Por JOANA RUAS
Num dia ensolarado de Junho encontrei-me com a minha amiga, a pintora Albertina Mântua. Sentadas à sombra da vetusta árvore no jardim próximo da sua casa conversámos, ela olhando-me com ar curioso. Havia anos que nos não víamos e quando lhe telefonei para lhe comunicar que ia finalmente pegar nos poemas que eu tinha escrito sobre algumas das suas obras, eis que ouvi do outro lado do fio uma voz conhecida que me anunciava que não sabia quem eu era, que não se lembrava de mim. Foi-me dizendo que ultimamente se esquecia de tudo. Pedro Vespeira, seu filho, confirmou-me o que eu receava: Albertina estava com a doença de Alzheimer.
Sobre vidas não acabadas, a minha primeira experiência devo-a ao cineasta Paulo Rocha depois do AVC que o acometeu. Quando o visitava, a nossa conversa incidia sempre sobre o que tínhamos amado no cinema: os artistas, os encontros na Cinemateca com gente do cinema nacional e internacional, os realizadores favoritos entre os quais estava Jean Renoir de quem Paulo Rocha fora assistente de realização no filme de 1962 intitulado «Cabo de Guerra». Por ocasião do massacre de Santa Cruz em Timor-Leste, Paulo Rocha foi um dos subscritores, com José Saramago, Natália Correia, Sofia de Melo Breyner, Prof. Barbedo de Magalhães e Prof. Helder Gonçalves, da Carta Aberta dos escritores, intelectuais e artistas por mim redigida ao Secretário Geral da ONU. Nessa sessão presidida pelo Prof. Veiga Simão, perante a Comunicação Social, Paulo Rocha declarou, emocionado:« Estou aqui por um amigo: o poeta Ruy Cinatti».
Dolorosos eram os seus dias sem memória. O esforço de memória de Paulo Rocha era tal que acabou por exclamar que todo o seu passado se achava fechado numa gaveta de que tinha perdido a chave. Estávamos numa estação donde se não partia para lugar algum. Que flores nasceriam destas brumas? Que ecos bailariam ainda nos céus da memória como lenços do derradeiro adeus? Era com um silêncio sagrado que percebíamos que os écrans estavam habitados por imagens de seres de carne e osso, que as suas vozes, imortais, vinham ainda de corpos efémeros como as flores e folhas que irrompem da seiva de velhos troncos.
Com Albertina o nosso diálogo tinha como centro as suas telas. Como se desligadas do passado a que ela não tinha acesso, tranquilamente íamos vivendo como novas e recentes amigas que amavam as mesmas coisas. Não sofri demasiado por me ter tornado evanescente ou outra , a cada encontro sendo a mesma. Ela estava viva, a amiga de outrora e o seu espírito tal como o espírito de Paulo Rocha vivia no lugar utópico da Arte.
Paulo Rocha que nos anos em que exercera a função de Adido Cultural da Embaixada Portuguesa em Tóquio se debruçara com paixão sobre a vida e a obra de Wenceslau de Moraes, trouxera do convívio com japoneses uma aura de mistério. Quem, senão ele, nos teria dado aqueles seus diálogos com a freira budista na margem de um lago de finas e diligentes ondas que iam espraiar-se na areia? Não sei se foi junto a um lago, ou se o lago ali estava porque a minha imaginação o pensou quando aqui escrevia . O meu cansaço interpela-vos gente do futuro, dir-me-eis que deveria aqui parar esta narrativa para buscar a certeza se havia ou não um lago entre a voz da freira e a voz do Paulo Rocha? Estou cansada, gente do futuro, tentando caminhar nos passos de um mundo que ruiu. Os meus passos, pesados, caminham na miséria de um presente que flutua sem rumo. Quando tudo muda mesmo estando parado, a consciência progride apoiando-se numa construção que logo abandona desde que a alcança. Estareis também condenados a imaginar o futuro pela janela do passado? Vêde o oiro de uma existência anterior habitada por gente amiga agora entregue ao acaso dos dias e a encontros fortuitos que por vezes, em breves lampejos, conservam ainda a frescura de uma descoberta e a capacidade da alegria. Éramos como duas retas paralelas que se não tocam: eu na continuidade do meu passado onde eles continuavam existindo e eles na continuidade íntima do seu ser consigo e no mundo que apreendiam e tocavam com os instrumentos da arte e da linguagem. Cada filme, cada artista era para Paulo Rocha um mistério ou uma lição reveladora que ambos decifrávamos. Habitantes de um eterno começo, de um eterno fluir, estes amigos viviam na impermanência de um mundo que eles mesmos criaram. Peregrinos na vida como o são os artistas e escritores, éramos todos poetas de um lugar incomum. Era como se nada na vida fosse tão perene como a arte. Ali estavam eles, vivos, na eterna morada das coisas que nasceram do seu génio. Como criadores de formas, tudo o que haviam de fazer era mais precioso do que aquilo que já tinham feito. Andariam perdidos dentro de si mesmos ou todos os seus esforços iam no sentido do «desconhece-te se queres ser verdadeiramente quem tu és»?
