1

A Sofia desapareceu. Ele tentou telefonar-lhe, ela não atendeu. Deve ter o telefone desligado. Hoje é terça-feira e há três dias que ele não sabe nada dela. Telefonou para casa de uns amigos de um primo dela, onde ela lhe tinha dito que estaria quando voltasse de férias, mas eles nem sequer a conhecem, ficaram surpreendidos com a chamada. Ele mesmo ficou embaraçado, que estupidez. Deve ter voltado de casa dos pais logo a seguir à Páscoa, mas onde é que ela está? Que maneira de se comportar é esta? Afinal vivemos juntos ou não?

Ele não entende o que se passa. Vão-se separar? Falaram vagamente nisso há dois meses, mas entretanto chegaram as férias. O diabo que a leve. E a mim também, que não tenho juízo e me presto a estas palhaçadas, diz ele. É verdade que ele tem pouca paciência para ouvir as longas e monótonas conversas com que ela o massacra à hora das refeições. Ela diz coisas estranhas, fala de perseguições, que há alguém que lhe quer mal. E acredita em bruxarias. Quer falar com ele, telefona-lhe, vem, mas são sempre as mesmas conversas, cada vez mais incompreensíveis.

Há dias disse-lhe que quer ir viver para Macau ou para a China, que uma amiga dela esteve lá e gostou muito. Ele ficou de boca aberta. O que é que ela vai fazer para a China? Ensinar português aos chineses ou abrir um restaurante? Quando ele lhe perguntou isso a brincar ela respondeu com ar pensativo mas risonho que abrir um restaurante era capaz de não ser má ideia mas que o que ela tem lido e ouvido dizer sobre os missionários portugueses na Ásia lhe torna mais interessante a ideia de ensinar português aos chineses. Está a falar a sério ou a gozar comigo, interrogou-se ele.

– Aliás, acrescentou ela, ainda há muito a fazer para converter os chineses à nossa religião.

Diz que está a ler a Peregrinação do Fernão Mendes Pinto e que está excitada com tantas aventuras e perigos. Eu olhei para ela e não soube que responder. Nem sabia que agora lhe deu para a religião, é mais uma novidade. Não, ela não está a funcionar bem da cabeça, provavelmente devia avisar os pais dela do que se passa.

2

Era sábado. Ele ia a pé à no centro da cidade e ela telefonou-lhe, ele não percebeu porquê. Telefona, mantém o contacto, mas continua a não querer dizer onde está e a falar da necessidade de se separarem durante algum tempo para reflectir. Para reflectir sobre o quê? O que é que ela entende por reflectir?

Se ele quisesse, em dois dias descobria o paradeiro dela. Mas é melhor não se meter nisso. Ela já anda assustada com a possibilidade de ele a estar a vigiar e pode ser por essa razão que quer encontrar-se com ele de vez em quando. Para o tranquilizar. Só que em vez de o tranquilizar cada vez ela lhe dá mais razões para se inquietar. Isto pode acabar mal, pensou ele hoje.

3

Veio e começou com umas conversas esquisitas. Olhava para ele com olhos que ele não lhe conhecia, vindos de outra realidade. Que realidade? Ele não sabia. Andará por aí com o outro, o amigo de um primo dela que é guitarrista e que ela conheceu há um mês? Ela contou-lhe que às vezes vai almoçar com ele na Baixa. E se ela se mete nalguma relação complicada? E se o guitarrista se aproveita da curiosidade e da ingenuidade dela? Saberá que ela às vezes não funciona bem da cabeça? Mas ela diz que não, que só viu o guitarrista recentemente duas vezes, por acaso. Também diz que está em casa dos tios, mas como saber? E que não quer voltara a casa ainda, que a pausa nas relações tem de ser uma pausa séria, não um simulacro de pausa que não resolverá nada.

O que é que há para resolver? Estavam no café, ele pegou-lhe na mão e ela não a retirou. Mas ele achou-a indecisa, a pensar não se podia saber em quê. Não era a Sofia que ele conheceu há um ano e meio, esta Sofia é outra pessoa, parece fora de si, não diz coisa com coisa, anda baralhada. E comprou roupa nova, uma saia e um casaco beijes muito elegantes.

Tomaram um café com leite, ele não percebeu por que razão ela quis vê-lo, a conversa não teve qualquer interesse. Depois levou-a ao Metro. Enquanto caminhavam, ele pôs-lhe a mão no ombro. Ela disse que era melhor ele não o fazer porque agora já não estavam juntos. Ele riu-se. Riu-se, mas por dentro invadia-o uma vaga amargura, a situação parecia-lhe estúpida. Custa-lhe acreditar que as relações que tinha com ela tenham terminado assim, abruptamente, sem razão, sem uma conversa, sem explicações. Lembrou-se de que uma vez, antes de se separarem, ela lhe tinha dito que deviam conversar. E o que é que ele respondeu? Respondeu, impaciente, que não tinha nada a dizer, que não havia nada a falar.

