M.T.R.-Leal .Foto c 1964

 

MANOEL TAVARES RODRIGUES-LEAL
(1941-2016)
Quatro poemas inéditos do caderno A Noite (1967).
Quatro poemas inéditos do caderno Os Passos do Amor (1977)
LUÍS DE BARREIROS TAVARES, org.

 

 

 


Já flameja a melancia. A noite

cai mais densa. E tu regressas

um tanto triste ao meu ardor.

[Già fiammeggia il cocomero. La sera / cade più densa ormai. / E tu ritorni / un poco malinconico al mio ardore.]

Sandro Penna – Tradução por Maria Jorge Vilar de Figueiredo

 

 

A Noite 

I

mordem-se os rostos

pelas ruas

rostos magros

laivos de luas

movem-se os rostos

pelas ruas

rigidamente amargos

violências nuas

a gritarem olhos de gente

Lx. 18/3/67

Manuscrito do poema I

 

II

corpo tonaliza

corpo sente

corpo dói

corpo sente

a flor ausente

a flor maior

Lx. 19/3/67

III

os carros disparam-se como incisivos socos

na rua ao desafio

e à noite penetração de focos

despem a noite

triste

descrita pelos astros frios

Lx. 28/5/67

IV

controle da vegetação

do dia como do sol

da liberdade como do grito

do homem como do animal

das ruas como do granito

da cidade como do espaço

da noite como do motivo

do movimento como do passo

controle aceso

gasto falso

Lx. 4/7/67

Os Passos do Amor 

V

Eis que o espaço prometido do poema queima ou esvoaça.

Eis que o poeta se despe e se apresenta imerecido.

De singular, absoluto poeta rapace, que beleza ferida fita,

quando a manhã, proibida e aérea, de tão mansa cerce passa.

Lx. 8–1–77 – Segunda versão de um poema já publicado numa primeira versão (ver, em baixo, revista Caliban)

VI

Arcaica ou coeva, a mulher tem o dom de deslumbrar,

procriar terra, a perfumar a galáxia.

Ela que se contente, tal a nitidez secreta do mar.

Lx. 17-1-77

VII

Roubei-te um beijo.

Entardecia, havia abandono…

Mais se acendeu o desejo

De desejar teu corpo abraçado ao Outono.

Lx. 18-1-77 – (à Mali) – poema lido em vídeo pelo poeta

VIII

Em as nuvens singrar-te, beber-te elos e cabelos,

não sei se naufragar-me. E na beijada boca como apetecer-te no crânio das noites.

Lx. 19-1-77 – (à Graça)


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