Amanda Eznab

 

 

 

 

 

 

PAULO JORGE BRITO E ABREU


AMANDA EZNAB: O PALÁDIO, A PALAVRA E «A PLACENTA DO MUNDO»


«Sou mais Eu quando
Tu és a síntese de Nós.» João Belo

 

( dedico o meu labor à Paz planetária )

A língua é que liga, e é colega, deveras, a língua que lega. Continuando na senda etérica ou ibérica, surde a voz e a vez de Amanda Eznab – e no estado e no estudo, ela se debuta com «La Placenta del Mundo» ( 2019 ). E se Carlos d’Abreu (Maçores, 15/ 09/ 1961) é o intérprete e porta-voz, façamos, então, nosso esquisso e nosso escorço. E o nosso primo comento é pois o seguinte: não veio ao mundo, Amanda Eznab, pra verberar nem pra mandar, ela veio pra cantar ao som de uma guitarra. Duma frauta, d’oboé. E Luz se fazendo n’ «O Nascimento do Mundo», «O mundo é uma locomotiva a ponto de rebentar. / Nós somos as centelhas que saltam e alumiam.» «Philosophus per ignem», ou seja, «filósofa por o Fogo», a sua Poesia é veramente prometeica. De Amanda falando, ela rouba o Fogo aos deuses para o dadivar, na benesse, à estultícia do mundo. Ou melhor, no mundo ela se espanta, ela acalanta, «Como um girassol atado / à ferocidade do fogo». Quero eu dizer: ela não é, propriamente, do mundo, mas é, esse mundo, o seu campo de acção: e com isso a Catarse, e com isso nós falamos do mundificar. Se ela afronta, e se ela enfrenta, a ditadura do dólar, ela vive, cinco anos, na Amazónia brasileira, e nisso ela concorda, do cor, com um estado-unidense, com o Poeta e Filósofo Henry David Thoreau ( Concord, 12/ 07/ 1817 – Concord, 06/ 05/ 1862 ). Se é da verve o «Homo Ludens», isto é, se o brincar é necessário para a vida humana, assertemos nós decerto: se a Amazónia é o jogo, a cidade é o jugo. E por isso, na Musa, as belas-letras, e vem aqui à baila Jean-Jacques Rousseau ( Genebra, Suíça, 28/ 06/ 1712 – Ermenonville, França, 02/ 07/ 1778 ). Pois esta é a linha de Amanda Eznab, e esta é a laia de Walt Whitman (West Hills, New York, 31/ 05/ 1819 – Camden, New Jersey, 26/ 03/ 1892), Mahatma Gandhi (Porbandar, Índia, 02/ 10/ 1869 – Nova Delhi, Índia, 30/ 01/ 1948), e no leme, de Herman Melville ( New York, 01/ 08/ 1819 – New York, 28/ 09/ 1891 ). E Amanda decide porque é dissidente: se o politiqueiro é, a miúdo, o pelotiqueiro, dêem-nos o sonho, dêem-nos, apenas, alguma verdade. Ou como o Cínico diria: «Não nos tirem o Sol». «Como um animal encerrado num matadouro», eis o escol e a escola da preste Poetisa: «Fazeis da liberdade / uma trincheira. / Certo: / eu sou as balas que caem / retumbando / no coração do mundo.» Esse mundo que segrega, esse mundo que decreta: Poeta para o sagrado, Poeta para o segredo, Poeta voluntária, Poeta libertária. Que anela, tão-só, o revogar, o anular, a imundícia do mundo, o seu estar-no-mundo é deveras o «Dasein». É insistência, existência, é qual o Ser-aí. É um Ser para a Selene, para o Outro, em serenata-situação, é Poesia qual projecto, aventura e revolução. Sempre em busca da Fraternidade, e, também, duma alteridade, aqui se alça, no lance, uma heterodoxia. Que alvitraria, no alto, o Ortega y Gasset (Madrid, 09/ 05/ 1883 – Madrid, 18/ 10/ 1955): «Eu sou eu e a minha circunstância». Que ao ser, por isso, imundo, o mundo é o mando, e deveras mendaz. E se a guerra, aqui, é guerra contra a guerra, não quer viver, a Amanda, sitiada por o ódio. E vejamos, agora, o lar e a Luz, o criar e o crescer com a força da crença: «A minha ferida mais funda é o mundo / sangue que se verte sem destino / até ao