Na delicada obscuridade das suas próprias sombras em que Paulo Rocha vivia, movendo-se lentamente apoiado nos corrimões que mandara colocar nas paredes de sua casa, ouviria ainda a música de Carlos Paredes que revelou na banda sonora dos filmes Verdes Anos e Mudar de Vida?
Numa tarde em que visitei Albertina, saímos das rendilhadas sombras da frondosa árvore para a sua biblioteca onde, num recanto, um cavalete suportava uma tela branca. Temendo o que se seguiria, esperei ansiosa que Albertina pegasse no lápis ou no pincel e enfrentasse a tela branca. Albertina, sentada frente à tela, despreocupada do seu enigma, a sua mão, leve, sonhadora, foi esboçando uma linha flutuante. A arte nasce do cumprimento de deveres interiores. A Albertina que fora pintora nos intervalos do seu ser em sociedade, uma vez alcançado o seu espaço próprio, tinha perante si o enigma de uma vida sem lacunas. Como se a proximidade do crepúsculo a dotasse de asas, Albertina caminhava através da tela, um caminhar na luz, um viver que é deixar para trás as roupagens que em cada momento da nossa vida consciente envergamos. Um caminhar para um lugar outro que está para além da tela, percorrendo espaços, arredando os véus do ser de que somos feitos numa descoberta escaldante de tudo o que nos separa da vida plena. Celebrando o triunfo de cada instante, ligeira como folha seca que o vento ergue, a energia da mão captava no traço do desenho o impulso da cor . Quem era esta mulher nascida e adiada entre os escombros de múltiplas esperanças e que ousava ainda novos tormentos? Com uma doçura muito feminina Albertina entregou-se à sua arte e ao que ela lhe impunha a cada dia. Longe iam os dias da sua aventura surrealista iniciada com Marcelino Vespeira no final dos anos quarenta. Albertina Mântua foi uma das mulheres que com Isabel Meyrelles e Nora Mitrani integrou o movimento surrealista tendo participado na Exposição de 1953 com Cruzeiro Seixas e Mário Cesariny.
O que sabe o mundo sobre estes companheiros? No mundo que nos ignora quem se lembra da claridade que trouxeram para as nossas vidas? A arte é claridade que irrompe mesmo nos interstícios de uma sociedade cega e agarrada aos seus crimes e privilégios. O passado e o presente reciprocamente se combatem e modificam e uma nova dimensão se abre no passado: a do futuro anterior.
Com Albertina era a mão que interrogava a tela mas, interrogava-me eu , de que modo o écran e o cinema conviveriam no limbo do cineasta com seus métodos e pesados instrumentos? Que diálogo se travava na arte de fixar na película obscura os seres que iam saindo da sombra para a luz? Seria o ato de filmar ou a montagem, o sítio onde têm os cineastas, artistas e fotógrafos um recanto só seu rodeado de mistérios que decifram? É a arte uma forma de amor? Quem ama viaja para fora de si mesmo. Amar é partir no esquecimento de si, com olhos fixos na flor da escuridão. Partir sem ponto de chegada para a outra margem onde se dão as metamorfoses do sofrimento e onde a vida pulsa e irrompe a alegria de criar. Nós, os navegantes de uma aventura singular, ousando o magma das emoções calcinadas, contornando densidades de bruma, numa viagem voluptuosa e solitária aventuramo-nos pelas singularidades das coisas grandes e pequenas.
Joana Ruas, Porto, 14 de Junho de 2025


