Esta noite a folha branca devolveu-me um animal antigo. Não rugia. Respirava apenas. Um dragão de infância, feito de celulóide gasto, pousou no centro do papel como uma sombra dócil. Era escuro, mas não ameaçador — escuro como a polpa da fruta quando a luz se demora nela e aprende a ficar.
Houve um tempo em que eu cabia no mundo. Entrava nas paisagens com a naturalidade da água nos sulcos da terra. Bebia a humidade do musgo, tocava os pinhais como quem aprende um nome secreto. As mãos eram pequenas, mas sabiam tudo. Não precisavam de palavras. Bastava-lhes o silêncio e a noite.
Agora o corpo pesa mais do que a memória. As palavras afastam-se, os gestos tornam-se cautelosos. Já não me pertence o choro das pedras nem o rumor lento do que dura. Caminho com ossos claros, quase lilases, atravessado por um abandono que cresce devagar, folha a folha, como um vegetal à sombra.
Tenho medo de abrir os olhos e não encontrar as rosas. Medo de que o teu rosto tenha escolhido o fundo do mar, onde a luz chega tarde e já não chama por ninguém. Ainda assim, esta mão insiste. Pousa no papel como quem toca a terra. É louca, sim — mas fiel. Tenta aparar a tristeza antiga das lágrimas, não para vencê-la, apenas para lhe dar uma forma onde possa descansar.
JS