insondável lugar do latido. / Nasce a vida querendo / ser outra coisa que grito.» Ao liminar, leitor Amigo: não sejas escravo, nem estandardizado, tu podes ser, no lance, outra causa e outra coisa. Tu podes mitificar. Tu podes ser, por exemplo, «O Mundo como Vontade e Representação» ( 1818 ) – e não topas, aqui, o arguto Schopenhauer ( Gdansk, Polónia, 22/ 02/ 1788 – Frankfurt, Alemanha, 21/ 09/ 1860 ) ??? «O meu reino não é deste mundo», diria Ruy Cinatti ( Londres, 08/ 03/ 1915 – Lisboa, 12/ 10/ 1986 ), em 1941, depois e depós o Cristo caroável ( Jo 18: 36 ). Ou em perene «flower power», «Quero libar da flor / que mais dentro te haja nascido. / Polinizar de novo o mundo», alquimizar de novo o mundo abertamente e na Ibéria. E sendo pois a Lira lis. E sendo sempre, o lerdo Letes, o contrário da «Alêtheia». Ou seja: num processo de abertura, o Ser se manifesta no desvelamento, o Ser-aí é clareira onde as cousas se tornam inteligíveis. Fuljamos, então, no lumiar do liminar. Ou então, em Triplo V, na Via, na «Veritas», na Verve caroal. Mas o Letes sempre à beira: «O mundo, o mundo / como uma criança que se morre entre os meus braços, / como uma mãe que morreu no meu parto, / como um pássaro derrubado.» E lancinantemente, e alucinadamente, «A cerimónia começou. / Aos seus postos senhores, ignorantes, cavalheiros. / Aos seus postos meliantes / o banquete está servido. / A perseguição de nossas vidas / começou. / Comei o apodrecido cadáver / da civilização.» Ou seja, em avisado, avalizado razoar de Carl Gustav Jung (Kesswil, Turgóvia, Suíça, 26/ 07/ 1875 – Kusnacht, Zurique, Suíça, 06/ 06/ 1961), o homem civilizado ainda arrasta, atrás de si, a cauda dum sáurio, pois que a estese é o estudo, pois que a razão, em Amanda, ela é ré do sentimento – e não falamos, novamente, de Jean-Jacques Rousseau (Genebra, Suíça, 28 / 06/ 1712 – Ermenonville, 02/ 07/ 1778 )??? Duas características tem a cultura oficial ocidental: em primo lugar, é uma cultura de morte, em lugar o segundo é uma cultura esquizóide. Mas eis que surde Amanda, que luta por a vida, por a Palavra, por a pletora, mas eis que a Amanda alenta, ela é álacre e alimenta. E no acalentar, ela pugna, deveras, por a Alma, o Holismo e Humanitarismo – e essa, pois, a sua lida, a sua liça ou liceu. Ou melhor: na linha, liberal, de Fernando José da Costa Grade ( Estoril, 01/ 04/ 1943 – Nova Oeiras, 08/ 06/ 2024 ), Amanda quer o mel, quer manteiga, dessarte, em vez de canhões. E as armas de Amanda são as Almas, as alamedas, caroais, da Poesia em movimento, e na liça, alcantilada, eis a única lição: ama, primeiro, e tu faze, depois, o que melhor entenderes… E estribado, agora, em Santo Agostinho  (Tagaste, 13/ 11/ 354 – Hipona, 28/ 08/ 430), o Bispo de Hipona, eis o reparo que eu faço ao lerdo Aleister Crowley ( Leamington Spa, 12/ 10/ 1875 – Hastings, 01/ 12/ 1947 ),  ao «faz o que quiseres é a única lei.» E aqui temos, como em Kant ( Konigsberg, 22/ 04/ 1724 – Konigsberg, 12/ 02/ 1804 ), a «autonomia da lei moral», quer isso dizer: o sujeito dá, a si mesmo, a lei por a qual se rege; em «A Placenta do Mundo», é, Amanda Eznab, a directora e reitora da sua consciência. E o mesmo, ó filomela, e o mesmo se passa em Carlos d’Abreu ( Maçores, 15/ 09/ 1961 ). Vale a pena citar o Poeta e tradutor: «aquela moça de franzina aparência / que se fez à selva para a perscrutar / que se lançou ao rio grande / para as náiades maiores escutar / nos seus cânticos nocturnos // por isso viajou de