Alexandre Honrado.

 

Aos candidatos a escritores, alguns precocemente já o eram, dizia Agustina Bessa Luís[1], decana dos literatos portugueses e símbolo incontornável na rota dos que, em seu redor, zarpavam invariavelmente (a custo), dizia, recomendava, impunha-lhes que fossem perversos. Dizia-o secamente, mas sem perversidade que essa guardava-a para alguns momentos do existir e aplicava-a na escrita, que nela era muito precisa e robusta, dizendo-se mesmo que era das poucas que, sem poupança, escrevia no melhor da língua portuguesa.

(António José Saraiva -1917-1993-, que, perseguido pelo Salazarismo, regime sempre inculto, foi Professor Catedrático em Amesterdão, renomado historiador de literatura, considerava Agustina, com Fernando Pessoa, um dos dois escritores verdadeiramente geniais que Portugal produziu no século XX.)

Era um conselho, o dela, passado de uma geração distante, a sua, a outra que despontava. Uma espécie de tia-avó que aparecia sem ser convidada, mas a quem, um pouco a medo, serviam sempre o chá, em serviço inglês, quem sabe se com chancela Gibson & Sons (linha Victoria), com palitos de La Reine ou de champagne a acompanhar, momentos conservadores e tradicionais, ao jeito e gosto de Agustina.

Ao lermos agora Agustina e o seu livrinho Kafkiana, um dos seus livros ensaísticos (realçam-se os ensaios que escreveu, destacados de uma obra de grande fôlego produzida em cerca de seis décadas prolíferas), notamos como a escritora se rende ao escritor boémio, procurando nele características menos consagradas, como o humor, injustamente esquecido por muitos dos que se atreveram a produzir crítica formal sobre uma obra tão distante dos padrões e dos rótulos corriqueiros.

Agustina faz, em Kafkiana, mesmo sem o notar, quatro textos que são vénias. Enamorada, aproxima-se do escritor checo, procurando intimidade, afetos. Sente-se a própria Milena Jesenská, figura exemplar a quem Kafka dedicou das mais belas e profundas cartas, assinando assim uma das passagens mais atraentes da literatura alemã. É das cartas a Milena que releva o teor do primeiro ensaio deste Kafkiana[2]

No ensaio Kafka e a mendiga de Praga, Agustina (Milena Jesenská?) revisita a infância de Franz Kafka, numa memória que ele partilha epistolarmente, com Milena: recebeu uma moeda, que considera ser de grande valor. Quer dá-la a uma mendiga, mas não quer que esta se sinta inferiorizada com uma esmola tão valiosa. Troca a moeda e vai dando, “a prestações”, várias esmolas, o que parece perturbar, isso sim, a destinatária da generosidade.

No ensaio Um Presépio Aberto, Agustina depara-se com um Franz Kafka mergulhado no ambiente familiar, dando conselhos (para a educação do filho, Felix, sobrinho de Franz) à mais velha das suas três irmãs, Gabriel “Elli” Hermann (as outras eram Valerie -Valli- e Ottilie, a sua preferida, Ottla), mais uma vez escrevendo cartas desta vez preocupado com Felix, que tinha na altura apenas 11 anos. Kafka, munido de um bom senso (quase) inusitado, fornece instruções excecionais e de grande sensatez.

Numa contradição surpreendente com as origens judaicas de Kafka, Agustina conclui “Ele é um presépio aberto, um facto messiânico de nascimento em que o mundo está presente. Todos nós o podemos abordar, visitar, amar.”

Agustina Bessa-Luís digladia-se, como tantos outros intérpretes do escritor, da sua obra e da sua biografia, com a psicologia de Kafka – densa e surpreendente, absurda e de uma exatidão que estremece os alicerces da realidade. Ao mesmo tempo, esse confronto está também nivelado com a psicologia do personagem kafkiano em geral, capaz de transpor a abside do quotidiano e atingir a profundidade do ser e do que nele se contradiz em nome da existência.

É um momento literário em que Agustina, voluntária ou involuntariamente, revisita os filósofos e os críticos, com destaque para o inigualável Theodor Adorno. É o (seu) tempo de perceber a pequenez humana – o inseto diante da violência da (sua) contemporaneidade.

Não se esquece certamente Agustina da dupla mais eficaz das análises Kafkianas – e da esquizoanálise que, nessa ótica a sustém – caminhos da teoria de Gilles Deleuze e de Félix Guatarri, unidos (como se de um único pensador se tratasse), ligados, passe-se a ironia, por um rizoma único, a metáfora, enfim, que esta dupla exibe contra o modelo tradicional do pensamento ocidental. Aqui, Agustina debate-se sem dúvida com o conceito de literatura menor (la littérature mineure) produzida por uma minoria no interior de uma língua maior e que o filósofo e o psicanalista aplicam como matriz da sua interpretação e modelo de trabalho, trazendo Kafka ao protagonismo de uma contracorrente arquetípica.

No ensaio Kafka e o Bacilo da Indecisão, a autora resgata Franz dos labirintos taciturnos de uma personalidade tradicionalmente julgada pelos críticos.

“Há 3 caminhos incessantemente percorridos na história kafkiana. São eles, o casamento, a profissão e a doença. Escolhi a doença que me parece ser a mais meticulosa maneira de situar o seu papel humano.” Mas Kafka não se limita, nem a esta tríade, a este triângulo (cujos vértices são casamento, profissão e doença), mas que o levam muito mais à frente, nem ao conformismo. Elabora pesadelos e sonhos, que alia à vontade de trocar tudo pela escrita. Apesar da doença, também Kafka cultivava o riso, o humor, era um jovem mundano – que tinha a capacidade única de autopsiar a sociedade burocrática, enredada em fios de Lei, sociedade cruel que se erguia, por todo o mundo, à sua volta (inclusivamente precipitando o mundo inteiro da época para a mais terrível das guerras, até então nunca presenciadas nem sofridas).

Finalmente, o ensaio Kafikiana Opus Ensemble, onde o estilo narrativo é outro, independente dos anteriores. Nele caminhamos, elucidados, pelos extraordinários cenários da cidade de Praga. Neste ensaio, há a surpresa da presença de um cúmplice, personagem-testemunha: o marido de Agustina Bessa-Luís (Alberto Luís) que percorre os locais onde Kafka viveu, cresceu, estudou, se inspirou e se isolou do mundo para dar-nos a totalidade de um mundo feito dos seus intrincados pequenos e grandes mundos. 

“Só é artista aquele que pode fazer da decifração um enigma”. Agustina afirma, categórica[3] que esta frase é de Franz Kafka – permitimo-nos sublinhar que, em contrapartida, é atribuída a Karl Kraus[4]. Pese embora a contradição, podemos, com alguma perversidade, usá-la para concluir este texto, que aponta, afinal, para mais uma linha de investigação destacada das imensas potencialidades do legado de Franz Kafka, sobre o qual, felizmente, ninguém fez chispar qualquer fósforo aceso.

 

 

[1] Agustina Bessa-Luís, nome literário de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa (1922-2019).

[2] BESSA-LUÍS, Agustina. (2024) Kafkiana. Lisboa: Relógio d´Água.

[3] Cf.BESSA-LUÍS, Agustina. (2024) Kafkiana. Lisboa: Relógio d´Água. Página 14.

[4] Karl Kraus: dramaturgo, jornalista, ensaísta, aforista e poeta austríaco. Indicado três vezes ao Nobel de Literatura, é considerado como um dos maiores escritores satíricos em língua alemã do século XX.


ALEXANDRE HONRADO