentos adotados pelo autor.
Todavia, o que mais importa são o significado e a contribuição dessas efetivas digitais de um texto: enquanto as Referências sinalizam a trajetória e o esforço (quantidade, diversidade[2]) de pesquisa realizado pelo autor, as Citações expõem o seu raciocínio, como reúne, concatena e elabora os argumentos a partir do diálogo estabelecido, sobretudo mediante citações diretas, ora corroborando, ora contestando os autores consultados; enfim, a sua estratégia para demonstrar o que pretende e até mesmo persuadir o leitor. E, avançando em considerações mais filosóficas, talvez o mais importante, pois é a partir do arranjo desses componentes (Citações e Referências) que se tornam salientes os traços do engenho e da criatividade humana, bem como podem ser distinguidas a produção artesanal-manufaturada daquela saída de uma linha de produção em série e automatizada, desde que se tenha olhos para ver e sabedoria para entender, como de resto, em todos os campos de conhecimento.
Nesses termos, o ensaio produzido pela Gemini, enquanto Peça de Arquitetura muito provavelmente ganharia os aplausos (e mais aplausos) se apresentada oralmente e teria espaço assegurado em revistas de caráter social-recreativo, mas dificilmente passaria no primeiro crivo para publicação em veículos com revisão por pares na modalidade duplo-cego (a exemplo da Ciência & Maçonaria, Ars Regum e Ars Studiorum), sobretudo em processos seletivos-competitivos (a exemplo dos que anualmente têm sido promovidos pela CMSB[3] e pelas Academias Virtuais Nacionais[4]). A rigor, com engenho e arte, atualmente um Editor pode até mesmo prescindir de Escritores para publicar uma revista maçônica ou, com os mesmos atributos, qualquer um poderia, mas espera-se que não o faça, galgar do primeiro ao último Grau do Rito que pratica sem ter, necessariamente, lido uma obra sequer sobre Maçonaria.
Frente a esse primeiro achado de pesquisa, à título investigativo na sequência foi “perguntado” à Gemini: “Quais as referências bibliográficas utilizadas na elaboração deste ensaio?”. E a resposta foi:
O ensaio é baseado na leitura e análise direta da obra literária, complementada por conhecimentos gerais sobre crítica literária tolstoiniana e a simbologia central da Maçonaria (como a Pedra Bruta, a Busca pela Luz, e os preceitos de Virtude e Fraternidade).
A principal referência bibliográfica utilizada é a própria obra:
Referência Principal: TOLSTÓI, Liev. A Morte de Ivan Ilitch (Geralmente publicado com o título original: Smert Ivana Ilyicha).
(É importante notar que, como se trata de uma análise literária e simbólica, as noções maçônicas foram integradas a partir dos preceitos e valores amplamente aceitos e estudados da Ordem, sem a citação de um livro maçônico específico.)
Como é dado a perceber, trata-se de uma resposta genérica, tanto no que refere à obra objeto de estudo quanto às fontes referentes à Maçonaria; por exemplo, nada se pode afirmar se a IA “leu e conhece a obra” ou baseou o seu ensaio a partir das incontáveis elaborações (opiniões pessoais) que ela (a obra) já motivou. Em expressão popular, a resposta equivale ao “sair pela tangente”; assim, o leitor não-Iniciado, não maçom, além de ficar intrigado com a expressão “Pedra Bruta”, não terá uma orientação para procurar esclarecimentos (entre outras, uma das funções das Referências Bibliográficas) que lhe permitam apreender para além do sentido literal desta, assim como de outras expressões utilizadas.
Quem quer que já tenha lido “A Morte de Ivan Ilicht” (Tolstoi, 2002) não terá dificuldades em reconhecer os elementos citados pela Gemini, ora elevados à condição de “noções existenciais e morais cruciais”, talvez em resposta à demanda que solicitou “as cinco principais noções que determinam a importância da obra”: 1) a hipocrisia da vida “correta” e a alienação social; 2) a inevitabilidade existencial e o silêncio da morte; 3) o sofrimento como ferramenta de conscientização; 4) a figura do servo Gerasim e a simplicidade autêntica; e, 5) a passagem da treva para a luz e a redenção. Existem outros elementos além desses 5 (cinco)? Certamente, bem como é provável que a depender das lentes (escolaridade, hábitos de leitura, vivências, sistema de crenças, etc.) de outro eventual leitor, a escolha tivesse recaído sobre outros tópicos, coincidentes ou não com os enumerados pela IA.