humanos / desacompanhada / encontrando na capivara, / no urubu-de-cabeça-vermelha e no tucuxi / a trilogia desejada». Pois à guisa, curial, de Henry David Thoreau (Concord, 12/ 07/ 1817 – Concord, 06/ 05/ 1862), aqui temos, em «A Placenta do Mundo», o Amor, a harmonia e a Musa das esferas. E aqui temos, de Henry David, a talho de foice, «Walden or Life in the Woods», em lusa língua «Walden ou a Vida nos Bosques»  (09/ 08/ 1854). Tomamos isso como a fuga, a floresta, o sinal, assisado, do nosso inconsciente. Pois no alocentrismo, numa alofilia, ou na alteridade, o inconsciente é deveras o discurso do Outro – e não remembras, aqui, o Jacques Lacan (Paris, 13/ 04/ 1901 – Paris, 09/ 09/ 1981)??? Ou melhor: ao ser o artista, e ser altruísta, o Amor de Amanda tem, como escopo, a escola do génio. Porque o «homo», repetimos, vem do humo. E o homem veio à Terra para a cultivar deveras. Ou, então, como ela asserta, logo, logo, em «A Fecundação»: «E os humanos, emergiram da terra e olharam, atentos, a sua profunda beleza. Desorbitados, acreditaram que talvez a pudessem possuir, que de alguma maneira pudessem dominar a sua essência. Esqueceram-se, cegos, que a vida que palpita numa flor, é a mesma que se movimenta entre as suas veias. A mesma que vêem nesses olhos que também, pensam, possuirão. Mas a vida não pertence a ninguém. A vida é um grasnido selvagem e eterno da liberdade.» «E o que havemos, então, com este arrazoado???», demanda o ledor. E redargue, e retruca, e retorque o ensaísta: aqui temos, portanto, em ecossistema, o «oikos», a casa, a ecologia da escola. A escola quer dizer: quando ela é recta e escorreita, a casa segunda do filho do homem. Isto é: o sistema entendeu que as mulheres, ao serem Mães, são máquinas de parir a carne pra canhão. Vai entendendo, o sistema, que eu devo assassinar, assassinar em nome de Cristo Jesus. Ou entende, deveras, a escola-capital, que a mulher maricas é, que a mulher, afinal, é homem castrado. Eles dizendo, às crianças, que a violência é deletéria, levam, afinal, as crianças às touradas. É muito difícil, com esta virulência, ser Poeta, religioso, ou livre-pensador. É árduo, é difícil, para a tecnocracia, o tornar-se pessoa. E conservar, em face fresca, o sorriso da criança que anela ver o Sol. Que a massa, deveras, é manipulável, a pessoa nunca o é. E eis, agora, a ex-centricidade do Ser, eis aqui como a Autora encara a Liberdade: «Apenas nasci fui livre / foi logo que me lançaram, logo / foi logo que me empurraram / a cem mil cárceres de profundidade. // Aqui a vida é a voz quando te queima / é a ciumenta raiva / a ruim clemência / de caminhar descalços sobre as grilhetas.» Ou como reza, e razoa, Jean-Paul Sartre ( Paris, 21/ 06/ 1905 – Paris, 15/ 04/ 1980 ), o radical: «Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre.» Ou melhor: dejectada, rejeitada, enjeitada neste mundo, a Autora o forma e transforma, ela cede-lhe, selecta, a sua placenta. A Autora, aqui, ela é jogada, ela é lançada em mundo imundo.  