Duas reflexões

 

 

 

 

NICOLAU SAIÃO


“Se eles têm razão, porque é que mentem?” – D. António Ferreira Gomes, bispo de Portalegre,
em escrito antes de ser compelido pelo antigo regime a exilar-se.
 

Disse-lhes que por ali, nos solares e nos campos, havia monstros.
Não quiseram acreditar-me!” – John William Polidori, no livro “O vampiro”

 

1.

 Numa tarde daquele tempo, passeando com Mário Cesariny pelas ruas de Lisboa e antes de irmos degustar algo de salutar a uma aprazível tasquinha bem dele conhecida, calhou de vir à baila o grande contista de “Contos cruéis” Auguste Villiers de L’Isle Adam.

E o Mário, sempre com aquele seu propósito que balançava as estórias e os conceitos que elas sustentavam, relatou-me o seguinte contarelo que eu vos reproduzo mais ou menos de memória: ” Havia em França, naquela época, um senhor de altos méritos que metera na cabeça o desejo infrene de atingir a posse da pedra filosofal. Fizera muitas experiências e, a dado passo, um velho sábio garantira-lhe que uma das vias mais certas era invocar a ajuda do Diabo.

Posto isto, ele pusera-se a invocá-lo mediante as fórmulas usuais naquela arte, mas o diabo não aparecia.

Matutou então que seria indicado proceder de forma a que o rei das trevas se sentisse eventualmente suscitado por um ambiente próprio do seu múnus. Vai daí, passou aos grandes meios: incendiou uma igreja com todos os fiéis lá dentro, conseguiu afundar um barco com diversos tripulantes, camuflado nas brenhas duma das suas propriedades eliminou paulatinamente muitas das gentes que por ali cirandavam…Mas o diabo não aparecia. Insistiu e deu origem a mais umas hecatombes – e o diabo sem aparecer.

Falou de novo com o velho sábio e foi então que ele lhe disse, esclarecendo-o, que tal sucedia por um erro de perspectiva, pois o Diabo encarnara nele – ele é que se tornara o Diabo!

Recordei este conto, rememorei esta estória, ao ver o que se passa com a nossa Esquerda. Com essa Esquerda que se vai, no nosso país, tornando residual, quando não quase supranumerária por um erro mais que não seja… de perspectiva.

De tanto agirem duma determinada forma – desde a apologia das ilegalidades explícitas, como fez aquele fabiano na preclara TV, que aconselhou a ocupação de prédios por gentes indeterminadas, até à solitária bloquista y sus muchachos que contra as ideias do povão garantem que ou se age como eles desejam…ou mudam de povo – e já não falamos do poético Raimundo, sempre revirando-se enquanto justifica com chiste (ou por nossa tristeza…) as “operações militares especiais”, estes cavalheiros e estas senhoras (onde abundam as carmos afonsos da vida) fazem tudo para se parecerem com os totalitários do regime de outrora, ao mesmo tempo que se garantem defensores das mais amplas liberdades.

Ou seja, não percebem que se tornaram – por mor da sua incapacidade de articular um pensamento e uma acção sensatos – que se tornaram naquilo que eram os outros de outrora…!

E, então, queixam-se do povão, que caracterizam como estúpido e inculto – porque não os seguem, não os querem, não os apoiam.

Eles, que simbolicamente se tornaram no diabo, nem já conseguem distinguir as chamas satânicas em que se vão consumindo!

 

      2.  

    Depois de demasiados anos de inércia e de uma clara cegueira, os serviços ocidentais democráticos de inteligentsia e segurança, legitimamente em acção e capacidade operativa, verificaram sem qualquer dúvida que o grande perigo de nefanda subversão antidemocrática e cavilosa que a Democracia corre provém da China e dos activos irregulares que actuam sob a supervisão daquele país – nomeadamente mediante subvenções que a pouco e pouco se vão descobrindo.

Assim sendo, os serviços que têm por missão democrática, absolutamente legítima e legal, de desmascarar e deter tais operativos, estão na União Europeia a actuar de molde a que esses lobos em pele de cordeiro sejam postos no lugar que os seus actos justificam – ou seja, nos calabouços dos diferentes países.

Também entre nós essa vigilância e monitorização, inteiramente necessárias, se vai exercendo. De maneira mais ou menos discreta, mas competente e inteiramente indispensável.

A propaganda nefasta não pode de forma alguma concretizar-se em actos que falseiem a Democracia que o nosso povo tanto custou a atingir e que tantos sacrificios lhe mereceu!