ALEXANDRE HONRADO
FRANZ KAFKA
Da cesta de Moisés para o Josefov
(e do bairro judeu de Praga para o mundo)
Admitimos que, a par com as metamorfoses biológicas, há algumas, de índole cultural, capazes de singrar a partir do uso de uma força coletiva, conduzindo a uma revelação final inesperada, deslumbrante, inquietante. Essas últimas, singulares e derradeiras, acabam por traduzir efeitos de grande intensidade, incontornáveis e inquestionáveis. O melhor exemplo encontrado é aquele que é capaz de operar a magia civilizacional mais intensa: um vocábulo modificado pelo amplo alcance do uso e da absorção, agitador de sentimentos e crenças, aglutinador dos humanos e das atribuições humanas. E nessa modificação circunscrever o maravilhamento que ressalta das metamorfoses sensíveis e infinitas que são constantes no mundo em que vivemos.
Sem delongas, isole-se o exemplo: Bíblia. É esse o caso de uma “metamorfose” explícita: vem de uma origem grega como plural – livros sagrados – e torna-se global, universal, como termo singular: a Bíblia, um objeto que regista a pluralidade dos objetos.
Para a compreensão de outra metamorfose – a metamorfose literária da autoria do escritor Franz Kafka – inclinámo-nos também sobre a Bíblia, em especial sobre os cinco livros de Moisés ou Pentateuco, conhecidos como Torá ou Lei.
A estes cinco livros juntaram-se (ou melhor: juntámos), mais recentemente, os Ensinamentos, que dão pelo nome de Talmude (livro que trouxe a religião judaica para a atualidade, estruturando-a). Esse conjunto de textos (a par com um vasto e diversificado corpo de doutrinas religiosas que os acompanham) constituem a obediência à Palavra que equivale não só à história dos judeus (também conhecidos por hebreus ou israelitas) como à sua progressão de vida e a um entrelaçar cultural único, muito intrincado e original, que faz com que povos sejam um só povo, mesmo na mais complexa e agreste diáspora, que uma língua seja um exercício de crença ou que, sobretudo, uma crença seja uma constatação do sagrado e do religioso, capaz de resistir às mais violentas agressões e angústias existenciais e às perseguições e ataques mais bárbaros e sangrentos.
Para entender Franz Kafka tivemos a necessidade de recuar muitos séculos, a origens tribais que criaram e fizeram legado de uma simbologia única, trazida num cesto de junco, preparado com betume e pez, viagem narratológica ímpar tão resistente que ainda hoje a reconhecemos e sabemos o quão importante se tornou na civilização que hoje partilhamos.
Da cesta de Moisés para o Josefov (e desse bairro judeu de Praga para o mundo), procurou-se achar linhas de investigação que, como cabos, se suspendessem sobre o que íamos lendo, evitando tropeçar no cabo escondido a nossos pés (isto é uma paráfrase de um dos Aforismos de Franz Kafka em tradução de Modesto Carone: “O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser percorrida[1]”).
Ao escritor exigimos, nós os leitores, ideias translúcidas e mistérios excitantes provindos das suas zonas mais opacas. Ao montante do que daí resulta deduzimos o prazer do tempo concedido à leitura e à digestão possível do que dela resultar. Aquilo que lemos pode embaraçar-se, enraizar-se, viver connosco uma vida inteira com a proximidade e a distância de um gémeo que esperava por nós no momento do parto para ser o nosso reflexo e talvez o nosso reverso. Mesmo que a escrita seja um ato sem grande mobilidade – a mão e os olhos que percorrem teclados ou folhas onde as ideias se fixam não permitem o alvoroço das alternativas informáticas ou mesmo as oscilações melódicas, harmónicas e rítmicas da oralidade -, mesmo que nos lance na trincheira sem percebermos ao certo se algum inimigo está longe ou perto, é a escrita que traduz a voz interior que por vezes nos sufoca e prende no enredo do quotidiano. Uma matriz religiosa – podemos afirmá-lo? Procuremos a resposta nesta e noutras, muitas, reflexões que nos andam esperando e motivando, como corpo de texto à espera do seu clímax e desfecho.
[1] Kafka, Franz. (2012). Aforismos Reunidos. São Paulo: Instituto Moreira Sales. Introdução e tradução de Modesto Carone.