Porque veio almoçar com ele? Para lhe mentir? Para me esconder alguma coisa que não quer que ele saiba? A dado momento ela disse que os pais se vão divorciar e que tem de passar mais tempo com eles, a ver se as coisas se arranjam, talvez ela consiga convencê-los. E que um colega, um professor de História, se suicidou. Diz que está cheia de preocupações e que lhe falta o tempo para se ocupar de si mesma. Diz estas coisas para o impressionar, para se desculpar ou para o preparar para alguma má notícia que há-de vir depois? Ele não tem a mínima ideia. Só lhe parece que ela está doente.

Ela pôs-se a falar das aulas que dá no colégio, diz que dá aulas de mais, que não devia ser permitido com o salário que pagam aos professores, é um abuso. Mas que os sindicatos não fazem nada para modificar a situação. Diz que tem muito que fazer e que os alunos são irrequietos e irresponsáveis, uns mal-educados. Que não se interessam por nada e às vezes ainda vêm os pais queixar-se porque ela os obrigou a ficar no colégio de castigo depois das aulas por se terem portado mal. A arte, diz ela, não lhes suscita qualquer curiosidade, ela pede-lhes que desenhem umas maçãs e eles despacham tudo num instante, fazem uns rabiscos inconsistentes sem paciência, sem talento, sem interesse.

 Ele ia ouvindo o que ela dizia, depois acabou por deixá-la na paragem do autocarro e foi para casa a pé, cansado, confuso e irritado. Não entende nada. E diz: diabos me levem, por que razão é que estas histórias têm de me acontecer a mim?

4

Hoje é quinta-feira. Ele tentou telefonar-lhe, ela não atendeu. A preocupação continua. Se pelo menos ele soubesse o que se passa e onde é que ela está. Mas não sabe nada, restam-lhe as suspeitas e as suspeitas não o tranquilizam. Tem evitado lembrar-se de que ela esteve internada num hospital psiquiátrico duas vezes, a última vez há dois anos, ela andava convencida de que a seguiam na rua e de que a queriam raptar. Os pais tiveram de vir a Lisboa e de interná-la. Quando saiu do hospital retomou o que parecia ser uma vida normal, mas seria? E sobre o que tinha acontecido nunca quis falar.

5

O fim-de-semana passou e ela não deu sinal de vida. Mas hoje, quarta-feira, recomeçou a telefonar-lhe. Ele ia na rua, tinha acabado de almoçar num restaurante perto da Biblioteca Nacional. Ela não queria nada, só queria saber se ele estava bem. Ele disse-lhe que sim e depois, para a irritar, pediu-lhe que deixasse de telefonar.

– Já que não me dizes o que se passa, visto que me estás a tratar como se entre nós nada existisse nem nunca tivesse existido, tendo em conta que nem sequer me dizes onde é que estás a morar, deixa-me em paz, não me inquietes, não me aborreças. disse ele, a fazer de conta que estava zangado com ela.

Foi mais longe, disse-lhe:

– Vive a tua vida e deixa-me viver a minha, talvez assim eu me habitue à ideia da nossa separação e comece a pôr em ordem a minha vida.

Mas a intenção dele é sobretudo provocá-la, para ver se ela acaba por se explicar. Porque se a cabeça dela está a funcionar mal sem ela tomar consciência disso é preferível que alguém o saiba e a proteja da catástrofe eminente.           

6

Hoje, quinta-feira, sem o avisar, ela foi lá a casa para o ver e falar com ele. Como ela ainda tem a chave do apartamento e ele tinha ido almoçar a casa, deu com ela no quarto das visitas deitada na cama. No fundo, pensou ele, é como se estivesse de férias em qualquer lado e a casa dele continuasse a ser a sua.

Almoçaram juntos e depois foram para a sala. Estavam sentados no sofá da sala a conversar quando ele, num momento de fraqueza, tentou beijá-la, mas ela afastou-o. Quase lhe saiu da boca a palavra: estupor! Mas conteve-se, não disse nada. Ela veio-lhe com uma conversa de doida: que agora finalmente é livre, pode fazer o que lhe apetece, não tem de dar explicações à mãe nem a ninguém sobre a sua vida, a escravidão acabou.

A cabeça dela, não há dúvida, não está a funcionar bem. O que é que ele tem a ver com o que ela diz? Ele nunca a privou de liberdade, antes pelo contrário, até foi ele que a livrou das obsessões maníacas da mãe, que a trata como se ela tivesse treze anos. E ele nem sequer é ciumento, ela já devia ter percebido isso. Mas ela vê-o como uma figura opressiva, já por várias vezes se queixou de que quando viviam juntos ele não dava a devida importância às opiniões dela. Além disso acusou-o de não ter respeito pela sua vocação artística, a ele, que até tinha feito grandes elogios a umas aquarelas que ela tinha pintado e tinha mesmo mandado encaixilhar uma delas. Tamanha paranoia tem algum sentido?

