MARIA AZENHA
Todos já devem ter visto, são bebés, são bonecas que imitam um bebé recém-nascido de forma hiper-realista.
Se se olha de relance, dirão que é um bebé recém-nascido, são muito bem feitos, artistas que alcançaram um alto grau de tecnologia para fazer isso e um alto grau de destreza, e não são nada mais do que um produto.
Há um volume de mulheres adultas que compram estes bebés reborn,
para efetivamente terem os seus bebés.
Elas querem ter o bebé, não porque lhes morreu algum,
mas porque querem cuidar de um bebé quando chegam a casa.
Até já existe um projeto para o dia da cegonha do bebé.
Para terem uma ideia, já há, por exemplo, o Dia das Mães para o bebé reborn.
(…)
Muito mais haveria a dizer …
O SIMULACRO DO REAL
O simulacro do real, conceito desenvolvido por Jean Baudrillard, refere-se a uma cópia que não tem um original, ou seja, uma simulação que se torna mais real que a realidade que tenta representar. No contexto de Baudrillard, a simulação se intensifica ao ponto de substituir o real, criando uma hiper-realidade onde os simulacros são mais significativos que o próprio objeto original.
Hiper-Realidade:
A sociedade moderna, segundo Baudrillard, está repleta de simulacros que, ao se tornarem mais reais que o real, criam a hiper-realidade. Esta hiper-realidade é um mundo de simulações onde a distinção entre ficção e realidade se perde, e os simulacros ganham maior importância que o próprio objeto original.
Morte do Real:
A proliferação de simulacros leva à morte do real, pois este se torna irrelevante quando as simulações são mais importantes e significativas. O real é esvaziado do seu significado e substituído por uma série de representações que se tornam mais reais que o próprio real.
POEMAS BIODEGRADÁVEIS
*
no supermercado
há tomates que não sabem o que é sujar-se
não têm minhocas
nem cheiro a nada
há também bebés que não fazem birra
nem cocó
nem barulho
*
o planeta está com febre
e o termómetro partiu-se
porque a senhora do quinto esquerdo
tentou medi-lo
pelo écran da televisão
derramou-se mercúrio
no tapete do IKEA
e ela disse:
“não limpem com vinagre, porque mancha”
*
a planta dela é de plástico
mas ela rega-a com água da torneira
porque acredita
em hábitos.
*
o mundo está a acabar
mas antes vai acabar o gelado
e ela gosta muito do de baunilha
mas pouco da Greta
(que ela diz que tem cara de quem ralha)
*
A vizinha queria um bebé reborn
para lhe cantar cantigas biodegradáveis
e embalar o mundo
devagarinho
como se fosse de louça
e ainda tivesse salvação
na prateleira da cozinha
*
Deus também brinca às bonecas.
Mas as d’ Ele choram
e fazem birra
e morrem cedo.
BABY REBORN COM AMBIÇÃO PARLAMENTAR
a minha tia Hermínia
comprou um baby reborn
diz que é mais calmo que um neto verdadeiro
não chora nem vota
penteia-lhe os caracóis de vinil
como se fosse um deputado em início de mandato
e diz: “político é isto —
parece real
mas é tudo enchimento”
às vezes senta-o na cadeira da televisão
com o telejornal a prometer promessas
diz que ele presta mais atenção
que o ministro das finanças
chama-lhe Dr. Bebé
e dá-lhe discursos para dormir
“meu amor de silicone
tu nunca me mentiste em campanha”
quando vem alguém da Junta
ela esconde-o na cómoda
“não vá o partido levá-lo numa lista”
e eu penso
se calhar os políticos são bonecos!
A IGREJA DO PLÁSTICO SAGRADO
baby reborn dorme na gaveta
onde antes guardávamos os talheres.
Agora, com babetes dobradinhos
e uma colher de plástico
finge que se alimenta.
A avó fala com ele,
mesmo que ele não tenha ouvidos,
e diz: “Não te preocupes, o mundo também não escuta.”
Uma vez sonhei que ele crescia
e fundava uma igreja,
a Igreja do Plástico Sagrado,
onde as pessoas se confessavam
a manequins de vitrines com água.
— O padre da paróquia
disse que isso era blasfémia —
Então agora só o levo à missa
dentro da mala,
com um buraco para ele ver o altar.
Não é loucura —
é que o amor ficou preso
numa caixa de sapatos
e agora só mastiga ar.
ESTELA & MARIA A BEBER CHÁ DE FOLHAS CAÍDAS
Escrevo com uma pena de vento
sobre papel de musgo e silêncio,
um poema que se decompõe
ao som das sílabas das árvores.
Estela traz um cesto de palavras
recolhidas do chão,
poemas que caíram dos ramos
como frutos doentes de futuro.
