MARIA ESTELA GUEDES & ALEX P. ZINGA
Parceria do Observatório do Triplov


REPTILIA E A SUA RELAÇÃO COM O HOMEM


A Reserva de Bandia, com os seus impressionantes 3.600 hectares de savana arbustiva e baobás seculares, funciona como um santuário ecológico vital no Senegal. Embora as girafas e os rinocerontes captem grande parte das atenções, a sua herpetofauna assume um papel ecológico estruturante e fascinante para os naturalistas.

A Reserva protege uma herpetofauna única que, além do seu valor biológico, carrega uma profunda ligação com as populações humanas ao longo do continente africano, oscilando entre a vulnerabilidade ecológica e o simbolismo cultural.

Tartarugas terrestres.

 

Tartarugas-de-Esporas-Africanas
(Centrochelys sulcata)

As grandes tartarugas terrestres visíveis na fotografia pertencem à espécie Centrochelys sulcata (frequentemente designada por tartaruga-de-esporas-africana).

Estatuto: É a maior tartaruga terrestre do continente africano e a terceira maior do mundo.

Biologia: A sua carapaça robusta, de tons acastanhados e amarelados, serve de camuflagem na terra seca da savana. Têm esporas proeminentes nas patas traseiras.

Comportamento: São exímias escavadoras, abrindo túneis profundos no solo para escaparem às horas de calor extremo e evitarem a desidratação.

Estatuto de Conservação: Classificada como Em Perigo (EN) pela IUCN (Tortoise and Freshwater Turtle Specialist Group). As populações selvagens no ecossistema do Sahel sofreram um declínio drástico devido à desertificação, sobrepastoreio e à captura ilegal para o comércio internacional de animais de estimação. No Senegal, programas como o da SOPTOM lutam pela sua reintrodução na natureza.

Relação com os Habitantes: Tradicionalmente, as comunidades locais viam estas tartarugas como símbolos de longevidade, estabilidade e fertilidade. Em algumas culturas locais, eram mantidas perto das habitações como amuletos de proteção contra incêndios ou maus espíritos. Contudo, a perda de habitats devido à expansão agrícola fragmentou severamente esta convivência pacífica.

 

 

Agama agama

 

O Lagarto-Arco-Íris (Agama agama, ex-Agama colonorum)

Conhecido historicamente no portal pelo sinónimo taxonómico Agama colonorum, este réptil é uma das presenças mais dinâmicas e coloridas nos troncos e afloramentos rochosos de Bandia. Era bem conhecido dos colonos, que o estimavam, mantendo-o em casa (tal como às osgas), para os livrarem dos insetos, em especial do Anopheles, ainda hoje responsável pela transmissão do protozoário causador do paludismo ou malária.

Taxonomia: Atualmente classificado sobretudo como Agama agama.

Dimorfismo Sexual: Os machos dominantes apresentam uma impressionante cabeça cor-de-laranja ou vermelha brilhante e um corpo azul-escuro durante a época de reprodução. As fêmeas e os juvenis mantêm tons discretos de cinzento e castanho.

Hábitos: São lagartos estritamente diurnos e territoriais, alimentando-se ativamente de insetos.

Estatuto de Conservação: Estatuto de Pouco Preocupante (LC). É um réptil extremamente resistente, abundante e com populações estáveis, adaptando-se com facilidade a ambientes modificados pelo homem.

Relação com os Habitantes e Curiosidade Biológica: Este lagarto convive diariamente com as populações, sendo comum vê-lo a subir as paredes das casas. Os habitantes locais divertem-se com o seu comportamento de “fazer vénias” com a cabeça para marcar território.

Nota Herpetológica (O Fôlego dos Lagartos): O vídeo deste exemplar a “fugir a sete pés” ilustra um fenómeno fascinante. Ao contrário dos mamíferos, estes lagartos têm uma limitação anatómica conhecida como Restrição de Carrier: a locomoção com ondulação lateral comprime os pulmões, impedindo-os de inspirar e correr ao mesmo tempo. A fuga é um arranque puramente anaeróbico; eles correm em apneia e precisam de parar bruscamente após curtas distâncias para recuperar o fôlego, ficando temporariamente vulneráveis.

 

Crocodilo-do-nilo

Crocodilos-do-Nilo (Crocodylus niloticus)

Habitantes permanentes das zonas húmidas e dos charcos da reserva, os crocodilos-do-nilo representam os superpredadores aquáticos de Bandia.

Adaptação: Perfeitamente camuflados junto às margens lamacentas, a sua pele espessa e escamosa assemelha-se a troncos submersos.

Ecologia: Desempenham um papel crucial no controlo das populações de peixes e na limpeza biológica das águas do parque.

Observação: São facilmente avistados a banharem-se ao sol nas margens para regular a temperatura corporal (ectotermia).

Estatuto de Conservação: Globalmente listado como Pouco Preocupante (LC) devido à sua vasta distribuição, mas as populações em várias regiões específicas (como o Norte de África) encontram-se severamente ameaçadas ou extintas localmente devido à caça, destruição de habitats e conflitos com humanos.

Relação com os Habitantes (Do Egito ao Senegal): A relação da humanidade com esta espécie é milenar e ambivalente. No Egito Antigo, era venerado na figura do deus Sobek; hoje, infelizmente, o turismo predatório mercantiliza a espécie através da venda ilegal de juvenis secos ou empalhados como meros souvenirs — um reflexo da pressão humana sobre os répteis do Nilo. No Senegal e na Reserva de Bandia, embora protegidos, enfrentam a pressão histórica de serem vistos como ameaças ao gado, embora o seu papel ecológico na limpeza biológica das águas seja vital para o equilíbrio dos recursos hídricos partilhados.

 


O Agama agama desceu da árvore e desatou a fugir da fotógrafa a incrível velocidade. A dado passo, num local mais abrigado, parou para recobrar fôlego e voltou a fugir disparado.

 

 

 

DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO AO SENEGAL

Índice