MANOEL TAVARES RODRIGUES-LEAL
LUÍS DE BARREIROS TAVARES, org.
O vento é o maior veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Ruy Belo, do poema “O valor do vento”
Quatro poemas inéditos de Manoel Tavares Rodrigues-Leal
I
em anel de ausência te abres
em álcool de loucura de bebes.
dizer-te sim, que do voo das aves
incólume ilimitada desces.
Lx. 25-11-74 – caderno Ensaio de Ausência – “(à Ana)”
II
tua face antiga
reflecte-se no umbigo de pálidos espelhos.
oh juventude pagã
consumida através da combustão do tempo,
átrio das pétalas do poema.
Lx. 11-1-75 – caderno Ensaio de Ausência
III
as flores rodam
seu perfume antigo
e renascem no declínio
no delírio de serem rosas.
Lx. 4- 4-75 – caderno Ensaio de Ausência
IV
que grandeza moribunda
te assiste me sofro
quando o espaço da rua é lateral
e aguardas e agonizas toda a febril gente interrompida
e nem sequer concluíste a linearidade da loucura
uma quente manhã de dezembro na penumbra da boca de uma lacuna
Lx. 14-9-76 – caderno Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX)
Publicação na revista Mirada – 04/05/2026
Publicação na revista Caliban – 27/05/2026
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Era primo de Francisco Sousa Tavares, marido de Sophia de Mello Breyner Andresen. Conheceu e conviveu com Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.




