COMENTÁRIO DE PRIMAVERA
Preciso aprender o convívio com a vida,
pois a vida ao meu lado cheira a vida.
Há sempre uma sombra, além da sombra
do homem, que nos acompanha em silêncio
quando o deserto se instala no peito
e as ruas e as casas são só feitas de barro.
O corpo que dissimula é o mesmo que tece
na solidão das estradas – abertas na noite
como a gilete abrindo veias no escuro –
o enigma da esperança numa cidade vazia.
Mas do barro com que fazemos as casas
de medo também nascem flores dispersas
que se espalham ao longo da estrada,
e mesmo o vazio (sem deixar de ser)
incorpora o fluxo da vida circunstante.
É quando a esperança se insinua no rosto
cansado de um homem e a sua vida recebe
o sopro de toda a humanidade que se abraça.
E nessa frágil comunhão, a vida absorve vida
e a soma dessa energia recíproca pode(ria)
eventualmente povoar os desertos do medo,
além de estancar o sangue deste meu pulso
cortado.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
CONFIDENCIAL
Nada consta.
Consta que seja um nada
em face a uma constância
de extremos inarredáveis.
Enfim
um nada consta sobre
outro consta um nada
— A vida incerta do homem —
Nas folhas gastas do mundo
não consta nada em
detrimento desse nome.
Um simples nome em meio
a tantos outros no arquivo
de uma gaveta metálica.
O Acaso das Manhãs
CONFIDÊNCIAS NA PENUMBRA
A lâmpada acesa
tirou de mim
a parte que me falta
e que tenho em sonhos.
Mas do sonho me canso
e acendo a luz
para realizá-lo
ainda que em sua parte mínima.
E quando o faço
a realidade me nega
a segunda metade
do equívoco.
Mas careço dele
e o procuro de outras formas
que me tragam a penumbra
e depois a morte.
Que esta ambivalência não seja
luz de farol no trânsito
a profanar a cegueira inusitada
que me completa a vida.
O Acaso das Manhãs
CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DO HOMEM
Drummond revisitado
s homens
não sabem que são homens
se soubessem, rejeitariam o nome.
O homem
desconhece o outro homem
que vive dentro ou fora dele
e que nunca foi visto.
O homem
e o absurdo de ser homem.
O homem
não tem consciência
do que viria a ser o homem
em sua acepção genérica.
O homem
é o estereótipo do homem.
O homem
é específico como o bicho
pior que isso, é dual
é indivíduo e social.
O homem
não suporta o peso de ser homem.
O homem
não tem importância alguma
para o próprio homem.
O homem
e o desespero de ser homem
não sendo, na ilusão de ser.
Os homens
quando reunidos em sociedade
não formam um todo, sequer uma parte.
Formam apenas uma irmandade
a caminho do nada.
Um homem
não destruirá um outro homem.
A arte, tenho esperança,
humanizará o homem.
O Acaso das Manhãs
CONSTATAÇÃO
As cidades
em que vivemos
ou que conhecemos
perdem-se no tempo,
da mesma forma que
perdemos nossos amigos
entre equívocos e intervalos.
A suspensão das amizades
são como ruas extintas
ou interditadas onde
não podemos mais transitar
livremente o pensamento.
E onde nossas antigas vidas
comuns ou comungadas já
se fragmentam em cacos
(e não há cimento que cole),
tornando-se objeto de esquecimento.
As referências
que nós tínhamos
e que sustentavam
nosso precário equilíbrio,
são como lembranças mortas.
E o afeto que continham
agora se transformam em pó
e empecilhos, a obstruírem
o nosso voo cego.
Nossa linhagem genética
nada explica de nós mesmos
e a árvore genealógica
é uma fria estatística de nomes
sem significados e que ornamentam
disformes e esquálidos esqueletos,
a que não tivemos acesso.
Assim, começa conosco
a nossa própria linhagem
e trazemos em nosso código
fatídico o meio, o fim
e o início.
Somos patriarcas do nada
e se cantamos é porque
o canto é congênito.