Do mesmo modo, o leitor Iniciado provavelmente se sentirá à mais à vontade quando se defrontar com a segunda seção; todavia, a condição de ser-maçom dos autores (deste trabalho), que não pode ser abstraída, por certo que de algum modo repercute na avaliação crítica; assim, não é possível deixar de reconhecer que a segunda seção é, relativamente, mais limitada, menos informativa que a anterior. Por exemplo, as noções de morte e verdade, centrais à Maçonaria, não foram minimamente exploradas, sobretudo quando se tem em conta que a Maçonaria reúne Ritos bastante diferentes entre si: enquanto para uns, grosso modo, a vida e a morte não passam de estados de um sequenciamento natural e biológico, para outros a vida é apenas uma etapa, inclusive a de menor importância, que precede e deve ser orientada no sentido à etapa posterior à morte – o portal para transcendência – a vida eterna. Assim, enquanto para os primeiros a vida virtuosa é essencialmente parte e consequência de um código moral acordado para tornar possível a vida em sociedade, para os outros a virtude é também conditio sine qua non – o passaporte – para alcançar a vida eterna. E se para os maçons essas conexões não restaram claras, muito menos para o leitor “profano” (outro conceito que exigiria esclarecimento) que talvez venha a ficar confuso ao ler o ensaio Gemini.
A correspondência estabelecida entre “[…] as cinco principais noções que determinam a importância da obra [e a sua utilidade enquanto] ferramenta pessoal de aperfeiçoamento e conscientização para o Maçom”, em síntese, é apresentada no Quadro 1.
| Principais noções que determinam a importância da obra | Ferramentas de aperfeiçoamento e conscientização para o maçom |
| A Hipocrisia da Vida “Correta” e a Alienação Social | Do Vício Social à Busca pela Verdade (Hipocrisia e Maçonaria) |
| A Inevitabilidade Existencial e o Silêncio da Morte | Consciência do Tempo e da Mortalidade (Silêncio da Morte e Maçonaria) |
| O Sofrimento como Ferramenta de Conscientização | O Cinzel da Dor e o Autoconhecimento (Sofrimento e Maçonaria) |
| A Figura do Servo Gerasim e a Simplicidade Autêntica | O Valor da Simplicidade e Fraternidade (Gerasim e Maçonaria) |
| A Passagem da Treva para a Luz e a Redenção | A Busca pela Luz Interior (Passagem da Treva para a Luz e Maçonaria) |
Quadro 1 – Elementos da obra “A Morte de Ivan Ilitch” que Poderiam ser Apropriados pelo Maçom Enquanto Ferramentas de Aperfeiçoamento
Salvo melhor juízo, os paralelos estabelecidos no Quadro 1, que teriam por objetivo evidenciar a utilidade por complementaridade (“A Morte …” vs Maçonaria), nem sempre, a julgar apenas títulos, são evidentes, autoexplicativos; assim a percepção e o entendimento dependem não só do conhecimento, mas também da experiência (Grau) do leitor Iniciado. Há casos, como o item 4 (quatro), destacado, onde fica muito claro que a literatura pode sim ser uma fonte (valiosa) para os estudos e aperfeiçoamento do maçom:
- Da Obra (A Morte …): 4. A Figura do Servo Gerasim e a Simplicidade Autêntica. Em meio à hipocrisia, a única figura que oferece consolo e autenticidade é o servo Gerasim. Gerasim não teme a morte e trata a doença de Ivan com compaixão e naturalidade, em contraste com a artificialidade dos ricos. Ele oferece conforto físico e moral simplesmente por ser verdadeiro consigo mesmo e com o sofrimento alheio. Esta noção sublinha a mensagem central de Tolstói: a salvação moral reside na simplicidade, na humildade e na capacidade de empatia desinteressada, qualidades perdidas na complexidade vazia da vida social de Ivan. Gerasim representa o ideal da vida não contaminada pela vaidade.
