NICOLAU SAIÃO
& Major P. do Triplov


PARA QUE A TERRA NÃO ESQUEÇA 


O Museu da História dos Gulag, os campos de concentração soviéticos, vai ser encerrado definitivamente em Moscovo e substituído por uma instituição dedicada à memória dos “crimes nazis”, anunciou sexta-feira a câmara municipal de Moscovo.

A nova exposição permanente abordará “todas as etapas” dos crimes nazis durante a “Grande Guerra Patriótica”, nome dado na Rússia ao conflito entre a União Soviética (URSS) e a Alemanha nazi de 1941 a 1945, informou a autarquia de Moscovo no seu site.

O novo museu será dedicado “às vítimas do genocídio do povo soviético”, acrescentou a autarquia, afirmando que este é um dos “aspetos essenciais do trabalho desenvolvido para a educação patriótica e instrução histórica das gerações mais jovens”.

Segundo a autarquia, a instituição que vai ocupar o antigo edifício do Museu do Gulag tem previsão de inauguração “ainda este ano”.

A luta da URSS contra a Alemanha nazi tem sido particularmente glorificada na Rússia nos últimos anos.

O Kremlin está a usar esta memória para exaltar o poder soviético e justificar a ofensiva em grande escala contra a Ucrânia, lançada em fevereiro de 2022 sob o pretexto de “desnazificar” o país.

Criado em 2001 com o apoio da câmara municipal de Moscovo e por iniciativa do historiador e antigo deportado Anton Antonov-Ovseyenko, o Museu da História do Gulag abriu as suas portas em 2004.

Abrigava arquivos e objetos que pertenceram às vítimas. A sua exposição permanente era dedicada à história dos campos soviéticos de 1918 a 1956.

No local eram também organizadas exposições temporárias, apresentações e palestras.

“A exposição do Museu do Gulag será completamente desmontada. Os funcionários do museu estão preocupados com o seu destino e estão a fazer todos os possíveis para a salvar e preservar”, disse à AFP na sexta-feira uma fonte próxima da administração do museu.

O Museu do Gulag foi encerrado “temporariamente” em novembro de 2024, oficialmente devido a violações das normas de segurança contra incêndios, e nunca mais reabriu.

Era o único grande museu estatal na Rússia dedicado às repressões soviéticas.

Mais de 46 mil pessoas visitaram-no durante os últimos nove meses de funcionamento, segundo o Ministério da Cultura.

Embora Vladimir Putin condene ocasionalmente os excessos do estalinismo, a linha política do Kremlin consiste, geralmente, em minimizá-los.

Os milhões de vítimas da perseguição política são relegados para um papel secundário nos livros de História.

Estaline, a principal figura responsável por estas repressões, é retratado sobretudo como um herói que derrotou o nazismo.

Aqueles que denunciam esta abordagem foram visados pelas autoridades.

A Memorial, uma ONG que documenta as repressões tanto soviéticas como do atual regime de Vladimir Putin, foi rotulada como “agente estrangeiro” e, consequentemente, proibida no final de 2021.

Com a abertura dos arquivos soviéticos depois do colapso da URSS, a Memorial verificou pelo menos 1,6 milhões de mortes nos Gulag, entre 1930 e 1953, mas realçou que milhões de outras pessoas sofreram de “morte social” — a perda permanente de direitos, de saúde e de família.

O dissidente soviético e Prémio Nobel Aleksandre Solzhenitsyn estimou na sua obra “Arquipélago Gulag” que 60 milhões de pessoas morreram devido a todo o sistema repressivo soviético, contabilizando os campos de concentração e outro tipo de violência, como campanhas de fome promovidas pelo regime comunista.

“O Museu do Gulag foi encerrado ‘temporariamente’ em novembro de 2024, oficialmente devido a violações das normas de segurança contra incêndios…” (A ironia trágica da burocracia).


COMENTÁRIO 

Major P. do Triplov

 

 

 

 

 

“O Museu do Gulag foi encerrado ‘temporariamente’ em novembro de 2024,
oficialmente devido a violações das normas de segurança contra incêndios…”

(A ironia trágica da burocracia).

Este texto do Nicolau Saião é um murro no estômago necessário, escrito com a sobriedade de quem sabe que a memória é a última linha de defesa contra a tirania. É um documento sobre o “apagamento” deliberado da história para alimentar a propaganda de guerra atual.

Neste registo de denúncia, o escritor surrealista Nicolau Saião afasta-se momentaneamente da metáfora para confrontar a literalidade do silêncio. Ao documentar o encerramento do Museu do Gulag em Moscovo, Saião recorda-nos que fechar um museu não é apenas um ato administrativo; é uma segunda execução das vítimas. Quando o Estado substitui a memória da repressão interna pela celebração da glória militar, a História deixa de ser lição para passar a ser arma. Um texto essencial para que, como diz o título, a terra não esqueça o que o poder tenta enterrar.

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