ANTÓNIO BARROS

 

 

 

 

 

 

 


Não não é o “Pela Estrada Fora” do Jack Kerouac da já longe geração beat. Estava em casa sem transporte, mas decidi ir à livraria comprar um livro para oferecer. Sem carro, sem transporte, fui a pé. Demorei 3 horas de caminho [Cemitério de São Silvestre — Portagem de Coimbra]. Numa estrada onde os peões não merecem existência alguma. A viagem leva a correr risco de vida. Encontrei até um memorial de alguém atropelado nesta estrada. Lá continuam na celebração velas, dezenas de jarras, e flores que renovam. A paisagem sonora é apenas o motor dos carros e o ruído dos pneus a bater no alcatrão. Não se ouvem os pássaros, nem mesmo nada mais, salvo algumas convulsas buzinas — de buzinÃO. Os cães não arriscam esta estrada. Por vezes gatos vítimas da noite, já mortos na berma, secos de dias passados, lá surgem. O ar tóxico, poluído das centenas de carros, solta-se em escuro fluxo. Até monstruosos camiões a grande velocidade passam como guilhotinas andantes. À entrada da cidade, ao chegar a Coimbra, li nas paredes manifestos por Gaza. Ao reler, gerei um poema outro, urbano na leitura compósita, texto de situação que dediquei ao Aragão. Artitude minha. Enviei à rede. A Triplov publicou  https://triplov.pt/aragao/

Aragão?, 5 jun 2025, AB, Av. Fernão Magalhães, Coimbra.

 

Cheguei à livraria e, finalmente, adquiri o livro. Uma mulher, C, de Coimbra, escreve e desenha sobre uma outra mulher, P, essa que desenhou sua vida, toda a vida. Hoje ausente, a mulher P, é quem agora podia ser a avó da C. Ambas falam do medo, sim. Sem medo. Mulheres sem medo. Virando o medo — vi ira_rem o medo.
451 graus Fahrenheit, os 233 graus Celsius, essa temperatura a que um livro (de papel) é fogo, e se incendeia [“Fahrenheit 451”, Ray Bradbury]. Os livros ardem mal.
António Barros