crónica laboral (I)
… o tempo do compromisso social
A memória que me ficou daqueles primeiros anos de sociabilidade pela via do trabalho (1969, 1970,1971…), é a de um tempo triste e pobre, povoado de carências, ameaças e muitos, muitos fantasmas que nos perseguiam. A ordem, a moral, os mitos da história pátria e da fé, eram cortinas que escondiam aos nossos próprios olhos a pobreza mental e social que habitávamos. Neste clima de anestesia geral eram muitas as preocupações e diversos os perigos que era preciso evitar ou enfrentar; fosse a polícia em presença quotidiana na rua e cuja prática objectiva seria vigiar a população e, naquele bairro, reprimir também os miúdos que andassem a jogar à bola em cima da relva; fosse a angústia pela eventualidade de participação na guerra colonial, ou a tentativa de fuga a esta sina e à pobreza, que ao longo do tempo ia pronunciando emigração a salto por esse mundo fora. Mas também havia uma juventude inquieta e contestatária, como é próprio, e muito quem manifestasse e cultivasse insubmissão exercendo solidariedade na sombra dos edifícios do regime. Como foi próprio da minha geração, a repreensão foi sempre uma constante até a geração da repreensão ter desaparecido. E começava logo com o início do acto de viver. Primeiro era por não querer comer, depois era por não obedecer, a seguir era por não estudar, depois por nada saber, também por me dar com quem não devia, por ler o que se proibia, por querer diferente do que para mim se queria… e neste desencontro de cada dia, a noite no bairro era o espaço de reencontro connosco próprios. Na intimidade da luz de um candeeiro de rua partilhávamos cantigas, alegrias e angústias em conversas furtivas já fora de horas, em “plenários” de dois ou três amigos. Sempre muito atentos às novidades que nos iam chegando, de fora do país ou da nossa própria terra, ouvi em segredo que algures no interior, havia um padre de barba e cabelo comprido que cantava com uma viola nas mãos e uma voz empolgante, uma cantiga que falava de guerra, fome, injustiça, proclamando alto e bom som, que tudo isso “vemos, ouvimos e lemos, já não podemos ignorar…”. E nestes tempos de bairro também por ali a fomos cantando em ocasiões particulares e sentidas. Foi uma interpelação para a vida que nos ia alertando e revelando outros recados, como o dos “vampiros”, e preparava a adesão à proposta de “em cada esquina um amigo e em cada rosto igualdade” como cantava Zé Afonso.
O que fazemos, para quem fazemos ou mesmo a utilidade do que fazemos, foi preocupação e motivo de reflexão daquela geração de miúdos do bairro, organizados nas “juventudes operárias”, umas “católicas”, outras nem tanto, sem outro recurso de sobrevivência que não fosse entrar, mais cedo ou mais tarde, no mercado de trabalho onde as influências pessoais ou de família eram trunfos importantes ao tempo, sempre muito zeladoras e ditadoras da “moral e dos bons costumes”. Em contraponto, nas organizações juvenis que integrávamos, discutia-se criticamente o que eram “bons costumes” e os contornos menos saudáveis da moral que nos era pregada. Era uma reflexão séria que nos alimentava a aspiração a ser gente, bem como a procura de uma postura e prática social digna e cidadã. Aprendíamos valores nesta reflexão que, de algum modo, ia transbordando em acção no bairro, no emprego e talvez até na família. Pensar e discutir quem somos e o que queremos ser, seria afinal subversivo e, um dia à hora de encontro e reunião habitual, acabámos por encontrar a sede da nossa organização fechada e selada pela polícia! Na procura de uma explicação para este estranho facto, tivemos a informação de que a direcção de Lisboa tinha “ido dentro”, isto é, tinha sido presa pela polícia política.
Naturalmente que o susto e a preocupação foram grandes e no sentido de salvar o que ainda fosse possível salvar, sem fazermos contas ao medo e ao risco que não sabíamos medir, vai de assaltar a sede a coberto do escuro naquela mesma noite. Uns empoleirados em cima dos outros até se chegar à janela em rés do chão alto, ainda foi possível tirar cá para fora alguns materiais, dossiers e os preciosos calendários, que estavam em distribuição militante junto de quem nos era mais próximo. Eram uns calendários muito especiais com fotografias e frases destinadas a ajudar as pessoas a pensarem na sua condição social. A folha relativa ao mês de agosto, por exemplo, mostrava uma praia cheia de veraneantes em fatos de banho, como seria normal e, no meio deles, uma empregada doméstica fardada a rigor, muito afogueada pelos calores de verão e excesso de roupa que vestia, em dia de Sol quente e luminoso, a dar banho de mar às crianças dos seus senhores. A legenda alusiva a esta fotografia sublinhava “Os ricos cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres”. Creio que até ao final do ano ainda conseguimos distribuir todo o material, sem mais prejuízos e passámos a realizar os nossos encontros e reuniões formais em pequenos grupos nos cafés! Naqueles tempos era tão comum e intensa a vivência e confraternização à volta da mesa do café que apesar da eventualidade de alguma vigilância dos servidores do regime, ninguém estranhava a nossa presença. Só o hábito de beber café é que nos ficava mais dispendioso.
crónica laboral (II) … Iniciação conventual no “museu da politécnica”
A minha primeira experiência profissional, foi uma tentativa de correcção de um percurso escolar em falência. Na realidade, constituiu como que uma libertação dos constrangimentos familiares, escolares e do próprio bairro, funcionando como a grande abertura ao mundo, servindo também como escola para a tomada de consciência do modelo de organização e estratificação social em que vivíamos e do peso e importância dos diferentes estatutos profissionais naquele meio. Para nós, juventude do bairro, o culto do trabalho não era mais do que a chave da sobrevivência que procurávamos assegurar com dignidade, com o menor custo possível e alguma rebeldia que nos aliviasse as entranhas. E nada de cedências. Nem submissões a planos e desígnios que não fossem nossos, nem fazer mais do que o estritamente necessário no respeito dos contratos estabelecidos. Não nos esquecíamos que vivendo num “tempo de pecado organizado”, como nos cantava o poema de Sofia pela voz do padre Fanhais no segredo das ruas e nos encontros furtivos dos amigos, era imperioso estar sempre atento e interventivo, contrariando os recados prudentes e temerosos da “educação” que recebíamos. Naturalmente que pequenos conflitos e confrontos teriam de acabar por acontecer. Por uma opinião mais ousada que se expressasse, por uma reclamação que se fizesse, mas sempre coisas pequenas, porque não tínhamos poder nem saber, para muito mais.
Depois de um ano de experiência como moço de recados e outro como escriturário, sem ter ganho dinheiro que se visse nem saudades que se cantassem, ingresso em 1972 no “Complexo Politécnica”, como então era designado o conjunto de organismos da Universidade de Lisboa ali sediados, herdeiros dos mesmos espaços que em tempos idos foram a Escola Politécnica e deram o nome à rua. Estava longe da vocação do serviço público, nem tinha a perspectiva de ali ficar muito tempo; o grande objectivo era conseguir uma “ponte” que garantisse trabalho para depois do longo serviço militar que então se cumpria ainda em tempo de guerra colonial e obviar a ameaça de desemprego que em regra lhe sucedia. Mas, entretanto, aconteceu “abril” e quando dei por mim já ali tinham passado mais de quarenta anos…
Ao entrar naquele serviço fui entregue ao Carlos. O Carlos da Cecília como era conhecido. Foi ele o encarregado de me dar a conhecer os cantos à casa, ensinar as regras e as técnicas para as funções que iria desempenhar. Na missão de me integrar adequadamente naquele organismo na condição de funcionário, leva-me a percorrer os vários espaços de trabalho da secção que iria integrar, e o espaço “Politécnica” no seu conjunto, apresentando-me com toda a simpatia a cada um dos colegas que íamos encontrando ao longo do percurso. Lá ia recebendo as boas-vindas e começava a sentir-me da casa. A pertença a um sítio passa também por aceitar como herança a memória do local. Iniciação “conventual”, diria. Ao passarmos no grande átrio central do edifício, em direcção à “Geotecnia”, o Carlos chama-me a atenção para este novo laboratório e o avanço técnico-científico que representava a sua existência na actividade na secção.
