MANOEL TAVARES RODRIGUES-LEAL
LUÍS DE BARREIROS TAVARES, org.
«Aos deuses supúnhamos uma existência cintilante
Consubstancial ao mar à nuvem ao arvoredo à luz
Neles o longo friso branco das espumas o tremular da vaga»
Sophia de Mello Breyner Andresen – excerto do poema «Os Gregos» – Dual, 1972
«oh segredo de deusa esculpida em o rigor da luz marinha»
T. R.-Leal
Sete poemas inéditos de cinco cadernos – por Manoel Tavares Rodrigues-Leal
I
E quando me povoam brilhos nocturnos,
que reino se ergue neste pobre quarto e que quietude jaz.
Poesia amadurece, amanhece em símbolos de beleza,
erecta em quentes estátuas gregas. Ofício de poeta me espera sem paz,
e que nitidez de alvas pétalas de praias, que mansa mão e ilesa.
Mas perco-me em pecados de amor, corpos decepados, instrumentos soturnos.
Lx. 8-8-76 – caderno No Reino de Eros
II
Solidão me consome e é geografia de escrita,
que se tece, tecto de amplos dias, mas deslumbrados.
O que cedo cedo às inenarráveis noites, escriba
de uma admirável, abominável beleza pagã. Lindos e saturados
linhos de olheiras em mim soçobram. Que solidão antiga,
e tão inimiga, de novo em mim renasce, e dos dias rostos tão mutilados.
Lx. 8-8-76 – caderno No Reino de Eros
III
Como se me adere a branca rede da tua nudez
se bebo os teus seios se osculo a tua boca se a minha língua fende a tua concha húmida
não sei que música que musa preside à nudez dos meus dias feitos água oh fêmea efémera
Lx. 13-11-79 – caderno Ciclo incompleto de uma mulher em visita
IV
Respiro os teus mamilos a boca secreta do teu corpo
que paredes irrompem na fala da tua nudez oh ática brancura
que fendo oh minha amiga de espelhos de ternura e abandono que envolvem o desespero do desejo sua aspiração antiga diurna.
Lx. 13-11-79 – caderno Ciclo incompleto de uma mulher em visita
V
Voltei em vão ao timbre
dos metais. Ao desgaste mortal do tempo.
As palavras acendo-as nuas. Céleres feridas perpassam.
Tempo vegetal. Onde celebro as imagens mais velozes. Propago os deuses acordados e múltiplos.
Lx. 4-12-79 – caderno Linearidades
VI
Pétrea memória de lagos que formam teu corpo,
que aborta vítreo olhar onde ousas ondas, ó deusa,
e eu desejo o teu desejo, mar antiquíssimo onde soçobro, onde louvo louco
desejar, de tão insólido e cansado, lacustre e nua, abençoada, surges neste canto, de cantar, já duro e rouco.
Lx. 31-3-80 – caderno O Comércio de Amor
VII
Já não ouço o chão das palavras,
nem vejo a minha ninfa…
Acordo da singeleza dos sonhos,
para que, acesa, a mão te singre…
Lx. 22-2-81 – caderno Rumor de Inverno
Manuscrito do poema I
Manuscrito do poema V