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
CONVIDADOS
Da janela da casa onde moro
aguardo a chegada de alguns
amigos para a festa de
aniversário.
Nada se move, exceto a minha
sombra na varanda, vazada de
angústia, silêncio e noite.
Fecho as janelas da casa
onde moro e ainda dou
uma última olhada através
das frestas da veneziana.
Nada se move, exceto a noite
com a sua noção de simultaneidade
do tempo, das pessoas e das coisas.
Nada se move, exceto o silêncio
que domina o ambiente e repousa
na visão do telefone emudecido
e inútil sobre o criado-mudo.
Fecho a porta do meu quarto
e a casa onde moro fica escura,
imersa na solidão dos cômodos.
Inventário de Sombras
CRAZY
ninguém, em sã
consciência me
considera.
ninguém, em sã
consciência sabe
quem eu sou.
eu, em insana
(in)consciência
pratico um voo
sem plumas,
noutra direção.
O Jardim Simultâneo
DE PASSAGEM
É no contato de seus lábios,
ou antes dele (vivendo-o em sonhos),
é que avalio a insipidez e esse
antídoto para as coisas do mundo
já findas em seu gestar.
E tudo é um aprendizado
para quem de aprender já se cansara,
e nesse cansaço fez-se sério e triste
no caminhar para a morte.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
DEDICATÓRIA
Ao
Ivo Barroso
Sou de Ervália,
somos conterrâneos.
E, iniciante em literatura,
posso dizer que boa parte
do conhecimento que tenho
do mundo (o que as leituras
me ensinaram dele) vieram
através de tuas belas e múltiplas
traduções de romances, de sonhos
turvos e do Turvão.
Somos de Ervália,
sou teu contemporâneo
(estamos vivos e “sobrevivendo
a nós mesmos como um fósforo
frio”). Admiro o teu trabalho,
e provinciano me dirijo
náufrago à nau que tu
conduzes, singrando mares,
horizontes de sonhos e rios turvos.
Turvão que desliza no vão das pontes.
Somos desta ponte, contemplativos.
Extemporâneos da época dos peixes.
E para mim é um privilégio
atravessarmos juntos (lado a lado
e distantes) essa mesma solitária
ponte em trajetórias isoladas de
lâmpada e flor de vidro sobre
a mesa de estudos no meio da noite,
entre lembranças, espasmos e escamas
nos rotos embornais do Herval antigo.
Olho para baixo, para as pedras
e ouço os gritos dos Aflitos
de São Sebastião, implorando
ao mito. E o silêncio da resposta
é abafado pelo barulho das cachoeiras
da Ressaca e da Usina espumando água
e dissipando dúvidas, salpicando de
esperança os corpos suados da lida.
Tudo sendo e acontecendo sido e havido,
dado e passado ao largo e ao lado do rio.
Somos daqui, das terras de Ervália
e sabemos que uma corrente invisível
e esporádica nos leva (partindo
do nada) ao re-conhecimento
de nós mesmos, através das curvas
e das margens deste rio da infância
“subitamente desentranhado”.
Folgo em saber que tu és a parte
maior e sensível deste rio difícil,
e sabendo-o tão fértil, em ti,
procuraremos nos espelhar
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
DELÍRIO
A porta fechada
escondia a fúria
do outro que em mim
se debatia.
Ouço passos na escada
e me contraio todo
no silêncio nervoso,
para que não percebam
a silhueta de minha desgraça.
O vento nas cortinas
me transmite
(na sua dança impetuosa),
a agonia de dentes e o sangue
no grito das carnes das vítimas.
Os jornais já trouxeram
em suas manchetes
o rastro de minha maldição
estampada na contagem de mortos.
Agora os passos se detiveram
no alpendre da casa,
onde a lua e os seus fantasmas
esculpem meu sortilégio noturno.
Dominado pela febre compulsiva
me arrasto pelo assoalho até a sala,
onde arfante e desfigurado
aguardo o girar da chave.
Areia (À Fragmentação da Pedra)