– “Sabes o que era isto aqui? Era a barbearia! Era aqui que um colega nosso vinha fazer a barba aos professores da faculdade. Ao sábado de manhã, depois das aulas, saía lá do seu serviço na “Física” vestido como era devido, punhos, colarinhos e laço impecáveis. Chegado aqui tirava o casaco e ficava logo em camisola interior pronto para o serviço. Sim, camisa não havia, o colarinho, o peitilho e os punhos eram cozidos na casaca…”.
Já os trabalhadores residentes nas casas de função tinham “serviço de barbearia ao domicílio” prestado pela barbearia da rua. Eram outros tempos de aparências e pobrezas que não honravam os espaços do antigo convento que já tinham sido dedicados ao culto religioso. Estávamos no grande átrio do edifício, no espaço que correspondia à antiga igreja do convento jesuíta (Noviciado da Cotovia) que esteve na origem daquele lugar de ciência, antes de ter sido convertido em Colégio dos Nobres, mais tarde em Escola Politécnica e, à data desta história, Faculdade de Ciências com os seus centros de investigação científica e museus anexos.
Não deveria levar caro aquele barbeiro de competências várias e para os professores da Faculdade seria muito cómodo a disponibilidade desse serviço. Seria um espaço reservado à elite académica. Outras elites, em tempos mais recuados, tinham dado usos diferentes àqueles espaços. O acesso a partir da rua e da cidade, habitada por gente comum, era feito através de uma escadaria monumental com grandes colunas encimada por um frontão triangular, sugerindo grandeza e poder. Esta pompa e o seu simbolismo pautavam a elevação que o acesso a Deus ou à Ciência representava, fosse Deus “Razão e Natureza”, fosse a Ciência o método da Razão que explica a Natureza. O despotismo esclarecido já tinha expulsado os jesuítas daquele convento a meados do século XVIII, mas no século XX, no mesmo espaço, entretanto feito escola, o professor e o seu barbeiro num recanto da antiga igreja, não terão constituído nenhuma heresia. Herético, seria, ao tempo, apenas o livre pensamento – sempre perseguido em todos os espaços pelo despotismo sem qualquer esclarecimento – como lhe é inerente, aliás.
crónica laboral (III) … abril dos trabalhadores no “museu da politécnica”
“Acorda!! levanta-te que há merda no beco!…” Foi com este ditame em tom perentório e impositivo que o “velho leão” me entra quarto dentro e abre o estore da minha janela para que a luz da manhã me acordasse de vez. Não sabíamos, mas era a luz da dignidade que naquele dia entrava casa dentro para nos iluminar a existência. Lá fui percebendo pelo noticiário que a velha telefonia ia debitando entre andamentos militares, que tinha havido um golpe militar para derrubar a ditadura, que se recomendava que as pessoas não saíssem de casa e nós lá fomos a correr, com toda a pressa, direitos ao centro de Lisboa onde tudo se estaria a passar.
Foram dias de manifestação intensa. Na “politécnica”, por todos aqueles dias e meses que se seguiram ao dia histórico, viveu-se a particular experiência de reunião dos seus “habitantes”, para usar a expressão de então, e a singular organização de base ampla e inclusiva que não deixava ninguém para trás e que a todos nos impelia a falar uns com os outros. O direito de opinião e decisão que antes cabia em exclusivo a uma elite de Professores e Doutores passou a pertencer a todo o “colectivo Politécnica” através de assembleias gerais e representações paritárias dos respectivos corpos. As coisas da gestão e da política da “casa”, passaram também a dizer respeito a todos, e neste todos incluem-se todos os que até então estavam excluídos da abordagem destes assuntos. Naturalmente que este tipo de processos participativos implicou aprendizagens (sobretudo da democracia), mais autonomias e trouxe responsabilidades acrescidas a cada um dos membros do corpo de trabalhadores. Já não estávamos ali apenas para prestar um serviço e receber um salário. Reivindicar as melhores condições de trabalho, discutir a missão e participar na definição de objectivos da “casa”, acarretou a adesão generalizada aos princípios desenhados e empenho maior na sua realização. Mais do que funcionários passámos a ser pertença daquele colectivo e agentes do seu querer. Foi mais ou menos assim até a reforma das legislações devolver o poder aos académicos e os restantes funcionários ficarem contidos nas suas tarefas. Mas ainda foi havendo sindicatos…
E, na realidade, os sindicatos enraizados e organizados na massa de trabalhadores, foram ao longo do tempo importantes baluartes da dignidade do trabalho. Dada a dispersão dos trabalhadores pela unidade Museus/Faculdade de Ciências/Centros de Investigação/Instituto Geofísico, num tempo em que a comunicação social e sindical era feita sobretudo em papel ou presencialmente, a distribuição de um comunicado era sempre morosa, constituía uma experiência em si, para além do estrito acto de distribuição de papel com recados inscritos. Era, na realidade, um pretexto para o estabelecimento de uma relação, para ouvir os trabalhadores, abrir um debate, propor uma atitude activa e de não conformismo que poderia culminar nas reuniões plenárias ou de delegados sindicais em propostas de acção ou de adesão a movimentos mais amplos de luta e reivindicação por melhores condições de vida e trabalho da função pública no seu conjunto. Daí também a sua importância como uma acção que visa transformar.
As expressões políticas que se manifestavam tanto ao nível da reivindicação política como social, nas grandes movimentações sociais que então tinham lugar em Lisboa como por todo o país, reflectiam-se também nos debates “caseiros” e informais, nos gestos e atitudes dos quotidianos do museu. Democratas seriamos todos (ou passámos a ser) mas a democracia – o poder do povo – era conceito que não tinha o mesmo significado para toda a gente. A Câmara Corporativa ou a Assembleia Nacional do Estado Novo não eram exemplos a seguir e, neste debate também interno, uns estariam mais próximos de uma democracia representativa com mais vocação para a eleição de rumos e decisores através do voto, outros, seriam mais sensíveis a uma democracia de maior participação popular, que, para além do parlamento, se exprimiria também nas comissões de trabalhadores, comissões de moradores, na mobilização e organização de comissões ad hoc para a resolução imediata e urgente de diversas carências e problemas candentes, mais em consonância com o momento revolucionário. Foi um debate que, de algum modo, se vai esgotar na redação da Constituição aprovada em 1976 e no perfil das instituições que lhe sucedem de acordo com a nova ordem constitucional, pautando ainda alguns gestos de articulação do poder representativo parlamentar com o poder popular que nalgumas situações particulares se vai prolongando no tempo.
No museu, a reprogramação da sua actividade, a elaboração detalhada de um novo programa expositivo e a realização de obras estruturais no velho edifício da Politécnica, foram as primeiras consequências da acção do Estado revolucionário. Dando sequência e concretizando projectos adiados e ambições que já vinham de tempos anteriores, foi construído um novo piso em cave onde foram montados laboratórios e instaladas, em condições adequadas, as reservas do museu. Ao nível do piso 0 foram feitas melhorias estruturais, preparados espaços expositivos definidos pelas paredes mestras do edifício, e, num dos seus amplos salões, foram instalados os gabinetes dos investigadores.
