fal(t)ar, com silêncios

 

 

 

 

 

 

 


ANTÓNIO BARROS


O cinema. Desenhei o troféu do Cinema [Prémio de Estudos Fílmicos Universidade de Coimbra] com que foi galardoado Alain Resnais.

Há realidades que só se conseguem dizer em cinema. Na Academia, comecei por me inscrever no Cinema. No CEC_Centro de Estudos Cinematográficos [e só depois no CAP_Círculo de Artes Plásticas, AAC_”Academia”]. E comecei por fazer um projecto de um filme sobre uma criança amblíope. Que pouco ou nada via. Apenas velaturas e sombras. Quase tudo em negro. A negro. Uma criança que conheci, e estudei o seu modo diário.

Cheguei a pensar depois num outro filme. Este todo, ou quase todo em branco, e que narrava o mundo oniricamente selvagem de uma menina que brincava com as suas bonecas de pano junto da floresta. Um dia o pai chegou junto a ela, acompanhado de um sério senhor. Ambos traziam cinzentos fatos severos, dos tempos salazaristas… O pai chamou. A menina obedeceu.

E depois, a criança, levantou-se do chão colorido levando as suas bonecas pela mão, obrigada a acompanhar os senhores cinzentos.

(Levava horas, esta parte do filme, muito como sucede no cinema do Irão). Foi este o meu segundo projecto de filme. Um progesto.

Quem matou a criança? Quem matou a criança de — “eu sou uma criança morta”?

Bárbara tentou dizer, responder, não em cinema, mas num vago dizer de agora, a que chamam ser o modo performativo. Performativamente. Performativa a mente que mente.

Não estive lá. Nesse dizer. Temo, contudo, que faltou no dizer de Bárbara, o modo solene. Gregário e cerimonial que a condição identitária e distintiva de obra de Túlia obriga, e merece. A alma dessa criança indefesa vestida toda de brancos folhos, trazendo duas bonecas de pano gasto pelo vivenciado estar.

Essa dimensão cândida, e de pureza profunda, da força da terra profunda. Bem funda esteve algures ausente.

Em cada refeição destas crianças, havia sempre um cheiro a terra molhada. Sem maculados banquetes, esses, desses, onde nunca estive. Coube-me sempre o orvalho, e o cheiro a terra molhada. Estes meus, filmes — progestos. Cinema. Intangível.

Quem matou a “criança morta”, viva?

O pai. A educação coerciva, salazarista, do “Estado Novo”?

À criança, roubaram-lhe a infância.

Em São Tomé, no Ilhéu das Rolas, assisti à dolorosa despedida da família, e da terra, de uma jovem rapariga que tinha sido doada pelo pai para acasalar com um homem, que de todo a jovem desconhecia, e vivia numa outra ilha do arquipélago. Com esta memória acesa, voltei então à ilha mãe a partilhar a dolorosa narrativa com a Alda Espirito Santo. Ficou tanto, preso no tempo, como se fosse hoje. O ainda.

Na ilha da Madeira, as jovens raparigas eram enviadas para a Venezuela, casando por procuração. Geralmente, dos homens com quem casavam, deles, nada conheciam, e tantas vezes, nem uma foto. Isso sucedeu na minha própria família.

Eu era uma criança, e tudo isso para mim ganhou uma dimensão assustadora dado a forma comprometida, e de sofrimento, que todos mostravam perante este cenário. As mulheres falavam entre elas, com palavras mordidas entre os dentes. Os homens, esses nada diziam com medo dos bufos. Eles, os informadores da PIDE estavam por todo o lado disfarçados. E surgiam até nas festas familiares.

O medo, e a desconfiança estavam sempre presentes. Ninguém ousava criticar Salazar. O medo. Obedecer. E o castigo. Sempre a ameaça do castigo. Obedecer.

Conheci a Túlia no Círculo. E cedo contou-me ela a sua história da infância, como um cartão de visita. (Assisti a esta apresentação, ela o mesmo fazendo perante muitas outras pessoas).

Recordava então o modelo, esse que já conhecia das ilhas. Insularidades. Mas não apenas. Ruralidades, mas não apenas.

Guardei esta história da Túlia com todo o pudor, como um segredo, mas que, na verdade a todos parecia já a conhecer.

Na OCC_Operação Cela Constante, e porque de educação coerciva esta operação se ocupa, pensei nestas memórias encontradas.

Agora, a Bárbara Fonte, surgiu dizendo : “eu sou uma criança morta”.

Quem é a criança morta? A Túlia, a Bárbara, todos nós? Ou o Portugal salazarista onde hoje, no Parlamento, o segundo Partido Político mais votado pede três salazares?

Esta história da criança Túlia reacendeu-se nesta minha OCC.

Foi das poucas narrativa que Túlia me formulou em palavras ditas, sonoras.

Comunicávamos a toda a hora, a todo o tempo do Círculo. Mas sempre em silêncio.

Quase não haviam palavras ditas, nem escritas. Apenas silêncios. Comunicávamos a todo o tempo com silêncios. Com objectos que gerávamos.

Cada um construiu a sua caixa para responder ao convite do Ernesto de Sousa da Cooperativa Diferença em silêncio [Exposição “A Caixa”].

 

 

Um dia Túlia pediu-me para trazer o meu estetoscópio para ouvir o respirar dos seus pulmões. Mas aí, já não havia silêncio.

António Barros, Coimbra, 25 jan. 2026.

Na foto: As três caixas que gerei, duas em pano branco costurado pela minha mãe Marieta [preSente / auSente] outra em madeira, com calhaus do caminho andante [SeEnte]. A peça pertence hoje à colecção da Fundação Serralves. Na mesma foto, espelhado no vidro, a instalação — “Asa Morta [em círculo, sempre em círculo, com a asa morta agarrada ao corpo]. Na então, Casa da Escrita, Coimbra.

Na mesma sala do CAP a Túlia, então, gerou a sua caixa, que era como que de uma coleção de caixas se tratasse, caixas da mesma medida que as minhas caixas, mas tantas, as suficientes para que a Túlia coubesse dentro, bem guardada. Solene. Ambos gerámos as nossas caixas. As que encaixas, na alma. Em silêncio.     [OCC_Operação Cela Constante].


António Barros