Ela diz:
“O verso deve apodrecer com elegância,
como uma maçã que sonha com o húmus.”
Maria aparece com um gato de papelão
e um guarda-chuva furado por poemas metafísicos.
Ela escreve com lápis de carvão vegetal
sobre guardanapos de compostagem.
Diz:
“Os meus versos são pequenos lixos orgânicos.
Alimentam minhocas políticas.”
Estela abana a cabeça:
“Sim, sim, a poesia há de voltar à terra.”
Maria limpa os óculos com uma folha seca
e suspira:
“Mas cuidado — há poemas que poluem.”
O QUE É UM POETA
Um poeta
é uma senhora que não sabe fritar bifes
mas sabe fritar palavras em lume brando
e comer com os olhos.
Ou um gato que escreve de madrugada
sem saber se está a miar ou a fazer um poema.
É quem diz “bom dia” à vizinha
e “adeus” à realidade.
Com um lencinho bordado,
às vezes sujo de chocolate.
Poeta é quem faz da conta de luz um haicai.
Do miado um verso.
Da roupa estendida um tratado de metafísica.
Um poeta não serve para muita coisa prática.
Mas se faltar,
faz falta como guarda-chuva
em abril.
A SENHORA MARIA DO ROSÁRIO
a senhora maria do rosário
não sabe o nome do marido
mas embala um bebé de plástico
com dedos tão ternos
que o boneca
(quase) chora de verdade
o tempo caiu-lhe da cabeça
como um prato de sopa
à segunda-feira
diz que é mãe
diz que é filha
diz que é irmã da própria mãe
e ninguém a corrige
porque não se corrige uma santa
que canta o hino nacional
a um boneco de plástico
ela chama-se luís
ou antónio
ou carlos
ou maria
depende do dia
depende da enfermeira
ou da lua
às vezes, o boneco pesa-lhe
outras vezes pesa-lhe o coração
(de carne, esse ainda bate)
uma vez gritou que lha iam levar
e ninguém percebeu bem
se era o bebé
ou a alma
no lar chamam-lhe “a dos bonecos”
como se a ternura fosse uma mania
como se a memória
fosse só um armário vazio
ela continua a embalar
aquele que não cresce
mas também não morre
é o único no mundo
que nunca a deixou
HELLO! OLHA UM SER HUMANO!
A pior parte de envelhecer
não é a artrose,
nem os comprimidos,
nem o canal da telenovela que muda sozinho.
É
ficar invisível.
Quando se é novo,
é-se alguém com graça,
ou pelo menos com barulho.
Usa-se perfume,
fazem-se disparates,
tem-se um nome inteiro
e um casaco com fecho-éclair a funcionar.
Depois,
passamos a ser
“a senhora do segundo esquerdo”
ou
“o velhinho que anda ali
com o casaco coçado e o saco do Pingo Doce”.
Ninguém repara,
ninguém sabe que ela foi professora de Português,
ou que ele fazia cálculos
melhor que a calculadora.
Agora dizem:
“Já tem mais de 80”
ou
“Aquilo deve estar quase nos 90.”
Os amigos
foram morrendo,
um por um,
como as lâmpadas do teto.
Os filhos vivem noutro fuso horário,
entre o trânsito
e as notificações do telemóvel.
— Ligam de vez em quando. —
As vizinhas são todas novas,
mães com bebés em carrinhos caros
e pais com sacos de fraldas e brócolos bio.
Ninguém sabe o nome de ninguém,
ninguém bate à porta a pedir açúcar
(ninguém usa açúcar).
Na farmácia,
mudaram as funcionárias.
Já nem dizem:
“Então, como vai?”
Ninguém sabe
o que se passa
do outro lado da porta do rés-do-chão.
É um mundo silencioso,
com cheiro a creme Nívea
e a sopa feita às 10 da manhã.
E depois perguntam:
“Por que é que a mãe liga dez vezes por dia?”
“Por que é que o avô repete a mesma pergunta?”
Talvez
porque querem ouvir uma voz,
qualquer voz,
que lhes diga:
“Sim, ainda estás cá.”
Vi uma série inglesa
onde alguém disse:
— “Reparei em si mal entrei no quarto.”
Quase chorei
(o que é ridículo,
porque eu estava só a ver televisão
com uma bolacha Maria na boca).
Mas sim,
é mesmo isso.
Velhice
não é só ter muitos anos.
É ser cada vez menos visto,
é não dar jeito a ninguém
e, ainda assim,
precisar tanto,
mas tanto,
de dar jeito
a alguém —
nem que seja
para segurar o casaco
ou aquecer as mãos
de um bebé reborn.