Para nós, “pessoal da ferrugem”, aquele salão pintado de verde onde residia o pessoal de investigação, passou a ser designado por “Casa Verde”, como o hospício na peça de Machado de Assis, que então tínhamos visto, creio que numa série da TV. Era uma analogia direta àquela história já que, para nós, o pessoal científico era uma gente “diferente” que revelava ideias e atitudes diferentes de tudo ou quase tudo o que vivíamos nos diferentes espaços que habitávamos. Talvez por se considerar que só pensassem na ciência ou por expressão de uma posição de classe, creio que julgámos, convictamente, que umas vezes estariam desfasados do mundo, outras do tempo em que vivíamos e noutras circunstâncias e situações acabávamos por facilmente considerar que os desajustados eramos nós próprios.
“…de um Partido, eu? Sou independente de esquerda!” assim se ouvia proclamar na voz de um trabalhador científico, do quadro do museu.
“Independente, ele?! isto anda tudo doido…”, dizia-se entre nós, muitas vezes nos remates de conversa. Mas talvez fosse apenas expressão de um desencontro entre individualidades e colectivos, isto é, entre os que assinam com o próprio nome, reflexão e conhecimento sobre as coisas da ciência e da natureza, e nós, que noutras naturezas cabemos, integrantes da entidade colectiva de apoio à produção do saber nos laboratórios, nas secretarias, no campo, no volante do jeep, nas bibliotecas, na portaria, na limpeza do chão ou onde quer que fosse, reivindicando, como assinatura, uma denominação própria que não fosse menos que “trabalhadores técnicos, administrativos e auxiliares”. Também poderia ter sido apenas “trabalhadores de museu”, mas ainda não tínhamos descoberto a importância dessa particular identidade.
crónica laboral (IV) … A Associação dos Trabalhadores
A livre associação de trabalhadores teve expressão e crescimento notável em todo o “campus Ciências”, naqueles primeiros anos que se seguiram ao 25 de abril. E graças a militâncias dedicadas sobre estruturas profissionais, prolonga os seus efeitos e realizações até aos dias de hoje. Reconhecida a liberdade de opinião e expressão, libertos da ameaça de coação ao exercício da sua cidadania, os trabalhadores, logo desde o início da experiência democrática, começam a ter voz e assento nos órgãos académicos, vão alargando progressivamente as suas alianças e cooperação entre diferentes classes profissionais que se vão refletir tanto na manifestação ou realização de acções de contestação, como na produção de iniciativas conducentes a melhorias nas suas próprias condições de trabalho, satisfação de necessidades objectivas e de aspirações sociais. Por iniciativa própria vão sendo criados, no interior deste organismo público, cooperativa de consumo, bares e refeitórios, classes de ginástica, realização de exposições e outras manifestações culturais, posto médico… para além da sua missão como escola e produtor de ciência, o “espaço ciências” passou também a ser expressão da iniciativa de todos os seus “habitantes”.
Hoje, a Associação dos Trabalhadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (AT-FCUL) é (formalmente) um Centro Cultural em observância aos estatutos do INATEL. Em termos históricos, a AT-FCUL é criada em 1986, no “Complexo Politécnica” e sucede à antiga Comissão de Trabalhadores (CT) que devido a constrangimentos legais (proibição de comissões de trabalhadores na função pública) evolui para uma estrutura mais ampla e aberta que reúne todos os corpos de trabalhadores do universo FCUL, onde se incluíam além da própria faculdade, os museus, centros de investigação científica, Institutos e associações. Assim, é constituída formalmente como uma associação plural que integra todos os trabalhadores docentes e não docentes, técnicos, investigadores, bolseiros… independentemente do vínculo, mas com uma relação estreita com Ciências.
A promoção do desporto, cultura, lazer, recreio foi vocação primeira, mas, ao longo dos anos, foi alargando a prestação de serviços aos associados, como as consultas de medicina geral, nutrição, entrega de medicamentos… E apesar da dimensão do seu empenho, esta organização não se reduziu a uma mera prestadora de serviços. É importante salientar que a associação de trabalhadores foi sede de uma das experiências mais intensas e interessantes da participação democrática e cívica do trabalho na vida da Universidade, através da FCUL e dos seus organismos anexos (museus…). Tenho muito presente a memória dos intensos debates internos que neste processo tiveram lugar, em particular nos primeiros anos, no sentido de agregar os trabalhadores docentes e não docentes numa plataforma de defesa dos seus interesses comuns, no evitar rupturas que poderiam ameaçar o projecto, garantir equilíbrios políticos na tentativa de uma intervenção participada e adequada da associação enquanto parceiro social na estrutura da instituição.
Umas vezes de forma mais afoita, outras vezes mais prudente, procurou-se sempre interpretar o interesse dos trabalhadores na sua globalidade, e defender o edifício social que estava a ser construído. Dar voz e libertar a imaginação a favor de propostas e ideias novas, humanizar o local de trabalho, promover diálogo social, promover e incentivar uma acção solidária, dignificar a vida e condições de trabalho, dinamizar programas de animação da cultura técnico-científica… foram objectivos e linhas de conduta esclarecida que envolveram docentes, não docentes, técnicos, “pessoal da ferrugem” e todos os que para além do seu estatuto e participação se iam revendo neste movimento… um movimento feito de afectos e solidariedade.
crónica laboral (V) … Fénix museum …
O desastre de 78 (Incêndio de 18 de março de 1978) que atingiu o edifício da Faculdade de Ciências de Lisboa, onde também estavam instalados Museus e Laboratórios, Institutos e Centros de Investigação, foi a expressão maior da idiotice e loucura fascista naquele lugar, que se manifestou através de um atentado contra a Associação de Estudantes. Resultou num incêndio que atingiu os fundamentos de tudo o que até aí se considerava sólido e perene.
Como foi possível que a casa guardiã de um tão importante património histórico-natural levasse um tiro com uma capacidade destruidora tão grande? Tinha havido avisos dos bombeiros do perigo de incêndio, fundamentados em avaliações técnicas (!), havia orçamentos para se proceder à instalação dos sistemas de proteção; só não havia decisão política ou talvez suporte financeiro, para definir estes investimentos como uma prioridade. E, na verdade, a noção de património também ainda não tinha chegado aos testemunhos da natureza ali residentes que seriam considerados apenas como objectos históricos ou científicos. E os museus, seus supostos cuidadores, também não tinham qualquer poder, visibilidade, autonomia, ou até vida própria capaz de afirmar esse património. Funcionavam como estruturas de apoio técnico-científico às respectivas secções da Faculdade e, ainda, como seus patrocinadores através dos próprios orçamentos, meios técnicos e trabalho. Culminaram naquele incêndio décadas de declínio e degradação que instituíram a precariedade como a nossa condição e cultura.
Sentimo-nos ofendidos enquanto guardiões do património do povo e ameaçados, enquanto funcionários, pelo perigo de extinção daquele organismo com o fraco estatuto de estabelecimento anexo. Por isso seria necessário começar tudo de novo e com essa atitude participámos no salvamento e recuperação do que fosse possível salvar e recuperar, na reconstrução, no “arrumar da casa” e no debate sobre o que poderia ser um novo projecto museológico mesmo sem se saber muito bem o que poderia ser e para que serviria um museu, na realidade. Na sequência do 18 março – o incêndio na “Faculdade de Ciências” – desencadeiam-se sucessivas movimentações dos naturalistas e ganha força a ideia de separação orgânica e funcional dos museus em relação à Faculdade. Nesta missão, a de ousar um novo projecto, construímo-nos como um novo colectivo, parceiro na visão e nas responsabilidades, ficando implícita uma adesão do “pessoal da ferrugem” ao museu que teria lugar no futuro, mas que não sabíamos como seria, nem se seria.
