MILTON REZENDE

 

 

 

 

 


COMENTÁRIO DE PRIMAVERA

 

Preciso aprender o convívio com a vida,

pois a vida ao meu lado cheira a vida.

Há sempre uma sombra, além da sombra

do homem, que nos acompanha em silêncio

quando o deserto se instala no peito

e as ruas e as casas são só feitas de barro.

O corpo que dissimula é o mesmo que tece

na solidão das estradas – abertas na noite

como a gilete abrindo veias no escuro –

o enigma da esperança numa cidade vazia.

Mas do barro com que fazemos as casas

de medo também nascem flores dispersas

que se espalham ao longo da estrada,

e mesmo o vazio (sem deixar de ser)

incorpora o fluxo da vida circunstante.

É quando a esperança se insinua no rosto

cansado de um homem e a sua vida recebe

o sopro de toda a humanidade que se abraça.

E nessa frágil comunhão, a vida absorve vida

e a soma dessa energia recíproca pode(ria)

eventualmente povoar os desertos do medo,

além de estancar o sangue deste meu pulso

cortado.

Areia (À Fragmentação da Pedra)


CONFIDENCIAL

 

Nada consta.

Consta que seja um nada

em face a uma constância

de extremos inarredáveis.

Enfim

um nada consta sobre

outro consta um nada

— A vida incerta do homem —

Nas folhas gastas do mundo

não consta nada em

detrimento desse nome.

Um simples nome em meio

a tantos outros no arquivo

de uma gaveta metálica.

O Acaso das Manhãs


CONFIDÊNCIAS NA PENUMBRA

 

A lâmpada acesa

tirou de mim

a parte que me falta

e que tenho em sonhos.

 

Mas do sonho me canso

e acendo a luz

para realizá-lo

ainda que em sua parte mínima.

 

E quando o faço

a realidade me nega

a segunda metade

do equívoco.

 

Mas careço dele

e o procuro de outras formas

que me tragam a penumbra

e depois a morte.

 

Que esta ambivalência não seja

luz de farol no trânsito

a profanar a cegueira inusitada

que me completa a vida.

O Acaso das Manhãs


CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DO HOMEM

 

                                                                          Drummond revisitado

 

s homens

não sabem que são homens

se soubessem, rejeitariam o nome.

 

O homem

desconhece o outro homem

que vive dentro ou fora dele

e que nunca foi visto.

 

O homem

e o absurdo de ser homem.

 

O homem

não tem consciência

do que viria a ser o homem

em sua acepção genérica.

 

O homem

é o estereótipo do homem.

 

O homem

é específico como o bicho

pior que isso, é dual

é indivíduo e social.

 

O homem

não suporta o peso de ser homem.

 

O homem

não tem importância alguma

para o próprio homem.

 

O homem

e o desespero de ser homem

não sendo, na ilusão de ser.

 

Os homens

quando reunidos em sociedade

não formam um todo, sequer uma parte.

Formam apenas uma irmandade

a caminho do nada.

 

Um homem

não destruirá um outro homem.

A arte, tenho esperança,

humanizará o homem. 

O Acaso das Manhãs


CONSTATAÇÃO

 

As cidades

em que vivemos

ou que conhecemos

perdem-se no tempo,

da mesma forma que

perdemos nossos amigos

entre equívocos e intervalos.

 

A suspensão das amizades

são como ruas extintas

ou interditadas onde

não podemos mais transitar

livremente o pensamento.

 

E onde nossas antigas vidas

comuns ou comungadas já

se fragmentam em cacos

(e não há cimento que cole),

tornando-se objeto de esquecimento.

 

As referências

que nós tínhamos

e que sustentavam

nosso precário equilíbrio,

são como lembranças mortas.

E o afeto que continham

agora se transformam em pó

e empecilhos, a obstruírem

o nosso voo cego.

 

Nossa linhagem genética

nada explica de nós mesmos

e a árvore genealógica

é uma fria estatística de nomes

sem significados e que ornamentam

disformes e esquálidos esqueletos,

a que não tivemos acesso.

 

Assim, começa conosco

a nossa própria linhagem

e trazemos em nosso código

fatídico o meio, o fim

e o início.

Somos patriarcas do nada

e se cantamos é porque

o canto é congênito.

