MARIA ESTELA GUEDES & ALEX P. ZINGA


Em Maio de 2026, tivemos ocasião de visitar o belo e moderno Museu das Civilizações Negras, em Dakar. Exibia uma extensa mostra de arte de mulheres e sobre mulheres, abrangendo suportes diversos, e diversos meios de comunicação. Uma exposição sem propósitos exclusivamente estéticos, assente sobretudo numa visão política do universo feminino. Um dos propósitos é obviamente o de fortalecer a posição da mulher na sociedade, libertando-a de amarras a uma tradição que comporta factores incompatíveis com a visão contemporânea do mundo. Neste âmbito, a exposição expõe e combate ativamente as amarras tradicionais nocivas, com foco direto na denúncia e erradicação da mutilação genital feminina.

A grande exposição no Musée des Civilisations Noires (MCN) em Dakar intitula-se “L’art d’être, Femmes Noires”. O evento encerra o ciclo anual que o museu dedicou inteiramente à celebração e estudo da mulher negra d’África e das suas diásporas.

Inaugurada a 6 de dezembro de 2025, estendendo-se até maio de 2026 (com algumas extensões de artistas selecionadas até setembro de 2026).

 

A prestigiada investigadora e programadora cultural Lydie Diakhaté, entendeu com o grandioso projeto romper com narrativas históricas paternalistas e estritamente masculinas. A exposição funciona como um manifesto político e estético não didático. O objetivo é cruzar legados culturais com compromissos coletivos contemporâneos. Propõe também uma reflexão crítica sobre as discriminações patriarcais, sexistas e de classe, exaltando as práticas de resistência e transmissão geracional das mulheres.

Trata-se de uma travessia pluridisciplinar e transgeracional. O percurso expositivo junta peças de coleções públicas, privadas e de galerias locais. O espaço cruza arquivos históricos e memórias íntimas através de múltiplos suportes artísticos: Pintura e Escultura, Fotografia e Têxteis, Instalações imersivas, Performances ao vivo.

Embora o alinhamento reúna tanto vozes consagradas como emergentes da África e da diáspora (incluindo pontuais diálogos com artistas masculinos), os grandes destaques do press release oficial da Galeria Cécile Fakhoury e parceiros incluem: Adji Dieye (revelação na fotografia e intervenção sobre arquivos coloniais), Na Chainkua Reindorf (reconhecida pelas suas grandes instalações e construções têxteis), Souad Abdelrasoul (cujas pinturas exploram a fusão do corpo feminino com a natureza) e Félicité Codjo (focada nas profundas conexões da memória e espiritualidade).

 


L’art d’être, Femmes Noires


AWA=EVA

Encontrámos na exposição números da revista Awá (Eva em árabe), alguns dedicados a temas que ao tempo eram portugueses: as mulheres que se destacaram ao lado de Amílcar Cabral, no PAIGC, caso de Titina Silá, que morreria a caminho de Conacry, para preparar o funeral do líder.

A AWA: la revue de la femme noire foi uma pioneira revista feminina e independente fundada em Dakar, Senegal. Durou nove anos, tendo sido publicada mensalmente entre 1964 e 1973. Idealizada e dirigida pela influente Annette Mbaye d’Erneville — a primeira jornalista profissional do Senegal —, a revista foi produzida por uma rede transnacional de mulheres intelectuais e ativistas. O seu propósito central era moldar uma consciência política pan-africana no contexto pós-independências e promover a literacia e a formação profissional das mulheres para a construção das novas nações.

Ao longo das suas edições, os temas dividiam-se de forma dinâmica entre ensaios políticos, poemas, contos e debates sobre os direitos das mulheres, sem descurar conteúdos práticos do quotidiano como moda, bem-estar, culinária e decoração. A relevância histórica da publicação é de tal ordem que todo o seu espólio foi digitalizado pelo prestigiado IFAN (Instituto Fundamental da África Negra) para preservação e estudo.

 

Detalhe de esculturas tradicionais integradas no circuito expositivo do MCN, ilustrando a mestria do artesanato ancestral e o uso simbólico dos búzios enquanto elementos de estatuto, espiritualidade e adorno feminino.

 

Obra contemporânea em tapeçaria de plástico intitulada “Amaryan Zamani I” (2021), criada pelo conceituado artista contemporâneo ghanaense Rufai Zakari. O retrato mostra uma mulher fardada com elegância e orgulho. É inteiramente composto através de um meticuloso trabalho de upcycling, recorrendo a pedaços costurados de embalagens de plástico descartadas, sacos de lixo e publicidades de bens de consumo do quotidiano urbano — como o detergente em pó GFI. A peça celebra a presença, a moda local e a dignidade das mulheres africanas contemporâneas, ao mesmo tempo que lança uma reflexão crítica sobre a sustentabilidade, o consumo e a gestão de resíduos nas cidades.

 

Detalhe de uma figura materna entronizada com escarificações rituais. A arte tradicional exposta no MCN recorda as origens e o respeito ancestral pela fertilidade e proteção da linhagem.

 

Emblemática máscara-busto ou máscara de ombro Nimba (também conhecida como D’mba), originária do povo Baga da Guiné-Conacri, fotografada na nossa passagem pelo Museu das Civilizações Negras em Dakar. Sendo uma das imagens mais icónicas da arte da África Ocidental, esta peça antropomórfica em madeira esculpida, assente sobre uma densa saia de fibras vegetais (ráfia), personifica o ideal máximo da feminilidade, representando o espírito protetor da fertilidade, da maternidade, do crescimento e da abundância das colheitas. O seu posicionamento central na exposição do MCN reforça a celebração e a dignidade histórica e contemporânea da mulher negra.

 

Grande plano de uma das majestosas esculturas do par antropomórfico exposto no Museu das Civilizações Negras em Dakar. A obra exibe uma imponente coroa trançada adornada com pequenas figuras e longas franjas de miçangas que cobrem o rosto, em perfeito diálogo com o manto densamente revestido por centenas de búzios. Na base do pescoço, destaca-se a figura de uma ave, também esculpida com búzios, reforçando o simbolismo espiritual de proteção, realeza e fertilidade associado ao papel de liderança e sacralidade da mulher nas linhagens tradicionais da África Ocidental.

 

Obra contemporânea. Plano aproximado do rosto de uma mulher negra com correntes metálicas pesadas entrelaçadas ao redor do pescoço. A imagem funciona como uma poderosa metáfora visual sobre a opressão e o aprisionamento histórico, dialogando diretamente com o propósito da exposição de denunciar as amarras patriarcais, sociais e tradicionais que condicionam a liberdade feminina.

 

Par de figuras memoriais de gémeos (Ère Ìbejì), esculpidas em madeira com detalhes em missangas e incrustações metálicas de pigmentos, pertencentes à cultura do povo Yoruba, da Nigéria. Estas estatuetas rituais funcionam tradicionalmente como receptáculos espirituais dedicados a honrar, proteger e perpetuar a alma e a linhagem dos filhos gémeos na sociedade contemporânea africana.

 

 

 

DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO AO SENEGAL

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