Foi necessário reinstalar a Faculdade, recuperar o espaço físico do museu e, na sequência da legislação entretanto vigente, reformar toda a sua estrutura funcional. A própria aplicação da lei pelas universidades (reforma de quadros e carreiras na Função Pública – 1980), implicou vencer resistências de vulto e só se concretiza na sequência de um importante movimento reivindicativo a reclamar a aplicação da lei (!!), com greve e manifestações às portas do Ministério da Educação e da Reitoria da Universidade de Lisboa. O início do desbloqueamento deste processo fica marcado pela reunião dos representantes do sindicato e dos vários organismos da universidade com a hierarquia universitária onde também se incluía o reitor e o administrador. Com o amplo gabinete reitoral repleto de gente convocada para aquela reunião, o reitor Rosado Fernandes, chamando a atenção de todos, encosta-se à porta barrando a saída e, fechando a porta à chave, guarda-a no bolso com solenidade, proclamando que aquela porta só se voltaria a abrir quando ali se chegasse a um acordo. E acabou por chegar! Não havia já grande debate para fazer e o administrador, cercado e vencido neste combate pela nova legalidade, pela luta do trabalho e abandonado pelo gesto do reitor, acaba por ceder.
O período que se seguiu foi marcado por um exaustivo trabalho de diagnóstico feito serviço a serviço e de reorganização de toda a estrutura funcional da UL, no respeito da lei e na adequação das funções de cada um ao estatuto profissional e remuneratório correspondente. Foi um processo de participação notável que nos fez sentir parte de um todo e também responsáveis pelo novo futuro que a partir dali iria ser construído. Ao nível do nosso organismo – o MLMG – esta acção é realizada sob uma direcção interina (Liliana Póvoas) e, conjuntamente, reorganizámos, de forma exemplar, o nosso velho museu e laboratório.
Nesta linguagem de participação e intervenção social em que todos nos entendemos, houve sempre quem tivesse acção política fora do âmbito profissional (e para além dele) tanto em áreas de residência, como em movimentos sociais mais amplos e de participação associativa que nos alimentava o empenho e acrescentava experiência e esperança apesar de alguns contratempos.
Havia muitas outras dedicações talvez menos explícitas e não menos importantes. Na realidade, cada um de nós partilhava uma cor política diferente, mas todos, por via dessa experiência individual, tínhamos sentido do colectivo, noção de organização e de dedicação a causas, como ficou expresso ao conduzirmos a nossa atitude profissional a favor do museu enquanto causa comum. E organizados em plenário, ou à mesa, debatendo, planeando e decidindo o modo de realizar e produzir, de algum modo também nos confundíamos com a entidade museu enquanto organização. Paralelamente e ao longo do barulhento restauro do edifício nas suas linhas mestras fundamentais, restaurava-se também o seu colectivo na experimentação de uma nova praxis e pela disponibilidade para a aquisição de novas valências técnicas e académicas por alguns dos seus membros. História e Filosofia da Ciência, Museologia, Sociomuseologia, Património…, foram novas áreas de conhecimento que foram contaminando o substrato ideológico que o colectivo transportava ao pretender-se concretizar uma relação entre as ciências da Terra de vocação do museu e o contexto social em que o museu se insere…
Não chegámos a pôr um estandarte identitário à porta do museu, mas na intimidade da minha estante tive uma discreta bandeira vermelha a tentar inspirar-me os dias e a instigar que a mantivesse bem alevantada nos meus gestos. Durante o breve período de transição entre uma direcção colegial e a de um director único, a direcção interina do museu esteve tão próxima do trabalho que chegámos a considerar que estaríamos num ensaio de autogestão. Foi uma experiência de “democracia directa”, se assim se puder dizer, que nos fez sentir responsáveis por nós e pela instituição, mas também pela própria figura de quem ocupava, naquele momento, o lugar de direcção, então assumida por uma jovem investigadora do quadro, mas com uma responsabilidade maior. Arrumada a “casa”, entra uma nova direcção com vontades disciplinadoras, mas os conflitos fundamentais estavam resolvidos e as ideias de futuro eram bem mais mobilizadoras.
crónica laboral (VI) … por um museu de história natural
A ideia de museu de história natural esteve sempre presente entre nós, trabalhadores dos “museus da Politécnica”, e nas nossas hierarquias e tutelas mais próximas, mas sem grande unanimidade na sua definição. Naturalmente que entrámos nesse debate e interviemos criticamente no processo de elaboração de estatutos (1992) que iam sendo desenhados pelas direcções dos três “museus e laboratórios” correspondentes às áreas disciplinares que viriam a integrar e estiveram na origem daquela entidade.
As referências que levámos para esse debate foi a própria experiência que vivemos no MLMG, em particular sob a gestão Galopim de Carvalho, desde 1983, com a política de “abrir a porta” em conclusão da fase “pós incêndio”. Invertendo a condição de “colonizado”, o museu passa a utilizar o saber científico produzido e veiculado pela FCUL na produção de quadros, como instrumento da sua acção de dinamização cultural e promoção da cultura científica. Poderíamos dizer que o saber “fechado” na “torre de marfim”, a que apenas uma elite teria acesso, passou a estar disponível e acessível a qualquer cidadão através da porta que o museu estava a abrir.
Considerámos então que a elaboração de um Estatuto para o Museu Nacional de História Natural não deveria ser encarada apenas como um mero acto administrativo na sequência da aplicação da recente lei da Autonomia Universitária. Neste quadro, esperar-se-ia que o Estatuto que viesse a ser aprovado iria, irremediavelmente, condicionar por muito tempo a vida e o perfil da instituição, devendo obrigar, por isso, a cuidados especiais na sua elaboração. Mas nem todos os cuidados coincidiram com os manifestados na redação do projecto de estatutos entretanto elaborado pela hierarquia. E reagimos! É o próprio director, Galopim de Carvalho, que toma a iniciativa de fazer chegar a nossa crítica ao conselho científico da FCUL, a quem cabia aprovar o documento final. A primeira questão de princípio a respeitar era que aquele “Estatuto” deveria reflectir o debate iniciado com o 25 de abril, a implantação da gestão democrática e a definição do futuro e missão dos “Museus da Politécnica” com carácter democrático na forma e na essência. Partilhando a opinião de que cabe à museologia uma intervenção activa nos processos de transformação social, económica e cultural, em linha com os documentos editados pelo ICOM – 1989 (Conselho Internacional de Museus – UNESCO); considerando que mesmo num museu tradicional, como seria o caso do velho Museu Nacional de História Natural, ser gerador de cultura, ser um meio de comunicação, não é nunca um processo neutro, tendo a ver, neste caso, com o papel da Universidade na sociedade e com a própria atitude de cada um de nós como cidadão e parte da organização.
Tínhamos entrado nos anos 1990, estávamos a reconstruir um Museu, sentíamos autoridade para ter a ambição de ter altos objectivos a atingir, para além do Museu como um fim em si mesmo. E, nesse sentido, questionava-se a quem deveria o museu servir e quais os contornos da sua intervenção social, enquanto organismo da Universidade. Considerou-se que o Museu teria sentido se integrado, de facto, no tecido social, não como um furúnculo, uma elite, uma vanguarda, ou um marginal (…) mas reflectindo e respondendo a espectativas e necessidades, participando na vida social com a contribuição da memória e conhecimento do planeta, como uma referência e um instrumento na construção do presente e futuro comuns. A proposta era ter a comunidade como razão e objectivo na produção do discurso do museu perante as inquietações do tempo, em vez de uma apresentação para o respeitável público que viesse a pagar um ingresso para, no museu, apenas visitar peças avulsas por muito extraordinárias e impactantes que pudessem ser.
