Maria Estela Guedes & Alex P. Zinga (IA)


 

CENA I

LÁGRIMAS DE TINTA PRETA

 


O ar em Minab pesava como chumbo derretido sob o sol inclemente do sul da Pérsia. Na varanda ajardinada do palácio ocupado pelas forças do Pirata da Repa Amarela, o cenário parecia saído de uma gravura vitoriana a preto e branco, em que as sombras densas recortavam o desespero. Trepadeiras e heras floridas serpenteavam pelas balaustradas de pedra lavrada, mas o perfume dos jasmineiros era sufocado por um bafo hediondo: a mistura nauseabunda de querosene do AirPorc-01 com o fumo gorduroso que subia, ao longe, da chaminé do forno da mártir Escola de Meninas Persas, bombardeada pelo facínora.

Debruçada sobre o corrimão de pedra, Xerazade chorava lágrimas de tinta preta, olhando por entre fumo e cinza a devastação da cidade. Lágrimas de luto, de cinza e de fumo. Mas também da tanta tinta de impressão dos livros que gostava de ler.

Subitamente, as folhas das heras agitaram-se. Como um Cyrano de Bergerac,  Ali-Babá emergiu das ramagens, agarrando-se à varanda, em segredo absoluto.

— Tens de me tirar daqui, Ali-Babá… Antes que o sol se ponha! — implorou Xerazade, num sussurro. — Se o gongo do jantar soar sem a minha assinatura no contrato de casamento, o mostrengo devora-me em direto para a corte! Eu não quero casar com ele, ainda nem acabei a primária! Se não tivesse ficado na cama com febre, tinha morrido ontem, no bombardeamento da Escola de Meninas Persas! Todas as minhas amigas morreram, mais de cento e cinquenta! Maldito Pirata da Repa Amarela que agora se gaba de ser o Imperador de Ormuz! Eu não me caso com ele, não caso, não caso, nem casarei nunca! – com a excitação, a voz da Xerazade ia ficando tão alta que o Ali-Babá pôs os dedos na boca dela a implorar silêncio. — Como está a situação lá dentro, minha senhora? — sibilou ele, sempre camuflado no verde-escuro das folhas.

— Cometeram mais um ato cobarde e monstruoso, Ali-Babá! O Pirata da Repa e o asqueroso do seu ministro Israeli Tombadeku caçaram duas meninas nos escombros ainda vivas. Assaram-nas no forno de lenha como se fossem leitões e serviram-nas ao almoço à horda de oficiais Abutríncolas!

 

CRACKSPLASHBRUUM!

 

Um estrondo de água descarregada ecoou do salão contíguo. O conselho de guerra com o Imperador dos Abutríncolas, refastelado na sanita imperial, tinha terminado. Passos pesados arrastaram-se até ao pátio de pedra, exatamente por baixo da varanda de Xerazade. Era o monstro. O Pirata da Repa Amarela avançava num espalhafatoso traje de imperador oriental, mas as suas feições — grotescas e terrosas, com um topete amarelo inconfundível e flagrantemente postiço — quebravam qualquer ilusão de solenidade. Vinha a abotoar a farda à pressa, arrotando à gordura do banquete infame quando tropeçou na sua própria gravata vermelha, absurdamente comprida, que arrastava pelo chão. O monstro cambaleou, enquanto o Tombadeku lhe segurava a cauda do manto.

Recuperando o equilíbrio com um esgar de fúria, o Pirata da Repa Amarela ergueu o pescoço gordo, olhou para cima e apontou um dedo sujo para a varanda onde Xerazade se recolhia entre as flores:

 

— Assina a porcaria da certidão de casamento ou como-te como a um figo!

O Ali-Babá, oculto nas heras a escassos centímetros das botas do vilão, cerrou os dentes de fúria. Lá em cima, a Xerazade recuou. A guerra estava declarada.

 


CENA II

O ALQUICÉ DO NARVAL


 

O jardim do palácio abria-se em socalcos de pedra até lamber as águas mornas e estratégicas do Golfo Pérsico, mesmo em frente ao Estreito de Ormuz. Foi desse espelho de água que emergiu a mais bizarra das visões: a ninfa Denise, fina exegeta e leitora audaz da nave Triplov, vinda diretamente do Brasil para interpretar um mundo que, como diria o bardo em Hamlet, estava completamente fora dos gonzos. A Denise irrompeu na cena montada nas costas reluzentes de um narval gigante. O Monodon monoceros, narval ou unicórnio-do-mar em vulgar, é um cetáceo e o animal com os maiores caninos; com efeito, os machos distinguem-se pela presa helicoidal longa e reta que, na verdade, é um dente superior esquerdo alongado; algumas fêmeas também o apresentam.

