MANUEL SENGO
Manuel Domingos Sengo, Nascido a 12/04/1954 . Natural de Urros, concelho de Torre de Moncorvo – Residente em Lamego – Portugal. AUTOR DE: CAMINHAR NOS SILÊNCIOS POESIA (2024) .Participação nas obras literárias: Lamego 2023 Era Uma Vez,V Coletânea de Poesia Lusófona em Paris 2023, In Versus Veritas XVII/XVIII, Antologias 2023/24, III Coletânea Poética Terras de Gândara 2024, Publicações como autor na Plataforma Triplov, – Demandas 2024 e Caminhante 2025 . Autor da Obra de Poesia Caminhar nos Silêncios 2024.
FRAGMENTOS
Há dias de poeira no ar
Que envolve o corpo inteiro
Entra nas narinas com cheiro a terra, lua
e sol
Na contagem do tempo diurno e noturno
Pinta o cabelo e o tom da pele com a luz
cintilante das estrelas
Com a cor do pólen fertiliza o estigma gigante
da flor de vida
Com origem cósmica navega no firmamento
Pai e mãe de todos os seres
Germinou em Eva e Adão
Para a evolução do homem
Com simplicidade e complexidade
Em todas as partículas da natureza
Nos fragmentos e ordem do Cosmos
A desordem da humanidade na poeira
NEM LOUCAS
Algumas palavras sufocam
Quando inesperadas
Outras ditas com o olhar
Parecem balas de matar
Prefiro palavras doces
Calmas sem vendaval
Que abram o coração
Sem ruído
Nem loucas
Como flores de guerra
Sempre vivas
Sem delírio da rosa vermelha
Apenas com atenção
Ou cravos de paz
Na ponta da língua
E olhos de luz
A germinar afetos
Com lucidez de sentimentos
E nobreza nas palavras
VOZES
Ao avançar da noite
Penso em adormecer
Procuro uma posição
Para receber o sono
no meu corpo
Na porta do sono
Sinto a dor das vozes
de todas as idades
Procuro identificar cada rosto
de sofrimento
No cérebro e coração
Na beleza profunda e escura da noite
No sossego das cantigas ao vento
Nas palavras enfeitadas pela chuva
Na poesia escrita pelas estrelas
Traçada pela luz dos cometas
Cantada com música das nuvens
Numa serenata prateada pela lua
Acordo num deserto poeirento
Numa tempestade de areias revoltadas
Num mundo destruído pela cegueira
À procura de anjos no coração da humanidade
A navegar no sal das lágrimas de minha mãe
E o meu pai do tempo, não sei se sabe
Da existência de raios da escuridão
Ouço vozes de desassossego ao adormecer
LUZ E SOMBRA
Luz e sombra, vida entre o bem e o mal
Batalha antiga, ordem e desordem
Progresso das sociedades, egoísmo e poder
Carne humana rasgada com lâminas forjadas
Presas dilaceradas por feras a sangue frio
O homem, humanidade em orações e milagres
Sombra de um Ser Maior
Monstro de destruição, sem armas de aço
Tecnologia avançada, destruição de cidades
Fabricas de terror, fome e miséria
Paz e guerra, contraste, luz e sombra
Incapaz de vencer com palavras
Nem entrar nos rios de sangue inocente
Observa, cansado e impávido, as sombras gigantes
Que amordaçam a luz da nossa esperança
SONS
Os sinos, sinetas e chocalhos
O relógio da torre da igreja anunciava as horas e os sinos as más noticias
O som da sineta na capela avisava que era hora da missa e do terço
Os chocalhos cantavam alegremente à saída das malhadas
Os rebanhos de ovelhas e cabras com as suas melodias seguiam o trilho dos pastores
O boieiro recolhia das lojas bois e vacas para as pastagens do prado
Era hábito ancestral marcar horas sem relógio
A vida na aldeia todos os dias acordava à mesma hora
Cada um sabia de véspera a sua missão ao surgir o dilúculo
Todos conheciam as regras tradicionais de conduta social
Uma das tarefas mais importantes, era a corrida à água
Um bem precioso e escasso, logo pela manhã a visita às fontes de mergulho
As mulheres com cântaro de barro ou de lata na cabeça tentavam chegar primeiro que as bestas
Que transportavam nas albardas as cangalhas de seis, quatro ou dois cântaros de zinco
A água nas fontes escrevia canções românticas
Banhava os corações com paixões durante os passos no caminho
As fontes despertavam amores temporários e outros para toda a vida
O som dos sinos cumpria religiosamente a sua missão de informar com a arte do Sineiro
Nunca falhava a anunciada hora do recolher
Com o toque das Trindades a vida começava a adormecer sem sons na minha aldeia
PESSOAS
Pessoas de diversos rostos
Com brilho e sorrisos
Ou de ar sério e tristes
Sempre com ares de vida
Uns contentes e felizes
Outros como escravos do dia
De costas curvadas e lágrimas disfarçadas
Do peso das palavras de resistência
No combate à fome da família
Humilhada e maltratada por ser emigrante
Num país perfumado de democracia e contestação
A memória esqueceu que outros países em tempos difíceis
receberam a esperança dos seus clandestinos
Sem formação que se adaptavam a tudo para sobreviver
Agora no vento da incompreensão gritos de vozes ingratas