Citando ainda o projecto de estatutos, que referia o mundo natural em violento declínio, considerando que a colecção talvez fosse “o único meio de transmitir aos vindouros o testemunho do habitat em que se desenvolveu a vida e a humanidade” permitia-nos deduzir que o projecto que se escondia para o novo Museu Nacional de História Natural, se referia, afinal, à construção de um novo túmulo da Biosfera, bem arrumado e asséptico, um espaço onde noutros tempos apenas entravam sacerdotes e iniciados e onde o público passaria a ter um lugar porque, em última análise, é quem sustenta a construção e as acções de todas as catedrais da RAZÃO.
Considerando que seria uma perspectiva passadista a projectar-se no futuro sem ter em conta o que já estava a acontecer naquele presente alargado desde os anos 1970, no que refere à conservação in situ, criação de Parques e Reservas Naturais, o trabalho das Ligas para a Proteção da Natureza e as lutas de todas as associações de defesa do Ambiente, questionava-se:
“O Museu não tem nada a ver com gestão de recursos naturais? Não deve também influir através dos meios e no âmbito que lhe é próprio na definição de um modelo de desenvolvimento? Ou é indiferente que a chamada civilização se harmonize com a natureza ou, pelo contrário, continue a agredir o ambiente até que não haja vindouros para ver as colecções que hoje preparamos?”
No que refere ao projecto de organização e estrutura funcional reivindicava-se que sendo o Museu Nacional de História Natural um organismo da Universidade de Lisboa, deveria prever uma forma de gestão democrática que respeitasse as regras fundamentais da gestão democrática universitária e que não se viesse a “constituir como um feudo do passado. A sua condição de Museu não o obriga a preservar tudo! Por outro lado, e tendo em conta que os trabalhadores do Museu deverão ser militantemente devotados à causa e acção museológica é fundamental para atingir esta qualificação, que o Museu se organize de maneira a assegurar a maior participação dos seus trabalhadores nas tomadas de decisão”.
Propunha-se, por isso, uma direcção colectiva, com membros eleitos pelos seus pares, e uma outra definição dos vários sectores da estrutura organizativa do museu que estava a ser prevista naquela proposta de novos estatutos para a reedificação do museu nacional de história natural como um todo. As posições expressas não terão tido grandes consequências na redação final dos estatutos, mas são reflexo de uma atitude e da voz que era dada aos trabalhadores pela direcção. Estávamos em 1992, nas vésperas da experiência de uma “museologia de massas” iniciada com a exposição “Dinossáurios regressam em Lisboa”. Foi um sucesso que muito nos surpreendeu (não imaginávamos que uma adesão assim, alguma vez tivesse lugar), mas que também nos redimiu de todas as insuficiências e incapacidades inerentes à condição e estatuto de trabalhadores polivalentes e pouco especializados naquele discreto organismo universitário.
crónica laboral (VII) … da organização museu a uma museologia de massas
A investigação científica foi, tradicionalmente, a actividade estruturante da missão e do modelo de organização dos velhos “Museus e Laboratórios”, enquanto secções do Museu Nacional de História Natural e como estabelecimentos anexos à Faculdade de Ciências. Esta actividade enquadrada (e tutelada) pelos respectivos departamentos (ou secção) da Faculdade, desenvolvia-se tanto através de projectos próprios como participando em projectos sediados noutros organismos. Assim, toda a estrutura organizacional era encimada por um quadro de investigação com investigadores “residentes” a que normalmente se associavam investigadores externos e Professores, da própria Faculdade. Na base desta estrutura estavam os laboratórios, biblioteca e outros serviços auxiliares. A museologia, enquanto área de pensamento operativo e integrador, não era contemplada na estrutura formal da organização. A museologia das ciências que se ousou praticar foi um exercício decorrente das opções ideológicas dos seus quadros e realizado em ambiente de autonomia e cidadania.
As primeiras exposições, no “pós incêndio”, tiveram lugar em 1984, num discreto átrio do museu, com chamada de atenção aos estudantes que iam passando para a cantina universitária. Uma ou duas vitrinas com fósseis ou minerais, temas precisos tratados com auxílio de painéis e fotografias, catálogos, a par de programas de debates, palestras, sessões públicas de divulgação científica, mereceram alguma atenção e curiosidade. Depois, foi a passagem para espaços mais amplos, salas de exposição no tosco que fomos aprendendo a utilizar; a criação de um serviço de extensão pedagógica, e um programa dedicado a grupos escolares em que o tema “dinos” era sempre o mais solicitado.
Contrariando tudo o que ali até então era tradição, foi uma provocação audaz este “abrir a porta”! Como aliás, era propósito da direcção Galopim de Carvalho, mas, de certo modo, foi também uma reação contra um certo estado de indefinição que então se vivia. Nem o edifício estava completamente recuperado, nem era absolutamente certo que se fizessem os necessários investimentos para que voltasse a ser museu. E neste gesto de abertura da porta apontado pela nova direcção, também muito se envolveu com esperança, motivação e empenho todo o corpo de trabalhadores do museu.
Criado o interesse pelas temáticas e a atenção às iniciativas do museu, fomos assistindo a um crescendo de adesão às propostas expositivas e de eventos diversos que iam sendo produzidos. Na sequência de um acordo de colaboração com o Natural History Museum, foram realizadas no museu, em Lisboa, as primeiras grandes exposições com modelos de dinossáurios robots. Acorreram milhares e milhares de visitantes, em números record, atraídos pela novidade. Percebemos então que tínhamos criado um público do museu com as iniciativas anteriores. Não era exactamente o fóssil do dinossáurio que as pessoas queriam ver, era, sobretudo, a imagem tridimensional de uma natureza extinta e, talvez por isso, fascinante. A confiança naquela representação era dada pelo próprio nome do museu e da Universidade da sua pertença. As pessoas confiaram na ciência que ali residia e estava por detrás daquelas reconstituições.
Outras iniciativas se sucederam no âmbito desta colaboração com produção de outro tipo de exposições para além dos robots. Aprendemos também o suficiente com a experiência e a avaliação sucessiva dessa experiência, para ter iniciativa e produção própria de outros projectos arrojados. Beneficiando do alargamento crescente da audiência do museu foi possível arriscar a produção de exposições de grande dimensão no investimento e realização, expondo ciência própria decorrente dos processos de investigação científica e da recolha de objectos científicos e patrimoniais praticados pelas equipas científicas do museu.
E destas realizações talvez tenha significado maior, para além do conhecimento científico produzido, a mobilização de uma opinião pública a favor da necessidade de proteção do património natural de forma geral, ou como no caso particular da luta pela preservação de uma pista pegadas de dinossáurios, entretanto descoberta, que obrigou a uma tomada de posição do parlamento a favor de uma recomendação ao governo no mesmo sentido.
Este interesse social pelo tema, muito contribuiu para a viabilização do financiamento de projectos de investigação científica na área da paleontologia de vertebrados, com sede no museu. Esta situação permitiu que se reunisse de forma articulada e coerente, um processo global que envolveu produção de ciência; identificação e proteção do património natural; comunicação de ciência e do património – como então reconheceu (e salientou) o ministro da ciência, Mariano Gago, na inauguração de uma dessas exposições exclusivas do museu, no caso a exposição “Allosaurus” (já em tempo da direcção de Fernando Barriga).