Como as «cartas de amor» do Álvaro de Campos,  esse mundo é salvo por a Poesia, e ela só é ridícula para o burguês, o filisteu, e o não-iniciado. Ou seja, o mundo, mendaz, ele carece de amavio, ele carece de artistas qual a mão de Amanda Eznab. Como é leve a lição: somos feitos, todos nós, dos mesmos átomos que formaram o Sol e as estrelas, do mesmo Amor, segundo o Dante ( Florença, Itália, 1265 – Ravena, Itália, 14/ 09/ 1321 ), que move o Sol, dessarte, e as outras estrelas. Ou melhor: se na Amazónia se vive o Ser em plenitude, a técnica, para Amanda, é o esquecimento do Ser. E como em Marcuse ( Berlim, (19/ 07/ 1898 – Starnberg, 29/ 07/ 1979), ela é o mundo de «O Homem Unidimensional»  (1964). Dizia eu, no século pregresso: o funcionário e autómato unidimensional. Mark Twain ( Florida, Missouri, 30/ 11/ 1835 – Stormfield, Connecticut, 21/ 04/ 1910 ) concorda, do cor, com Blaise Pascal ( Clermont-Ferrand, 19/ 06/ 1623 – Paris, 19/ 08/ 1662 ), e este com o Escritor Alexandre Herculano (Lisboa, 28/ 03/ 1810 – Vale de Lobos, Santarém, 13/ 09/ 1877): «Quanto mais conheço os homens, mais gosto do meu cão». E o ledor, agora, não amue e não recue: tal como sucedia com Soren Kierkegaard ( Copenhaga, 05/ 05/ 1813 – Copenhaga, 11/ 11/ 1855 ), o que mais é preciso, para Amanda, não é, propriamente, a razão: ela é, sideral, a paixão. Uma Eutopia, o fraternal, a Ideia Universal, e uma Terra, fenomenal, sem verdugos nem patrões. Um reparo aqui porém: Liberdade não é só para as pessoas, ou «personae», do nosso partido, ela é pra toda e toda a gente, ela é pra todo, e qualquer, filho do homem. Dizer isto é remembrar, activamente, o móbil de Amanda: tanto o Mito, como a Poesia, eles excedem a linguagem meramente conceptual. Quer dizer: enquanto, nas Ciências Humanas, o sujeito se aduna, se funde, e comunga com o objecto, nas físicas forças da tecnocracia o sujeito manda, manipula, e se serve do objecto. Quer dizer: ele violenta, de facto, a Deméter, Terra-Mãe. Ou melhor: se as Ciências Humanas oblatam, e requerem, a compreensão, é isso que explica, em Psicanálise, o prender, o freudiano «transfert». Só o Poeta, portanto, com-preende, só o Poeta possui a faculdade preênsil. E a «mimesis» é real, e eu não posso percorrer o Caminho se eu não for, eu mesmo, o próprio Caminho; é que a Via é pois Verdade, e a Verdade, Vida é. E quanto, agora, à Pedagogia??? Nos alvores do Renascimento, o Petrarca (Arezzo, Itália, 20/ 07/ 1304 – Arquà Petrarca, Itália, 19/ 07/ 1374)  deu a luz: «L’amante nell’amato si transforma», ou, na Lira camoniana, «Transforma-se o amador na coisa amada». E eu só conheço aquilo que amo, e a educação, por isso mesmo, é artístico projecto: trata-se de escolher, para o espectador, as imagens e tropos fundamentais. Por isso o infante, enquanto alimentado, ele tende a imitar, a arremedar, a vida do magíster. Uma cousa, por isso, é a pessoa – e outra cousa, bem diversa, o comercializar a mesma pessoa. E aquele que contempla, em Platão como em nós, tornar-se-á, no fim de tudo, similar ao objecto da contemplação – e a isso se chama, veramente, assimilar. Que assimilar é pois prender, a «persona», de encontro ao peito nosso, e a Palavra é pois o canto, e veramente o alimento. Que «A Placenta do Mundo» é pois a génese e o génio, o germe, dessarte, da novíssima plaga. Autêntica, solene, verdadeira, ela é o mundo novo em preparação. Dizer isto, ledamente, é lembrar: «A Placenta do Mundo» é manual e manifesto, é tributária, dessarte, do pensamento mítico. A Poesia, portanto, Mito é. Ela é, para o estético Aristóteles (Estagira, 384 – Atenas, 322 a. C.),  mais funda, mais nobre, mais verdadeira do que a História. E findemos, então, com Amanda: «O mundo, o mundo / como um exilado doente / refugiando-se / no meu coração». Sendo, a Poetisa, a quimera e a canção. E falando, a Amanda amiga, a oração… do coração.


Tomar, Cidade Templária, 30 / 11/ 2025

DAT ROSA MEL APIBUS

PAULO JORGE BRITO E ABREU