Que tarde! Vestida de preto, ela parecia uma coruja a esbracejar. Ele estava atónito. Se ela bebesse, ele diria que ela estava bêbeda. Ou ela mete-se nos copos e ele não sabe? Não, tal suspeita não tem sentido, ela detesta o álcool e o tabaco. Diz coisas insensatas, tem maneiras estapafúrdias de falar com ele e de se comportar com ele, ele não pode deixar de ver os olhos esgazeados com que ela olha para ele. Mas é apenas porque está parva de todo. Aliás ele deu-se conta de que ela cheirava a um perfume qualquer, não a álcool.

Acabei por não voltar ao emprego nessa tarde e ela acabou por ir-se embora era já de noite, contou ele m´ais tarde a um amigo. Fui levá-la à boca do Metro, mas não abri a boca enquanto conduzia. Estava farto e já não tinha argumentos com que fazê-la voltar à realidade. Que eu tenha aturado os caprichos desta sirigaita tresloucada durante anos sem me queixar muito, é isso que me surpreende e que eu abomino.

Antes de saírem de casa ela ainda tinha tido tempo para proclamar solenemente que uma vida igual à dos pais e à de toda a gente não lhe interessa, que na sua opinião todos os casamentos são uniões de conveniência. Ela quer viver, quer que a vida para ela seja uma aventura permanente. E depois pôs-se a falar da China e do Japão, que há-de ir para a China converter os chineses ou para o Japão estudar japonês. Cada vez mais espantado, ele, que já não sabia que dizer nem de que falar, foi ficando mais calado. Sentia-se cansado, incapaz de a acompanhar no seu frenesim e ficou sem forças para lhe prestar atenção. Pensou de novo que é preciso tomar uma decisão drástica. Mas que decisão´? Não viu alternativas, neste momento ele é apenas o muro a que ela, meio perdida de si mesma, se encosta porque tem medo de perder de vez o equilíbrio. 

Quando ele a tinha conhecido, há uns três anos, ela parecia sensata, era modesta, era carinhosa, era sua amiga. Neste momento é uma megera endiabrada, anda desvairada. Se ela não o tivesse tratado com tanta ternura quando ele a conheceu ele nem sequer se teria interessado seriamente por ela. Nesse tempo ele não procurava ninguém, estava bem sozinho, ela seduziu-o porque parecia uma rapariga ajuizada, bem-educada e que merecia consideração. Foi por isso que o que podia ter sido apenas uma breve aventura ou não ter passado de uma amizade com algum carinho à mistura se transformou numa relação amorosa mais duradoira, como se diz. O que é que ele trouxe à vida dela, o que é que ela trouxe à vida dele, porém?

Tirou o saco do carro, deixou-a na boca do Metro e voltou para casa. Estava triste, mas respirou de alívio quando se viu finalmente só no carro. Pensou que aquilo a que nós chamamos o amor afinal só nos traz chatices e que depois de todos os mal-entendidos acabamos sempre por ficar sós de novo, torturados pelo remorso de ter cedido à tentação de uma existência cheia de plenitudes espirituais, resgatada pelo amor. Mas o que estava em causa agora, o que o inquietava era ele não perceber o que é que ela andava a magicar, o que é que a trazia tão inquieta e irrequieta, tão fora de si. Pensou: a relação que eu tinha com ela passou a segundo plano, deixou de ser a razão principal das minhas preocupações. Acerca da relação com ela de facto ele já não tinha ilusões. Ela deixara de existir como interlocutora credível. Para eles juntos de novo já não havia futuro. O receio de a ver acabar louca, fechada no quarto de um hospital psiquiátrico, era o que neste momento o deixava desorientado, o angustiava e impedia de dormir. E as parvoíces poéticas e políticas que ela tinha começado a pôr no Facebook dela, em defesa de todas as novas minorias verdadeiras ou fictícias, pareciam também confirmar a confusão em que ela caíra.

7

As coisas acabaram por se precipitar. Uma manhã ela acordou-o com um telefonema e comunicou-lhe que ia para a China com o colega que era professor de História (que afinal não se tinha suicidado, ela tinha percebido mal). Disse que os pais dela se iam divorciar e que estava desgostosa com a situação, que tinha feito o que podia para os demover, mas sem sucesso. E concluiu: deixei de ter família, não estou aqui a fazer nada, nunca me senti tão só. Felizmente o colega de História estivera em Pequim numa conferência sem dizer nada a ninguém. Tinha regressado mas estabelecera alguns contatos. E agora iam os dois trabalhar para uma empresa que tinha lojas em Portugal. Mas mais tarde, estava previsto, iam ensinar os miúdos e as meninas da China a falar português, era um investimento idealista no desenvolvimento das relações de Portugal com países longínquos que afinal faziam parte da nossa história e da nossa tradição cultural. Percebia-se que ela estava anormalmente faladora e eufórica. Quando ela, febril, começou a querer explicar-se em pormenor, ele, meio ensonado ainda, já tinha deixado de se interessar pelo que ela dizia. Mas deixou-a falar. Quando ela enfim se calou desejou-lhe felicidades, desligou o telefone, pô-lo na mesa de cabeceira em cima de Os Irmãos Karamazov, que estivera a ler na véspera antes de adormecer. E regressou ao sono pacífico que ela tinha interrompido com o telefonema.

 

JOÃO CAMILO