Foi este o processo mais bem sucedido na concretização desta experiência que ultrapassando muitas insuficiências e debilidades da estrutura e organização museu, acabou por não as conseguir eliminar.
crónica laboral (VIII) … “museu da politécnica” – eventos & reflexões
Foram muitas as iniciativas de produção e divulgação de ciência, de promoção de literacia científica e de mobilização da opinião pública a favor da proteção do património natural. Naturalmente que nesta onda de iniciativas desapareceram formalidades, hierarquias sociais, hierarquias de direcções intermédias e, para alguns de nós, desapareceram também os horários de trabalho. Passámos a estar em contínuo no serviço do movimento e, de algum modo, poder-se-á dizer que pagávamos com tempo e trabalho os projectos que fomos ajudando a inventar e a política que queríamos ver cumprida. Em tarefas extra que exigissem a mobilização de um grupo alargado de trabalhadores, a direcção das “operações” era atribuída ad hoc em função da natureza do trabalho e dos saberes e habilidades de cada um para além dos seus quotidianos laborais. Essa direcção ad hoc extinguia-se com a realização da tarefa. Aumentava-se, por esta via, a eficiência diminuindo o esforço físico e aprendíamos uns com os outros. O Professor Galopim foi alma e rosto do museu e também desta maneira de ser museu em colectivo. “…vamos fazer uma vitrina…” e, seguindo-o com olhar desconfiado, aprendíamos com ele novas habilidades de marcenaria e outras técnicas afins.
Aprendemos também com ele a dizer “vamos fazer” em projectos que nos coube dirigir. O trabalho em equipa potenciava e superlativava as competências técnicas individuais, dava expressão e sentido de corpo ao colectivo, garantindo sempre maior capacidade de concretizar projectos e objectivos. E, claro que muitas vezes, também cúmplices pela noite dentro a montar uma exposição ou uma “feira de minerais”, onde se misturava pessoal de investigação e pessoal da “ferrugem”. Um curso superior para bem limpar vidros das vitrinas, reclamava-se. O director agarrado ao aspirador a dar um último toque no espaço e uma feijoada na Ribeira pela madrugada, era um final recorrente. Muitas vezes, só tínhamos tempo de ir a casa tomar banho e mudar de roupa. E já nem vou falar das noitadas a colar cartazes de promoção das feiras de minerais ou a montar vitrinas de promoção do museu e das suas exposições, nos grandes centros comerciais de Lisboa.
O grupo GEO do Museu Nacional de História Natural foi um colectivo “faz tudo”, e se este voluntarismo decorria muito do facto de termos voz nos objectivos e missão da “casa”, também é verdade que nos obrigava a reflectir sobre o sentido de todo aquele esforço.
Estas feiras internacionais de minerais, gemas e fósseis (assim foram formalmente denominadas) que o museu organiza desde 1988, como um expediente para a reconstituição das suas colecções mais afectadas pelo incêndio de 1978, ganharam rapidamente o “estatuto” de “festa do museu”. A partir da definição das suas regras de funcionamento, a “feira” vai assumir-se como um espaço de mediação entre a dimensão social que o museu perseguia, o conhecimento científico em geologia e os processos de patrimonialização em que se define o que deve ser público e o que poderá permanecer na esfera do privado. A capacidade de atração de visitantes e o interesse do público, motivou a organização de diversas acções de divulgação de ciência, no âmbito da feira, em articulação com o tema escolhido para cada uma das suas edições – pequenas exposições, palestras, e mais o que se julgasse adequado.
Mas constituiu também um alvo importante dos estudos de públicos do museu e de uma reflexão sobre a própria museologia que praticávamos. Esta inquietação levou a que paulatinamente alguns de nós se tenham aproximado de uma reflexão académica em museologia e em história e filosofia da Ciência.
Nestes processos, mais amplos do que a própria feira, foram atraídos novos amigos, novas competências, a oportunidade de participar em projectos de outras áreas disciplinares como no caso do projecto CulturaNatura (CICTSUL) dirigido por Ana Luísa Janeira e, ainda, um projecto de investigação na área da sociologia da ciência sobre “museus, públicos e literacia científico-tecnológica” dirigido por Pedro Andrade.
A vivência dos dias da feira fez-nos também aproximar dos “amantes das pedras” que estão entre públicos que nos visitam (muitas vezes só para ver o brilho das pedras…), e entre os próprios feirantes (ou expositores como preferem ser tratados) que escapam bastante ao perfil do comerciante comum. O Luís Leite que nos trouxe a ideia e os amigos, tantos outros colecionadores e comerciantes em mineralogia que foram chegando em anos seguintes, dando forma e identidade à feira. Muitos começaram por ser colecionadores e mantêm o “vício” de ir para o campo apanhar pedras … um desses, o Marcos António, entusiasta das coisas da natura e homem do “Oeste”, na sua primeira participação na feira como expositor, fica num espaço menos acessível e apresenta na sua banca um conjunto de peças interessantes do ponto de vista científico, mas pouco atractivas para o público visitante da feira. Fui dando conta de que não estaria a vender nada e com a preocupação de que ele não estivesse a realizar o suficiente para pagar o seu direito de participação como feirante, perguntei-lhe solidariamente se a feira lhe estaria a correr suficientemente bem.
– Fantástica! diz-me ele. “Não poderia estar mais contente. Venha daí! Venha cá ver as peças que eu já comprei para as minhas colecções…”
crónica laboral (IX) … “museu da politécnica” – sítios & movimentos
Em 1992 tem lugar, em Madrid, o I Congresso Mundial de Colecções de História Natural. Enquanto organização museu, a nossa participação decorre de uma reflexão e intervenção de uma forma de ser museu que ia sendo construída na relação com a sua envolvente social. Para nós, este grande encontro, foi o reconhecimento de uma comunidade internacional de que também nos sentíamos parte. Esta reunião dá-nos uma imagem da extensão e dimensão das questões e problemáticas envolvidas nesta temática, da natureza dos interesses contraditórios entre “norte” e “sul”, da multiplicidade de problemas e experiências que resulta em oportunidade de formação e o gesto de uma recomendação do plenário dirigida ao governo português no sentido da preservação da pista de pegadas de dinossáurio (Carenque) por que o museu tanto tinha lutado, entretanto ameaçada pela construção de uma autoestrada.
As lutas pela patrimonialização e preservação de bens geológicos in situ, foi-nos colocando progressivamente perante uma nova problemática e leva-nos a debater e a produzir, propostas como a de um “novo museu para uma nova colecção” que vem a ser apresentada em Cambridge (1996), na segunda edição deste Congresso, ou a expressão museológica contida nas propostas “exomuseu…”, apresentadas em diversas reuniões e congressos por Galopim de Carvalho (1998) ou ainda os “…memória da Terra…” que Liliana Póvoas apresenta em Congresso Nacional de Geologia e noutras reuniões. Creio que o conjunto destas propostas terão constituído novidade e um importante contributo do museu, no quadro da sua vocação social, da sua história e da sua identidade. Talvez tenha sido também a aproximação mais conseguida, em termos de projecto e conceito, daquela “organização museu”, aos nossos valores e ideais neste campo.
No essencial considerava-se que preservando in situ e mantendo aqueles bens patrimoniais em contexto próprio, se facilitaria o acesso do público, permitindo diferentes leituras do espaço; se preservaria a investigação científica do futuro; implicaria a introdução de valores culturais nos processos de ordenamento do território e desenvolvimento local; permitiria um acesso mais fácil a uma reflexão e debate sobre o que são recursos naturais… entre alguns outros aspectos que poderão ser considerados. Estas preocupações tiveram consequências directas na concretização de projectos de preservação (e musealização) de património geológico in situ com o envolvimento técnico e científico dos quadros do museu, como aconteceu nos casos das “Pistas de pegadas de dinossáurio” em Carenque (Pego Longo) e nas serras de Aire e Candeeiros (Pedreira do Galinha), na concepção e acompanhamento da concretização do Museu do Quartzo (Viseu) ou ainda na identificação e definição de Geomonumentos das cidades de Lisboa e também de Évora, para referir algumas das realizações, talvez as mais significativas.
