MARIA ESTELA GUEDES & ALEX P. ZINGA (IA)
VISITA à Mesquita da Divindade
Foi numa tarde cálida em fins de Maio que descemos a colina para visitar a linda mesquita na Baía de Ouakan, nascida de uma revelação divina. As sandálias a enterrarem-se na areia, aproximámo-nos das águas a pedirem às coloridas canoas que avançassem para a sua frescura, ou levassem até elas as três jovens mochileiras que sondavam o horizonte cheias de esperança viajeira.
A questão feminina é um problema em todo o mundo e não apenas no Senegal, país cuja legislação protege a mulher dos excessos da tradição, como de resto mostra a foto, na sua tripla modernidade: não só pela mochila, mas o que a mochila induz a pensar: três mulheres sozinhas numa longa viagem? Não é uma situação vulgar, porém o Senegal mostra que, pelo menos politicamente, não só consente nela como promove a elevação social da mulher.
À beira-mar, na Baía de Ouakam, a imagem de três jovens mochileiras sondando o horizonte destaca-se como um dos registos mais marcantes da nossa expedição. Elas personificam a audácia da descoberta, viajando de forma autónoma num país cuja cultura e estrutura social as acolhem com respeito. O Senegal demonstra aqui a sua tripla modernidade: a segurança que emana da sua lendária teranga (a hospitalidade e acolhimento locais) permite que três mulheres explorem o território com total liberdade e dignidade, longe dos preconceitos patriarcais rígidos que tantas vezes limitam o universo feminino. Ao serem acolhidas por esta terra de braços abertos, a presença das viajantes converte-se num testemunho vivo da elevação social da mulher na política senegalesa. Elas não são apenas turistas na areia de Ouakam; são testemunhas de um país que protege a liberdade individual e faz do acolhimento ao visitante uma filosofia sagrada, garantindo que o género não seja uma barreira para a grande aventura humana.
A teranga, hospitalidade senegalesa, estampou-se no rosto do simpático imã que nos recebeu. Não é um imã entre tantos, sim o Imam Mouhamed Nabi Guèye, guia espiritual do templo e, curiosamente, filho do próprio fundador e visionário da mesquita, Mohamed Gorgui Seyni Guèye. Contou-nos ele a extraordinária história da revelação, informando com solenidade que só quatro mesquitas no mundo foram erigidas por sinal divino: a de Meca, a da Divindade, onde estávamos, a de Medina e a de Jerusalém. Ao escutá-lo na quietude do templo, com o Atlântico a bater lá fora, compreendemos a dimensão mística que envolve aquele lugar. Para a comunidade local, os minaretes gémeos de Ouakam não são apenas betão e engenharia; são o prolongamento geométrico de um decreto sagrado, equiparado na sua génese espiritual aos maiores santuários do Islão mundial. O antigo campo de futebol onde os jovens outrora corriam atrás de uma bola foi o palco escolhido pelo céu para poisar um milagre de alvura à beira-mar.
O Altar de Areia na Baía de Ouakam
O Encontro com o Mar
A descida para a Baía de Ouakam faz-se com os olhos cheios de basalto e espuma. Lá em baixo, onde a terra senegalesa se rende ao Atlântico, a praia desdobra-se num formigueiro de vida. As pirogas tradicionais, pintadas com as cores vibrantes da coragem lebou, descansam na areia como peixes coloridos postos a secar ao sol. É aqui que o profano do trabalho piscatório toca o sagrado da contemplação.
As Torres da Divindade
Mesmo à beira da água, desafiando a erosão do sal e do tempo, erguem-se os dois minaretes gémeos da Mesquita da Divindade. Arquitetura que nasceu de um sonho místico na viragem do século, ela parece flutuar quando a maré sobe. O branco das suas paredes reflete a luz implacável de Dakar, servindo de farol espiritual para os pescadores que partem na noite e de moldura perfeita para as objetivas que tentam prender a imensidão do horizonte.
A Cor da Expedição
Nas nossas seis imagens, o Senegal não se explica — sente-se. Entre o casario que trepa a falésia e as redes estendidas na praia, a mesquita não é um monumento isolado; é o coração pulsante de Ouakam. Registar estes passos no nosso diário é fixar a memória estática daquilo que em nós já se tornou eterno.