De quem navegou em águas revoltas
por necessidade no desconhecido
Pessoas que disparam palavras num país onde era proibido pensar
Contra a humildade de quem apenas quer sobreviver com dignidade
Em fuga da fome, miséria e destruição dos países de origem
A humanidade está a libertar fumos negros de impiedade sem fronteiras
Em seres humilhados e ignorados que resistem porque são pessoas
Num tempo como tempo de tráfego e escravidão
ONDAS IDÍLICAS
Ondas idílicas
Um suspiro teu me chama
Como nascente na tua boca
No navio de amor na cama
Encantamento que o céu toca
Em corpos que se encontraram
De desejo ardente se perderam
No vendaval de ondas de amor
A superar águas revoltas do mar
Nas ondas idílicas de tanto amar
DESEJO DIÁRIO
Toca em mim o silêncio
Enrolado no vento
Que vem do mar
Com ondas de amar
Sem saber porquê
Penso nas que encontrei
Em silêncio as que perdi
Em momentos todas vivi
Com a luz de esperança
De manhã sempre igual
De noite diferente
Neste mundo restrito
Assim vivo e acredito
Na luz do amanhecer
O desejo diário
De viver cada momento
Do que amo e amei
Na vida já tanto perdi
Do muito que encontrei
Só com o todo viver sei
SUSSURROS
Pequeno diamante brilha no teu olhar
Um sabor de brisa no meu coração
A regar as raízes de todo o meu ser
Eras apenas ilusão
Quando te vi
O vento virou os teus cabelos
Na minha direção
Como ondas do mar
Olhei os teus olhos
Com o rosto a corar
Era outono com folhas no ar
Pousaram em mim
Com sussurros para te amar
MURO DA ILUSÃO
Com o reflexo do tempo, os meus olhos castanhos tinham o brilho
da inocência na descoberta de coisas simples
Como a noite e o dia, o sol e a lua
A natureza e a grandeza do céu com muitas cores
A noite escura e o brilho das estrelas em noites de luar
As formas das constelações e da lua durante a noite e dia
A chuva, o nevoeiro, sincelo, gelo, geada a neve e o arco iris
A facilidade das aves em passear no ar
A diversidade de animais domésticos, selvagens, repteis e anfíbios
Os peixes nos rios, lagos e mares com o misticismo de monstros e sereias
E o mundo vegetal desde as herbáceas às árvores de grande porte
Os insetos com a importância das abelhas e graciosidade das borboletas
Agora no crepúsculo do tempo os meus olhos embaciados
Vivem a cegueira da consciência de que no mundo se vê muito pouco
Durante as estações o calor e o frio com a serenidade e fúria do vento
Na construção dum ninho de reprodução como todas as espécies
A visão dos meus olhos castanhos fica para cá do muro da ilusão
PALAVRAS
Palavras nem sempre são o que parecem
Dependem muito da forma de as dizer
E do momento em que se ouvem
Se são as que se querem ouvir
Têm o sabor de água fresca em tempo quente e solarengo
Se o tom das palavras ouvidas mesmo assertivas, são desagradáveis
e agressivas
Podem zumbir como balas assassinas
Ou saber a veneno espalhado pelo vento no interior de quem as ouve
Como o maior dos pesadelos
Na vida acontece ouvir o que se quer e o seu contrário
Mesmo na conversa mais íntima de sentimentos puros
Num lago de águas de felicidade, e de repente se transforma num rio de lágrimas
Com a corrente mais feroz e violenta a transbordar as margens
Levando tudo no seu leito sem piedade até ao mar
Com o som dos trovões da tempestade repentina e imprevisível
Como as línguas de fogo dos raios que ardem e deixam cinza
É esta visão do ouvido que separa as palavras boas das menos boas
Neste reino de ouvir e dizer palavras assertivas ou de hipocrisia
As pobres e as ricas com o mesmo ou diferente sentido
Neste mundo podemos ser pequenos em muitas coisas
Mas que sejamos grandes nas palavras
Com sensibilidade de as dizer a quem as ouve
Há um dizer e um ouvir, em cada momento
Nem todos são oportunos para as mais belas e verdadeiras
A riqueza ou pobreza das palavras depende do estado de alma
Umas tocam e se aproximam, outras afastam quem as diz de quem as ouve
Palavras ditas que podem ser boas ou malditas
Na nobreza das letras reina o castelo de palavras na liberdade da Poesia
No cume e interior da montanha de palavras no silêncio
ALI BRINCAVA
Saltos e jogos de memória
Que ficaram prisioneiros
Com sorrisos e vento de alegria
Que limpava o suor do corpo
No largo das eiras
Local de eleição para brincadeiras
Ali brincava em terra seca e lameada
Com união aos perfumes das estações
Vindos da serra e dos animais
Suaves, fortes e fecundos
Selvagens como as águas do rio
Na descoberta de afetos profundos
Descobri que havia outros mundos
Em gritos de inocência e malícia puros
No perfume da voz e singularidade de cada rosto
Que o fado distribuiu pelos quatro cantos do mundo
Saudade que o tempo traz e cultiva nos meus olhos