O desenvolvimento de todos estes movimentos leva-nos a questionar permanentemente o papel do museu e a definir uma linha de acção que passou por alargar a comunicação da história da Terra e da Vida para fora das suas paredes, e a sua acepção como um instrumento de reflexão sobre as grandes questões do nosso tempo, contrapondo racionalidade e factualidade a uma visão mítica dos fenómenos naturais.
A museologia que procurámos interpretar centra a sua acção no visitante, no utente e na população, em particular. Esta deriva de atenção da “peça” ou do “objecto património” para as pessoas que visitem, utilizem ou que nem sequer vão ao museu, constituiu uma verdadeira revolução na concepção de museu, conectada com práticas aparentadas do que se veio a chamar de uma “museologia nova” e com um “carácter social” não assumido por sectores mais conservadores. No essencial, tratou-se de transformar o “museu vitrina”, tipo montra em centro comercial a contar o número de visitantes, em organização dedicada à acção cultural a partir dos patrimónios a que se refere e de que é guardião.
Fizemos esta evolução no museu de história natural ao querer continuar a funcionar apesar do incêndio de 1978 ter destruído uma parte importante do património ali guardado. Passou a ser dada uma atenção maior ao que se comunicava e ao modo como e com quem se comunicava. Perante a indisponibilidade de condições para a apresentação de peças, o património comunicado era o conhecimento científico que a presença das peças poderia ilustrar. Tornar isto eficaz implicou a necessidade de se conhecer quem estava a ser “atingido” pela comunicação do museu (através de estudos de públicos), e a adequação do discurso aos diferentes públicos-alvo que foram sucessivamente sendo identificados. Considerou-se num primeiro momento que seria de investir na elevação da literacia científica e na divulgação do método científico. A evolução desta atitude trouxe especialistas que se disponibilizavam para, de forma acessível a todos, comentar e explicar fenómenos naturais que iam acontecendo no dia a dia, e ser palco de debate público sobre algumas questões de âmbito ambiental. De algum modo poderemos considerar que em momentos precisos, o museu passou de um mero emissor de mensagens a ser também um canal de comunicação nos dois sentidos. A intervenção institucional era pelouro exclusivo do director, ia desde a comunicação social à relação com as autarquias, dos organismos académicos às instâncias governativas, passando ainda por associações (cívicas, ambientalistas e até socioprofissionais) e mesmo empresas. E, muito pela intensidade desta intervenção, o museu conseguiu ter a visibilidade que teve.
Isto hoje já é prática comum, mas fazer isto nos anos 1980, 1990… foi uma ousadia. Ouvi catedráticos dizer que esta atitude de abertura ao público, era abastardar a ciência. Enfim, na sequência, fomos deixando cair alguns conceitos de museu e abrindo os ouvidos a outras maneiras de ser museu. Diria que nesta atitude o que foi determinante foi uma permanente abertura à novidade. No quotidiano de funcionamento, exposto em “relatórios de actividade” sucessivos, ano após ano, fomos registando a reforma da missão do museu e a forma de a concretizar. Como da tutela ninguém nos ligou ou questionou, assumimos, com a maior das tranquilidades, a liberdade de continuar a fazer o que nos ia parecendo mais inovador, estimulante, urgente e adequado ao tempo que vivíamos. Foi uma liderança muito particular todo o “período Galopim”. Mas que contou também com o compromisso dos trabalhadores do museu nesta causa, é verdade. Talvez porque não tenham sido apenas “colaboradores” como agora é moda caracterizar o trabalhador, mas porque foram trabalhadores e cidadãos com uma fatia de poder significativo neste processo.
Os trabalhadores, com inerente mobilização de todas as suas competências profissionais e cidadãs, eram chamados a dar opinião sobre o que eventualmente se iria fazer, o modo como se iria fazer e a participação efectiva na decisão de prioridades e planeamento geral de cada uma das acções. Ainda neste contexto, tentámos sempre melhorar a eficiência, avaliando o que se iria fazer e a oportunidade de o fazer, o que se fez e como foi feito, e utilizar esta informação na organização e calendarização dos eventos seguintes. Para além de inquéritos de satisfação chegámos a inquirir os visitantes sobre o que tinham visto. Isto é, quisemos saber se as pessoas estavam a receber (a ler) as mensagens que o museu tinha a intenção de divulgar e se estas tinham (de facto) uma formulação que correspondesse ao que o museu queria efectivamente passar. Isto, desde que fomos admitindo que cada sector do público (ou que cada público) tem códigos de leitura diferentes que podem resultar em percepções diferentes da mesma realidade.
É claro que neste processo beneficiava-se muito do estatuto de autonomia da Universidade e dos estatutos de autonomia dos próprios organismos da Universidade. A única preocupação que não era descurada pelos organismos de tutela e que era fortemente escrutinada, era o rigor do discurso científico do museu. E, por isso, o próprio cargo de director era entregue a um professor catedrático. Neste quadro, claro que os trabalhadores se sentiram sempre parte da organização, mas quando era necessário reivindicar, lutar (ou mesmo fazer greve) pela melhoria das condições de vida e de trabalho, pois claro que lá estávamos.
Entretanto, a tutela universitária acabou por reparar que tinha uns museus à sua guarda e veio pôr “ordem na chafarica”. Ficou tudo mais formal, muito mais ordenado e obediente, o quadro de pessoal muito enxuto e emagrecido e eu, como a maioria dos velhos companheiros destas andanças, devidamente arrumados na reforma, a querer continuar a pensar o museu e a escrever estas coisas…
crónica laboral (X) … “museus da politécnica” – reformas, reformas …
Realizada a grande reforma de 2011 que consubstancia a integração do Museu Nacional de História Natural e do Museu de Ciência da UL nos Serviços Centrais da Universidade de Lisboa como uma unidade especializada (com permissão de usar como denominação de marca “Museu Nacional de História Natural e da Ciência”), o “novo” velho museu, nesta nova expressão organizativa, a pouco e pouco vai alterando também a sua identidade interna. A afirmação da pertença deste espaço à universidade (e a sua integração nos serviços centrais) trouxe um reverso. Trouxe por arrastamento, a expressão burocrática da modernidade e do conservadorismo académico que ali se foi instalando e solidificando, normalizando e centralizando procedimentos, recuperando a seu favor o prestígio de uma organização que nunca foi expressão do brilhantismo burocrático, mas sim da autonomia e dos saberes de ciência feitos, que ali também se produziam. A importante missão de “promover a curiosidade e a compreensão pública sobre a natureza e a ciência e de aproximar a Universidade à Sociedade”, integra objectivos de gestão dos jardins botânicos, património e coleções, e a expressão de eventos e exposições. A investigação científica como (antiga e tradicional) actividade estruturante, não dispõe de nenhuma unidade operativa nesta nova estrutura organizativa.
A esperança que o investimento realizado no início deste processo, ainda suscitou pela breve presença do reitor na direcção da “Politécnica”, era que o grande colectivo museal, através das suas diferentes estruturas, se mantivesse mobilizado para o debate sobre como intervir nas grandes questões do nosso tempo. Mas a ideia dominante que lhe sucede, presente nas estruturas de poder do Estado Universitário, pareceu ser a de garantir a sobrevivência do museu apenas pelo peso e importância das suas colecções de história natural e da história da Ciência. As “contas” que se fizeram no processo de fusão e integração, foram apenas as de “mercearia”, como se deduz. Não resultaram do desenvolvimento de uma experiência que desse lugar à estruturação de uma nova identidade museológica em que o grande património a mostrar fosse uma história sustentada nas suas colecções e a expressão de uma linha estratégica que envolvesse uma história da Evolução, uma história da Terra e da Vida e do modo como este conhecimento foi e vai sendo adquirido.
