Manuel Sengo em Torre de Moncorvo. Sentado, o Presidente da Câmara.


MARIA ESTELA GUEDES & ALEX P. ZINGA (IA)
Apresentação do livro «Fogo dos Sentidos» (Edições Esgotadas, Portugal, 2026),
de Manuel Sengo.

Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.
10 de julho de 2026.

 


 

Exmº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo,
Ilustres convidados, leitores e amigos,
Caro Manuel Sengo,

A minha mãe tecia
O tempo em fios de linho
Sentada no tear
Noite e dia
Moldava o silêncio
Em colchas de abrigo

 

Manuel Sengo é um poeta profundamente ligado ao que é terreno, próprio do corpo biológico, no qual encontra a fonte de vitalidade que alimenta a sua arte e a projeta para uma dimensão superior. Ele “respira o silêncio”, entra “no som da respiração”, modo primordial de incorporar a Natureza viva, através do que é mais distintivo do espírito: o sopro. Recordemos que, no Génesis, Deus dá vida a Adão insuflando nele o sopro, a sua própria respiração.

De modo geral, é através dos sentidos, por conseguinte, da experiência corporal, que o poeta acede ao conhecimento e daí migra para as regiões do espírito – o poema parte do chão, da crosta da Terra, para o pensamento, o silêncio, o mistério do cosmos. Essa exaltação do corpo, nas suas portas de aquisição do saber da realidade, transparece imediatamente no título do livro «O fogo dos sentidos», que transmite em paralelo a alquimia, a transmutação pelo fogo dessa descoberta dos sentidos.

Por vários caminhos o poeta se liga racionalmente à terra. Comecemos pela terra natal, Urros, e Urros, uma das Aldeias do Xisto, assente na rocha, só em palavra já é uma aldeia turbulenta pelo ruído; de seguida, Manuel Sengo mostra-se muito ligado também à terra de adopção, Lamego, seus lugares e particularidades físicas.

Relevo entre os seus motivos lamecenses, o lamegueiro, mencionado, a par da Sé e da Senhora dos Remédios, o que lhe realça a importância, no poema “O Velho”. Vejamos um fragmento:

Lamego é sino que chama
É sombra fresca de lamegueiro
É mulher que dança em lenço bordado
E olhos que brilham no tempo 

Na Sé, o silêncio tem séculos
Os degraus da Senhora dos Remédios
Sobem mais dentro de nós
Do que no corpo cansado

Ulmus minor, eis o nome do ulmeiro nos catálogos da Flora. É uma espécie muito comum em Portugal, apreciada pela copa densa e frondosa que oferece generosa sombra, tal como sugere o poema. A pesquisa do meu assistente de IA refere que, segundo a tradição e registos históricos, o nome da cidade deriva da existência de um lamegueiro no castelo da cidade. Esta árvore é tão central na identidade local que figura no brasão de Lamego, e aparece justamente representada junto do castelo. Anoto, dado o possível  alerta cronológico, que “castelo” era o nome que os romanos davam aos castros. Com esta nota pretendo traduzir o pressentimento de que o lamegueiro que segundo a lenda deu nome à cidade seria mais antigo do que o castelo atual.

Enfim, Manuel Sengo liga-se à terra em sentido lato, dada a sua formação como técnico agrícola, funcionário que foi do Ministério da Agricultura; ele conhece o que é necessário preservar, seja na terra que pisamos, naquela em que nascemos, na realidade, e na tradição. Este louvor à natureza patente em tantos poemas, que eleva a terra à sua dimensão mais universal de Terra-Mãe, encontra-se com a Mãe propriamente dita, na sua mínima dimensão individual e preciosa de representante da Magna Mater, quando o poeta no-la apresenta como um retrato antigo, sentada ao tear, fiando o tempo com fios de linho, quente como a lareira, logo no início do livro.

É na terra que os pés abrem caminhos, por solo fecundo ou pedregoso, e é nela que o destino se mapeia, quando a ferramenta de escrita transcende os limites físicos para se aventurar nos da poesia, que são sempre caminhos do fogo, isto é, do espírito. Em suma, o poeta está quase sempre ligado ao campo, culto ou selvagem, é sempre nele que o poema acha a matriz, a sua Terra Mater, musa maternal de que jorra o leite dos versos.

Podia o poeta buscar o espírito na transcendência divina, mas não: é na imanência das coisas imediatamente perceptíveis pelos órgãos sensoriais, é na vivência do amor humano, que Manuel Sengo encontra o segredo da divindade, por vezes manifesto na subtil alusão do termo “clareira” à claridade:

E ao fixar o olhar no ocaso
Abre-se o céu
Não como fim
Mas como clareira
Onde tudo o que foi vivido
Finalmente faz sentido

Se é dos cinco ou mais sentidos que temos vindo a falar, com a expressão “fazer sentido” entramos no outro campo do conhecimento, o filosófico: o conhecimento sensorial adapta-nos ao meio, o sentido da vida é o que nos orienta no caminho.

Tecido então o livro entre solo e sopro, entre individual e universal, ele é ao mesmo tempo um mapa afectivo de Urros (e outras terras nortenhas), e simultaneamente um roteiro para o Infinito.

Eis o que o poeta recorda, da sua infância, ligando-se precisamente a Torre de Moncorvo: o dia do exame da quarta classe. É um longo poema narrativo, intitulado “Destino”, do qual transluz a modéstia da vida no interior de Portugal, em tempos de ditadura:

Era um dia fora do calendário dos outros
Um dia com peso de futuro
Chegara o exame da quarta classe
Em Torre de Moncorvo
Porta estreita num mundo largo
A vila ficava longe
Como as coisas importantes
Chegava-se de burro, de mula
De macho, cavalo e a pé
Ou em carrinhas de caixa aberta
Onde o corpo aprendia cedo
[…]
Eram tempos antigos
Desses que não cabem em livros
Apenas na pele
Levantei-me antes do sol
Para chegar a horas a Moncorvo
Rapazes, raparigas, algumas mães
Todos vestidos com o melhor que havia
[…]
Perto do destino
A viatura abandonou a estrada certa
E escolheu um atalho de terra na serra
Atravessámos o Reboredo
Envoltos numa nuvem de pó
Como se o caminho quisesse apagar-nos antes da chegada
Saltámos e caminhámos apressados
Como quem foge da multa
Ou da pobreza visível
Chegámos cansados
Vestidos de pó e de tempo
Começou a corrida para a escola
[…]
Assim me apresentei ao júri
Professores desconhecidos
Um palco estranho
O futuro sentado à minha frente
No regresso, eu ria e cantava
Os que antes cantavam
Choravam agora
Uns agarrados às mães
Outros sozinhos
A infância também aprende assim
Entre o pó do caminho
E a mão firme de quem acredita
Antes de nós

 

 

Manuel Sengo no lançamento do livro «Fogo dos Sentidos». Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.