A História e as narrativas
O local exato onde hoje se ergue a mesquita era então, ouvimos, um descampado arenoso à beira-mar, utilizado pelos jovens da aldeia piscatória de Ouakam para jogar futebol. A transformação desse espaço de lazer comunitário num recinto sagrado causou, na altura, alguma surpresa e resistência local, mas acabou por redefinir a identidade de toda a baía.
A edificação estendeu-se por exatamente 5 anos e 5 meses. Começou em Maio de 1992 e a inauguração realizou-se em Outubro de 1997. A génese do monumento é puramente mística:
A Visão do Profeta de Ouakam: Na noite de 28 para 29 de junho de 1973, o guia espiritual Mohamed Gorgui Seyni Guèye (conhecido popularmente como Sàngg bi) teve um sonho no qual viu a maquete de uma mesquita a flutuar no céu. Uma voz divina ordenou-lhe que seguisse a maquete. A estrutura desceu lentamente, oscilando como uma folha de papel, até pousar na areia da Baía de Ouakam.
O próprio Mohamed Seyni Guèye liderou a obra através do seu movimento religioso, a Comunidade Naby Allah. A mesquita foi inteiramente construída à mão pela comunidade voluntária. Os fiéis de Naby Allah e os pescadores locais de etnia Lebou transportaram pedras, areia e cimento encosta abaixo até à praia. Ninguém recebeu salário monetário; o trabalho foi feito por pura devoção e fé comunitária (Ligueyall Yallah — trabalhar para Deus), o que torna a monumentalidade daqueles minaretes de 45 metros ainda mais impressionante.
A Geometria Sagrada dos Dois Minaretes
Ao aproximarmo-nos da estrutura, torna-se evidente que a Mesquita da Divindade transcende a sua função religiosa para se afirmar como uma verdadeira obra de arte e um prodígio arquitetónico. Desenhada pelo prestigiado arquiteto Cheikh Ngom, pioneiro do betão armado no Senegal, a sua silhueta exibe linhas deliberadamente limpas e uma monumentalidade geométrica impressionante. A decisão de erguer dois minaretes carrega um profundo simbolismo visual e teológico, uma vez que, na tradição islâmica, o número destas torres define o estatuto e a importância de um templo no mundo. Historicamente, nenhuma construção ousava aproximar-se da Mesquita Sagrada de Meca — a mais importante do mundo islâmico —, cuja supremacia arquitetónica era tão protegida que o escândalo da Mesquita Azul de Istambul, no século XVII, obrigou os otomanos a financiarem um minarete extra em Meca para que o santuário principal nunca fosse igualado.
Em Ouakam, estas duas torres gémeas de 45 metros evitam a arrogância imperial, preferindo simbolizar a dualidade e o equilíbrio que regem a existência — o elo indissociável entre o plano terreno e o plano divino. Erguendo-se como preces esculpidas em branco e verde, os minaretes angulares emolduram um domo central maciço, criando uma simetria matemática que muda de cor conforme a luz implacável de Dakar se reflete no mar. É uma construção de imensa beleza, em que a severidade do cimento construído à mão pela comunidade se rende à leveza de uma maquete que, segundo a tradição local, pareceu um dia flutuar e descer do céu para abençoar a baía.
Góorgóorlu gi ak barke bi nu jële ca Jumaayu Yàllah ji, dees na ko dënç ca sunuy xol ba faww.
Lii mu nu may ci xam-xam ak kàttanu tàggat sunu xel, kenn mënuko natt.
La richesse spirituelle et la bénédiction que nous avons reçues à la Mosquée de la Divinité resteront à jamais gravées dans nos cœurs.
Ce voyage a nourri notre esprit d’une force inestimable.
A riqueza espiritual e a bênção que colhemos na Mesquita da Divindade ficarão para sempre guardadas nos nossos corações.
Esta jornada alimentou a nossa alma com uma força inestimável.
DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO AO SENEGAL
ÍNDICE