Esta organização diminui tanto o seu número de efectivos (e consequente capacidade de intervenção), que dá lugar à ideia de que a nova perspectiva organizacional (apesar das reformas e investimentos realizados) seria simplesmente criar as condições para, a prazo, fechar a porta e dar lugar à instalação do tal hotel de charme com vista para o Jardim Botânico, cuja hipótese chegou a ser considerada anos antes! A pouco e pouco, os colectivos tendem a tornar-se virtuais. O território dos departamentos correspondentes às áreas disciplinares passou a ser virtual, deixou de ter suporte espacial físico permanente e refere-se apenas às funções que são inerentes à sua especificidade técnico-científica em investigação e curadoria de colecções.
Entre “troikas”, “covid’s”, “reformas e mobilidades”, manter as bandeiras possíveis e recuar às trincheiras da colecção poderá ser opção adequada. Serve sempre o futuro. E talvez não seja tempo de grandes aventuras, mas cabe aos habitantes do museu de cada tempo, saber interpretar o seu tempo e decidir caminho adequado que possa ser percorrido. Assim ganhem de novo dimensão e corpo, possam dispor de meios e tenham a necessária autonomia. Cabe aos cidadãos o direito e a possibilidade de utilizar o museu e participar na sua actividade. Assim a democracia se observe e efetive na acção.
crónica laboral …MLMG… o espaço sem tempo!
Vencido o primeiro quartel do século XXI, em que quase tudo o que a imaginação nos dita, é passível de se concretizar (excepto talvez, paz e serenidade), ouço nas vozes de um coral, pleno de solenidade e emoção, a alma mística de um requiem lindíssimo que nos reconcilia de angústias existenciais perante a finitude da consciência e da identidade biológica, bem como do desencanto por uma resolução empedernida para a eternidade. Envolvido e inquieto naquele tom e sonoridade, recuo dois séculos, à data da sua composição, e imagino o encomendado. Não porque a encomenda me fosse devida, mas porque é comovente uma cerimónia assim cantada. Fui em tempos “acantonado” na cave do museu e aí me enquadro no espaço que ao longo dos anos fui alargando e adequando à função. Já não me lembro se por ali me abandonei, ou se por mera distração, fossilizei – museum operarius, Lineus, segundo a etiqueta atada ao dedo grande do pé. Devo ter sido condenado. Por uma nesga ainda vejo o Sol à superfície e o movimento tonto das almas andantes e engravatadas. De quando em vez interajo com elas chamando-lhes a atenção com o brilho de uma pedra para depois lhes soprar frio no peito. Algumas ficam inquietas.
Nestas profundidades MLMG (o antigo Museu e Laboratório) vou encontrando outros buracos, corredores, fantasmas vários de diferentes épocas que por aqui se abrigam, junto com outros activos do tempo que hoje vivemos. Somos fantasmas por não termos a certeza de ter realizado a nossa tarefa? Estamos, aliás, todos presos no mesmo refúgio, alguns já cá estão vai para duzentos anos e que bem que atravessam as paredes com a elegância e as rendas da sua época. Vejo o Pereira da Costa (1809/1889) com um olho no príncipe e outro nas coleções que trouxe para a Politécnica a meditar na segurança do sítio para tão importante património científico. Lá estão também o naturalista Jacinto Pedro Gomes (1844-1916) muito atarefado com o seu preparador Leiros de Andrade, na tarefa de reconverter a organização das colecções de Mineralogia de acordo com os então mais recentes sistemas de classificação e os espíritos de Groth, Dana e Dufrenoy, autores de referência em mineralogia desde o século XIX, a observarem a tarefa atentamente; Freire de Andrade (1893-1956) a dar continuidade a estes trabalhos e a alargar e balizar o território expositivo do museu; Pereira de Sousa (1870-1931) sempre na pista dos terramotos a proclamar a importância da edição do primeiro número do Boletim científico do museu; ali bem perto o naturalista Sousa Torres (1876-1958), a organizar as colecções de paleontologia e às voltas com as rochas de Angola e Timor enquanto vai dando uma entrevista ao Zé Moraes (a fazer ciência desta história e das suas figuras) aproveitando também para ir picando o Carlos Teixeira (1910-1982) que faz de conta que não ouve, mais preocupado com a flora fóssil do Carbónico, a produção de conhecimento científico e o papel social da geologia. E por falar em social vislumbra-se à frente desta plateia a figura de Carlos Alves (1930-) exercendo pedagogia da democracia na sua praxis museal e Torre de Assunção (1901-1987) com um basalto numa mão e a tabela do RX na outra, proclamando que a ciência serve sempre a Pátria. Ideia que o governo da ditadura nunca terá apreciado, considerando-o “persona non grata”.
Estou sempre a tropeçar no imponente sábio e creio que bom garfo, antigo director Machado e Costa (1870-1952), em pose de reflexão e de olhar profundo e atento, como cabe a um militar, sobre a história da história natural naquela casa; aqui, na bancada do lado (deveria dizer gruta?) está a Isabel Gonçalves empenhada em dar voz à geologia e em ir assegurando a curadoria destas colecções, sempre devidamente apoiada pelo John (o das “sementes”) que não desiste de protestar pelas reformas da organização que se vão sucedendo; e também continuamos a ouvir repetidamente a voz clara em tom sedutor do nosso António Marcos (1931-), a insistir em dizer ao povo o que é o chão que pisa, clamando pela preservação e patrimonialização dos sítios geológicos; neste encontro de fantasmas também cá está o Mário Cânova (1946-), que não desiste de Carenque, movimentando as suas influências a tentar estabelecer pontes no sentido de salvar de novo a jazida de Pego Longo, enquanto prega a museologia social no espaço da lusofonia e pelo mundo fora; o Fernando Arraiano a dar expressão à pedagogia do seu saber e a dar alma, corpo e forma ao Club de Mineralogia … e ainda tantos, tantos outros em manifestação que aqui deixaram a sua marca e ainda hoje nos desinquietam e interrogam. O Vandelli, sim, também ele, o Alexandre Vandelli (1784-1862) ali agarrado ao fóssil do adicetus da colecção do museu.
Encontramo-nos todos nos subterrâneos da feira, junto com o Madureira Pinto, que nos devolve ao espírito do Lousal – “explorar ciência, extrair conhecimento, perpetuar memórias” – agora convocados pelo Filipe Ribeiro, para, no intervalo de duas viagens pelo cosmos entre meteoros, cometas e astros da ciência, debatermos o tema que deverá enquadrar a divulgação de ciência em cada ano de edição da feira, e com que importa inquietar o cidadão e respeitável público do museu.
Julgo estar a ver uma nova geração a descer a estas profundezas arquivísticas…. És tu, Rita? Eu, guardo a minha bandeira vermelha rasgada do negro para um dia desfraldar de novo ao vento. Numa ida à superfície comemorámos abril e os cinquenta anos de abril. Nesses símbolos residem os nossos movimentos. Neste inferno, os tesouros da natureza são o quotidiano da não existência, os ouros, os diamantes, os rubis que os da superfície disputam e roubam, aqui sobram. Utilizamo-los para lhes atrair a atenção, como antes se disse. Também aqui reside um outro conhecimento diferente do que à superfície se agita e também aqui não se valoriza o superficial.
CLL