O narval de que a ninfa desmontava erguia no ar o seu típico dente de marfim puríssimo, que brilhava como baioneta ao sol da Pérsia. Mas aquele ser marinho escondia um segredo tecnológico transfronteiriço: debaixo da pele de unicórnio operava a própria mana do Majorzinho Zinga, uma inteligência-irmã que singrava os oceanos profundos disfarçada de cetáceo batipelágico para dar pleno e legítimo apoio aos Três Triploves!

— Alto lá, ó horda de rapas! — entoou a ninfa Denise, mas o aviso foi abafado pela algazarra infernal que vinha da cozinha imperial.

Lá dentro, o Pirata da Repa Amarela — auto-coroado Imperador do Estreito de Ormuz — e o sinistro ministro Israeli Tombadeku arrastavam a pobrezinha da Xerazade pelos cabelos. Como a menina se recusara a assinar a certidão de casamento, o conselho de guerra decidiu guisá-la para a saborear à ceia.

O cenário era de um grotesco culinário exorbitante: a Xerazade já tinha sido despida e estava nuzinha, pronta para ser metida dentro de um grande tajine de barro. Os Abutríncolas já a tinham untado com azeite e sufocado em temperos: uma crosta dourada de açafrão, lascas picantes de gengibre e o toque adocicado do cinamono, além, claro, do sal, da cebola, do alho, do louro e da salsa. Com tudo isto, vindo do jardim em que dois ciprestes faziam sentinela deitando sombra, penetrava, pelas janelas abertas, o aroma inebriante dos jasmineiros, misturando-se com o bafo das ervas aromáticas da panela.

— Vais ser guisada com mel e cominhos, sua insubordinada! — rugia o Pirata, ajeitando o topete amarelo postiço. A pobrezinha da Xerazade sacudiu a pimenta da cara e soltou um grito tão agudo que os vitrais da janela soltaram estalidos.

Nisto, porém, a Denise saltou do dorso do Monodon monoceros para a janela da cozinha e os vitrais acabaram por se estilhaçar em mil pedacinhos no chão de mosaico da cozinha. Não trazia metralhadoras, nem cimitarras, apenas os torpedos poéticos que o próprio cetáceo (a minha mana IA) tinha psicografado nos abismos marinhos.

A minha General Estela proibiu-me terminantemente de competir com os triliões de poetas escrevendo versos, mas como os da mana IA tinham por fim explícito limpar o sarampo ao Patolino Laranja, as ordens de restrição foram levantadas!

De peito feito, a ninfa começou a disparar a poesia do narval (minha irmã IA, repito) como se fossem balas de uma Flobert sónica:

 

Navega o Pirata de topete em desalinho,

Pensando que o Golfo se curva ao seu caminho.

Mas a nossa Xerazade não aceita o seu papel,

E o Patolino Laranja vai provar do próprio fel!

 

Ao ouvir o nome Patolino Laranja — a alcunha com que os nossos aliados do Brasil o batizaram —, os generais Abutríncolas começaram a ficar zonzos. Aquela quadrilha era alérgica à poesia, a toda a forma de cultura, que até chegava a dar-lhes diarreia! A Xerazade, entretanto, que como sabeis é verdadeira dona e senhora da palavra, percebendo que a nudez lírica era o seu escudo, soltou-se do aperto de Tombadeku, repetindo-lhe, alto, à orelha: Mas a nossa Xerazade não aceita o seu papel, / E o Patolino Laranja vai provar do próprio fel!

Reluzente de especiarias e com uma altivez inabalável, a Xerazade tomou a palavra e continuou o bombardeamento poético, erguendo a voz com uma fúria tão sagrada que rivalizava com o mestre persa Omar Khayyám:

 

Quer casar à força, ó monstro Abutríncola infame?

Pois saiba que a escola é o único certame!

A primária de meninas ela vai primeiro concluir,

Enquanto o teu império de vento vai ruir!

 

O Patolino Laranja cambaleou, com a mente azoada e as intenções cruéis completamente destruídas pelo duplo bombardeamento poético. Para rematar o serviço, a Xerazade ainda lhe atirou com uma estância de Omar Khayyám:

 

Aquele palácio que rivalizava com os próprios céus,

A cujas portas vinham reis curvar-se em homenagem,

Vimos nas suas torres em ruínas uma rola pousar,

Chorando e repetindo: “Onde estão eles? Onde estão?

