“Venham lavradeiras / Mondadeiras / Deste campo em flor
Venham enlaçadas / De mãos dadas / Semear o amor…”
“Coro da Primavera”
Zeca Afonso (1972)
A esperança de um dia improvável, possível ou mesmo inevitável, diferente de todos os outros, poderia ser tema de reflexão, particularmente quando pensamos a Cidade, o País. Poderemos entretanto pensar também porque apenas somos levados a um exercício deste tipo quando o calendário eleitoral impõe e as organizações concorrentes (partidos, alianças ou coligações) entram na arena para obter o voto, o nosso voto, como manifestação de uma cidadania mínima, que a grande maioria entende ser a única admissível, embora possam dizer o contrário.
Quando o eventual exercício se transforma em arte, vem o teatro acordar consciências, catapultando-nos por vezes a terrenos e lugares “secretos”, onde somos confrontados com as questões do dia-a-dia que bem conhecemos, mas a que não prestamos a atenção devida, por falta de tempo, de paciência, ou quantas vezes naquele “não vale a pena”, a melhor forma de destruir utopias e de ceder ao lugar-comum, ao aconchego do sofá e, quase sempre, à inacção. Uma peça que merece toda a nossa atenção é “Mercado das Madrugadas” de Patrícia Portela, que assisti (e participei) na Festa do Avante, no passado 5 de Setembro. O cenário em que o mundo inteiro decide não sair de casa, entrando numa “greve a si próprio”. Nesse momento de pausa, há espaço para introspecção, luto pelas “atrocidades cometidas por excesso de adrenalina, testosterona, estupidez ou maligna estratégia geopolítica”, e, para alguns, pequenas acções de autocuidado, como tomar banho ou fazer uma sesta. A partir dessa paralisação, a peça imagina uma reconexão colectiva, em que as pessoas saem à rua, dão as mãos, ocupam praças e transformam o espaço público num lugar de troca, diálogo e celebração. Decerto, num dia comum poderíamos ter imaginado (sonhado?) um cenário destes, um grande jardim onde o cidadão se encontra com os outros e consigo também. O espaço de cena é composto por “bancas de mercado”, criadas por Patrícia Portela e João Gonçalves, que evocam um ambiente de feira, onde se trocam não apenas bens, mas histórias, ideias, músicas, danças, acepipes (petiscos) e propostas para os próximos “50 anos de Abril”. A praça torna-se um espaço de convivência, descrito como “uma escola, uma troca, o lugar para todas as classes e todas as possibilidades”. A inclusão de um “cante alentejano”, que se transforma em manifestação e uma marcha que “se dissolve no ar, mas não se desvanece”, constitui a provocação necessária para constatar a sociedade de classe e os seus efeitos e consequências. O que mais impressiona e emociona é a completa interacção com o público, onde os espectadores são livres para circular, participar e contribuir para a reflexão colectiva sobre o futuro. A peça culmina num momento simbólico ao pôr do sol, com um “minuto de silêncio” que marca a ideia de uma revolução precedida por uma pausa global, reforçando a mensagem de que “o amanhã é inevitável e começa hoje”.
Evoquemos, com toda a propriedade, o Mestre Almada Negreiros e sua peça de 1921, “A Invenção do Dia Claro“, centrada na personagem colectiva “Os Três”, que se propõem, numa varanda sobre o Tejo, à noite, a uma tarefa aparentemente impossível, “inventar o dia claro“.
A invenção não é uma espera passiva pelo nascer do sol, mas sim um forte acto de vontade criadora. Acontece que esta peça não é uma simples peça de teatro ou um texto literário, mas sim, um manifesto de acção, um ritual de despertar e um projecto para a fundação de um novo tempo. A obra de Almada poderia suportar a correlação entre a peça de que falamos e um hipotético binómio “amor / revolta“, como base teórica e poética perfeita para a luta dos trabalhadores, transferindo-a do campo socio-económico para o campo cultural e imaterial, que, para os modernistas, era o terreno primordial da revolução. Cento e quatro anos depois, no Palco 25 de Abril, a Festa interpretou o binómio amor-revolta, nas cidadãs Ana Matos Fernandes (Capicua) e Cátia Oliveira (A Garota Não). A falar, cantando o amor, enquanto expressão da solidariedade entre os trabalhadores e a revolta contra a exploração, a opressão e a dominação. Momentos como a participação do Grupo das Mulheres da Fábrica, na denúncia da violência sobre as mulheres foram, nos planos emocional e político, verdadeiros sinais revolucionários.
Mas este momento da Festa, ficaria marcado pela cena em que o público é convidado a levantar uma folha de papel A4 em branco. Sendo que a peça evoca particularmente temas profundos de perda, luto e a epidemia, a cena evoca, para além da materialização da ausência e da memória, a participação activa e ritualística. Uma vez que o branco é a ausência, uma folha que não tem nome, nem história, nem rosto, os “assistentes” são convidados a preencher essa ausência com a sua própria imaginação e empatia. Mas não só, uma vez que o acto de levantar o papel junto com centenas de outras pessoas transforma a experiência teatral num ritual colectivo de luto e lembrança, fazendo de quem assiste, não um observador externo, mas um agente activo na construção do significado da Memória, qualquer coisa como “nós também carregamos esse peso e essa lembrança“. Lembro, a propósito, a descrição das barricadas nas ruas de Paris, apresentada em “Os Miseráveis“, a obra de Victor Hugo, de 1862, durante a revolta de 1832, um dos retratos mais inflamados da literatura sobre a revolução que nasce nas ruas e praças de uma qualquer madrugada. E ainda, a cena descrita por José Saramago, no “O Ano da Morte de Ricardo Reis“, de 1984, quando o personagem heterónimo de Pessoa vagueia pela cidade silenciosa e opressiva dos tempos de Salazar. Nas obras citadas, surge sempre a Revolução como uma esperança subterrânea, um murmúrio que precede um terramoto político.
Poderão as claras madrugadas na praça inventar o dia claro que é uma urgência, já amanhã? Sabe-se entretanto que a madrugada é o momento do trabalho de parto e o dia claro, a nova sociedade que se inventa, com amor e revolta, nas praças silenciosas da história.
Diário, 560