 

A Sentinela em Fuga e Outras Ausências 


CONVIDADOS

 

Da janela da casa onde moro

aguardo a chegada de alguns

amigos para a festa de

aniversário.

 

Nada se move, exceto a minha

sombra na varanda, vazada de

angústia, silêncio e noite.

 

Fecho as janelas da casa

onde moro e ainda dou

uma última olhada através

das frestas da veneziana.

 

Nada se move, exceto a noite

com a sua noção de simultaneidade

do tempo, das pessoas e das coisas.

 

Nada se move, exceto o silêncio

que domina o ambiente e repousa

na visão do telefone emudecido

e inútil sobre o criado-mudo.

 

Fecho a porta do meu quarto

e a casa onde moro fica escura,

imersa na solidão dos cômodos.

Inventário de Sombras


CRAZY

 

ninguém, em sã

consciência me

considera.

 

ninguém, em sã

consciência sabe

quem eu sou.

 

eu, em insana

(in)consciência

pratico um voo

 

sem plumas,

noutra direção.

 

O Jardim Simultâneo


DE PASSAGEM

 

É no contato de seus lábios,

ou antes dele (vivendo-o em sonhos),

é que avalio a insipidez e esse

antídoto para as coisas do mundo

já findas em seu gestar.

E tudo é um aprendizado

para quem de aprender já se cansara,

e nesse cansaço fez-se sério e triste

no caminhar para a morte.

Areia (À Fragmentação da Pedra)


DEDICATÓRIA

 

Ao

Ivo Barroso

Sou de Ervália,

somos conterrâneos.

E, iniciante em literatura,

posso dizer que boa parte

do conhecimento que tenho

do mundo (o que as leituras

me ensinaram dele) vieram

através de tuas belas e múltiplas

traduções de romances, de sonhos

turvos e do Turvão.

 

Somos de Ervália,

sou teu contemporâneo

(estamos vivos e “sobrevivendo

a nós mesmos como um fósforo

frio”). Admiro o teu trabalho,

e provinciano me dirijo

náufrago à nau que tu

conduzes, singrando mares,

horizontes de sonhos e rios turvos.

Turvão que desliza no vão das pontes.

 

Somos desta ponte, contemplativos.

Extemporâneos da época dos peixes.

E para mim é um privilégio

atravessarmos juntos (lado a lado

e distantes) essa mesma solitária

ponte em trajetórias isoladas de

lâmpada e flor de vidro sobre

a mesa de estudos no meio da noite,

entre lembranças, espasmos e escamas

nos rotos embornais do Herval antigo.

 

Olho para baixo, para as pedras

e ouço os gritos dos Aflitos

de São Sebastião, implorando

ao mito. E o silêncio da resposta

é abafado pelo barulho das cachoeiras

da Ressaca e da Usina espumando água

e dissipando dúvidas, salpicando de

esperança os corpos suados da lida.

Tudo sendo e acontecendo sido e havido,

dado e passado ao largo e ao lado do rio.

 

Somos daqui, das terras de Ervália

e sabemos que uma corrente invisível

e esporádica nos leva (partindo

do nada) ao re-conhecimento

de nós mesmos, através das curvas

e das margens deste rio da infância

“subitamente desentranhado”.

Folgo em saber que tu és a parte

maior e sensível deste rio difícil,

e sabendo-o tão fértil, em ti,

procuraremos nos espelhar

A Sentinela em Fuga e Outras Ausências


DELÍRIO

 

A porta fechada

escondia a fúria

do outro que em mim

se debatia.

 

Ouço passos na escada

e me contraio todo

no silêncio nervoso,

para que não percebam

a silhueta de minha desgraça.

 

O vento nas cortinas

me transmite

(na sua dança impetuosa),

a agonia de dentes e o sangue

no grito das carnes das vítimas.

 

Os jornais já trouxeram

em suas manchetes

o rastro de minha maldição

estampada na contagem de mortos.

 

Agora os passos se detiveram

no alpendre da casa,

onde a lua e os seus fantasmas

esculpem meu sortilégio noturno.

 

Dominado pela febre compulsiva

me arrasto pelo assoalho até a sala,

onde arfante e desfigurado

aguardo o girar da chave.

Areia (À Fragmentação da Pedra)