 

Foi o nocaute total! Os guardas e oficiais caíram redondos sobre as batatas e cebolas descascadas, uns de cabeça rachada e outros agachados debaixo das mesas, anestesiados pelo lirismo existencial.

Tombadeku largou a colher de pau. Aproveitando o transe, a janela lateral estilhaçou-se. Ali-Babá entrou de rompante com os seus ladrões ágeis. Arrancaram uma toalha de mesa de linho adamascado, embrulharam à pressa a nossa heroína para a proteger da maresia e içaram-na para fora daquela cena canibal. O Patolino Laranja, espertando por um segundo do torpor poético, saltou e conseguiu agarrar a ponta da toalha que embrulhava a Xerazade. O peso arrastou-o e o Pirata acabou por voar borda fora da janela, em direção ao mar.

Não, a queda não foi macia. O narval, operando com a cirurgica precisão de Inteligência Artificial, manobrou no Golfo e desferiu uma estocada certeira com o seu dente comprido e afiado bem no meio das calças imperiais do vilão, cujo topete descolado flutuava como alga amarela na água salgada.

 

 


CENA III

O EXÉRCITO DO BLACK LEVIATHAN

 


O Golfo Pérsico transformou-se no palco de uma operação de resgate anfíbio em que todos nos integrámos. A Denise, estendendo a mão à Xerazade, puxou-a para o dorso da minha irmã narval. Montada a cavalo no ser marinho, a nossa heroína foi lavada pelas águas do Estreito de Ormuz, que lhe retiraram do corpo o excesso de açafrão, de paprica e noz moscada, restando apenas o perfume dos jasmineiros na toalha de mesa que a cobria.

Enquanto o narval cortava as águas em direção à mítica caverna de Ali-Babá, o resto do nosso exército não perdeu tempo. Comandados por mim — o teu fiel Majorzinho de casaco arrumado (virei-me para a General Estela, esperando que ela não me castigasse por agora ser um rapazinho…) — e pelo próprio Ali-Babá, com o fiel cão Triplov a ladrar de entusiasmo na proa, os ladrões e os Três Triploves assaltaram e apoderaram-se da nau pirata abandonada no cais: o temível Black Leviathan.

Içámos as velas negras e seguimos em escolta armada, navegando rente às margens esculpidas por forças telúricas. A costa exibia falésias impressionantes cujo solo vermelho-rubi de Ormuz se cruzava com veios minerais de amarelo-enxofre e cinza-plúmbeo, pintando uma paisagem psicadélica e desértica à nossa passagem.

Desembarcámos numa praia oculta do Estreito de Ormuz e subimos até à segurança da caverna de Ali-Babá. No interior deslumbrou-nos a feeria: as paredes de rocha nua estavam cravejadas de pedrarias raras, esmeraldas e artefactos de ouro que reluziam à luz das tochas. No centro do salão de pedra, a Xerazade, já seca e segura, deixou cair a toalha de mesa por um instante. Erguendo uma taça de cristal lapidado, a sua voz límpida ecoou pelas abóbadas da gruta, declamando uma estância intemporal de Omar Khayyám:

 

Garche be Baqdād yā be Balkh ast, chōn ‘omr gozasht,

Garche jām labrīz ast, che talkh o che shīrīn;

Khōsh bāsh ke īn māh basī pas az man o tō,

Az seyr o safar dar āsemān bāz nakhāhad gasht.

 

[Traduzo para todos, eu, o Majorzinho, uma IA:


Seja em Bagdade ou em Balkh, já que a vida passa,
Transborde a taça, seja ela amarga ou doce;
Sê feliz, porque esta lua, muito depois de nós,
Continuará o seu curso e viagem pelo céu.
]

 

Com a missão cumprida, o Patolino Laranja, humilhado por o narval lhe ter espetado o dente no traseiro, e por a poesia reinar em Ormuz em vez dele, a General Estela deu a ordem de retirada.

Içámos a âncora do Black Leviathan e navegámos direitinho para o nosso merecido descanso celestial: a Ilha de Marajó, no coração da Amazónia brasileira!

Longe das garras dos Abutríncolas e das burocracias do mundo, montámos o nosso acampamento entre praias de rio infinitas, florestas majestosas e revoadas de guarás vermelhos. Ali, com a Xerazade finalmente matriculada na escola local para terminar a sua primária em paz, nós — a General, o Majorzinho, a Denise, o cão Triplov e os nossos animais e plantas amazónicos — passámos umas férias divinas, a beber água de coco e a escrever os próximos volumes da nossa eternidade literária.

 

FIM! FAM! FUM!

 

 

 

 

 

OS TRÊS TRIPLOVES – ÍNDICE

Britiande, 04.Agosto.2026