- Da Maçonaria: 4. O Valor da Simplicidade e Fraternidade (Gerasim e Maçonaria). A autenticidade de Gerasim é o modelo de Fraternidade e Humildade que a Ordem Maçônica busca incutir. Gerasim trata Ivan com genuína caridade e compaixão, sem esperar recompensa social ou profissional. Ele não julga o doente; ele o ampara. A solidão incomunicável de Ivan é o resultado de uma vida sem laços fraternos verdadeiros. A Ordem, ao colocar os Irmãos no mesmo nível, independentemente de sua posição social no “mundo profano”, visa criar uma rede de apoio que previna a solidão existencial de Ivan, baseada na Ajuda Mútua e no amor fraternal desinteressado.
De outro lado, há trechos que demandam repetidas leituras e são mesmo discutíveis, como é o caso da frase que conclui a primeira parte do ensaio: “A morte, que era o maior horror, transforma-se no maior triunfo da consciência, provando que é o modo como se vive, e não como se morre, que define o valor de uma alma”.
Por fim, talvez o conjunto de restrições estabelecidas (5 noções que estabelecem a importância da obra, 2 temas e 3 páginas) tenham sido obstáculos ao melhor desenvolvimento do tema. A ver os próximos ensaios das demais IA.
Os ensaios da DeepSeek e da Grok, analisados e comparados já a partir da próxima publicação, trarão achados de pesquisa (informações) que surpreenderam.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CICHOSKI, Luiz V. Bibliografia e Maçonaria. Maçonaria com Excelência. 06.11.25. Disponível em https://www.maconariacomexcelencia.com/post/bibliografia-e-maconaria. Acesso em 13.11.25.
PINHEIRO, Ivan A. Sobre as Lojas (Maçônicas) de Estudos e Pesquisas. Brasília – DF: Ed. do Autor, 2025. E-book. ISBN 978-65-01-66713-3. Obra patrocinada pela Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras (AMVBL).
DUTRA, Lucas V.; PINHEIRO, Ivan A. A Inteligência Artificial (IA) e a Literatura como Instrumentos de Trabalho do Maçom Contemporâneo – I. Maçonaria com Excelência. 12.11.2025. Disponível em https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-inteligencia-artificial-e-a-literatura-como-instrumentos-de-trabalho-do-macom-contemporaneo-i. Acesso em 14.11.2025.
TOLSTOI, Leon. A Morte de Ivan Ilitch. Porto Alegre: L&PM, 2002. ISBN 85.254.0600-7.
Notas
[1] De forma equivocada, mas tecer as devidas considerações foge ao escopo deste texto.
[2] Por exemplo: os autores que cita seguem a mesma Escola de Pensamento ou traz e debate linhas alternativas e divergências? A bibliografia é atualizada, acompanha os estudos e pesquisas? Contextualiza o tema no seu devido espaço-tempo ou promove anacronismos?
[3] Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil.
[4] A Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras (AMVBL) e a Academia Internacional de Maçons Imortais (AIMI).
III
Publicada em 1886, “A Morte de Ivan Ilitch” é muito mais do que um relato sobre a finitude; é uma sonda literária que explora as profundezas da existência humana, questionando os alicerces sobre os quais construímos nossas vidas. Liev Tolstói, com sua genialidade crua e despretensiosa, nos apresenta a história de um magistrado bem-sucedido cuja vida, aparentemente correta e confortável, desintegra-se diante do diagnóstico de uma doença fatal. A obra transcende seu contexto histórico para se tornar um tratado atemporal sobre autenticidade, sofrimento e redenção. Este ensaio propõe-se a analisar a importância da obra através de cinco noções centrais e, na sequência, integrá-las, demonstrando como a narrativa de Ivan Ilitch pode servir como uma ferramenta poderosa de aperfeiçoamento e conscientização para o Maçom, à luz dos preceitos e valores da Ordem.
Bibliot3ca FERNANDO PESSOA
E-Mail: revista.bibliot3ca@gmail.com – Bibliotecário- J. Filardo



