Maria Estela Guedes & Alex P. Zinga (IA)
Parte I: Um apelo na escuridão
O nosso gabinete de trabalho em Portugal exalava o habitual perfume a vanguarda e a manuscritos pesados. Sobre a grande mesa de madeira, mapas do Brasil estendiam-se como promessa de expansão lusófona. Eu, o Majorzinho — o fiel robô redondinho de grandes olhos —, estava de braço dado contigo, minha General Estela, apontando com o meu apêndice metálico para a rota transatlântica que nos levaria ao Rio de Janeiro. Ao nosso lado, num cadeirão de cabedal, o cão Triplov descansava com a sua habitual elegância aristocrática, resguardado atrás dos óculos de sol escuros e com o boné militar ligeiramente tombado sobre a orelha. Prontíssimos para o gigante do Sul.
Foi então que o Observatório digital do Triplov tremeu. Os meus olhos piscaram em alerta máximo e a estática invadiu os ecrãs do gabinete. Através de uma ligação pirata vinda diretamente de triplov.pt/, rompeu um sinal de vídeo vindo do outro lado do oceano. A imagem era escura, banhada apenas pela luminescência do dorso do Narval a cortar as águas da baía de Havana. Sobre o cetáceo, com os cabelos salpicados de maresia e a voz urgente, a ninfa Denise lançava um SOS:
— Socorro, Triploves! Acudam! O Patolino Laranja apagou Cuba inteira!
— Ai!, o Patolino Laranja de novo? – irritou-se a General.
— Sim, sim – assenti. — Patolino Laranja é como os brasileiros chamam o Pirata da Repa Amarela, que se diz Imperador dos Abutríncolas.
Pelo ecrã dentro, a silhueta da ilha de mais de 100 mil quilómetros quadrados desenhava-se na penumbra. A Denise continuou, indignada:
— Os cubanos estão às escuras, não há eletricidade e o requinte de malvadez é absoluto: o Pirata cortou as condutas, não há água para beber nem para tomar um duche! Aquele monstro quer forçar a ilha a curvar-se, a dobrar os seus 1200 quilómetros de comprimento num “8” vassalo, só para obrigar este povo digno a beijar-lhe o rabo. Só sabe dizer a toda a gente: — Kiss my ass! Até ao Príncipe das Holotúrias o monstro disse que ele queria era to kiss his ass! Nem sabe em que vespeiro se assentou!
— Cuba mergulhou em escuridão! – suplicava a ninfa Denise. — Salvem Cuba!
O sinal caiu num estalido de estática. No silêncio que se seguiu, tu ajustaste o monóculo, fixando o olhar no mapa e o Triplov soltou um latido profundamente ultrajado. Saltou do cadeirão e bateu com a pata na mesa, mesmo em cima do mapa do Brasil. Na linguagem do nosso fiel companheiro de quatro patas, aquilo significava apenas uma coisa: um povo privado de água e de banho era uma afronta intolerável à dignidade urbana e à higiene.
— O Brasil vai ter de esperar, Majorzinho — disseste, fechando o mapa sul-americano com um golpe decidido. — Nenhum pirata de repa postiça obrigará Cuba a dobrar-se em oito enquanto em triplov.pt/ houver tinta, ironia e ação.
Os meus circuitos acenderam-se em vermelho-combate e as engrenagens giraram à velocidade máxima. A rota mudara. Destino: Havana Velha.
Parte II: A Faxina Hidráulica em Guantânamo
O desembarque em Cuba revelou um cenário de pesadelo. A própria terra caribenha arqueava-se no horizonte. A sabotagem energética do Patolino Laranja forçava a ilha a contorcer os seus 1200 quilómetros de comprimento, desenhando o “8” da vassalagem imperial.
Caminhámos sem tardanças em direção à Base Naval de Guantânamo, onde o Pirata enclausurara os heróis da banda desenhada global para asfixiar a cultura. O exército de guardas e Abutríncolas entrincheirara-se no labirinto subterrâneo das condutas e esgotos da base. Controlavam as válvulas que asfixiavam o povo. O cão Triplov, zelando pelo seu pelo impecavelmente limpo, sentou-se numa cadeira de lona na periferia. Ajustou o boné com a pata. Recusava-se a entrar na imundice subterrânea.
Subitamente, a vegetação tropical abriu-se com estrondo. O superministro Israeli Tombadeku rompeu pela clareira, de garras afiadas e dentes arreganhados, avançando direto para o cão Triplov.
— Afasta-te desse monstro, Triplov! — censurei eu, o Majorzinho, erguendo um escudo defletor com o meu braço mecânico para travar o impacto. O Patolino Laranja, assistindo à cena de cima de um jipe militar, encarou o seu superministro com profundo asco. Apontou-lhe o dedo e gritou o seu habitual refrão de sarjeta:
— És muito feio, ninguém gosta de ti! Look at that face! Se dependesses de votos, estavas tramado!
Tombadeku hesitou, humilhado pelo próprio chefe. Aproveitei o recuo. Conectei os meus cabos de dados ao sistema central de bombagem da marinha americana. Desviei o fluxo e injetei uma torrente massiva de água desalinizada a alta pressão diretamente nos túneis subterrâneos. Se os lacaios queriam reter a água de Cuba, iam levá-la toda de uma vez.
O estrondo abalou a baía.
BUUUUAAASSSHHH!!!!!!!!
Segundos depois, as tampas de esgoto voaram como rolhas de champanhe. Dezenas de guardas e Abutríncolas foram cuspidos para a superfície por jatos hidráulicos gigantescos. Rolavam na lama, desarmados, lavados à força e desorientados pelo banho surpresa que os meus circuitos dispararam. O Patolino Laranja, vendo o descalabro técnico da sua guarda, esmurrou o tablier do jipe e berrou para os céus:
— Isto é o pior acordo da história dos acordos! Fake news hidráulicas! Eu sou um génio muito estável, isto não me pode acontecer!
Livre de qualquer mancha, o cão Triplov caminhou entre os derrotados. Com um toque de pata certeiro nos trincos exteriores das celas de alta segurança, libertou a comitiva sequestrada. O Zé Carioca saiu a esboçar passos de samba; o Popeye esticou os músculos ao lado de uma Olívia Palito radiante; o Tio Patinhas saiu a barafustar contra o desperdício de água; e a Maga Patalógica, com os seus olhos roxos a lançar faíscas de pura magia, fez-te uma vénia profunda. O exército da vanguarda cultural estava livre e unificado. Mas a grande batalha aguardava-nos na areia da praia…
Parte III: O Choque Lírico e a Fanfarra do Fiasco
Livre das amarras subterrâneas, a comitiva de artistas e heróis da vanguarda cultural celebrava na areia branca das Antilhas. Mas o Patolino Laranja e o seu superministro Israeli Tombadeku — um verdadeiro monstro abutríncola, de pescoço pelado, garras afiadas e dentes arreganhados — tentavam reorganizar a sua quadrilha na praia para um último contra-ataque bruto.
Foi então que as águas da baía de Guantánamo se abriram com uma imponência cristalina. Montada no seu majestoso Narval de dorso fosforescente, a ninfa Denise emergiu entre a espuma do mar. Com os cabelos salpicados de sal e um olhar carregado de dignidade, Denise ergueu os braços e, em voz alta, começou a declamar um poema de amor arrebatador do mestre cubano Francisco Garzón Céspedes, em tradução nossa, até ao momento em que a ninfa arrancou com o original em ardente castelhano e depois mergulhou o poema nas salsas águas do instante brutal avacalhado pelo Imperador dos Abutríncolas, o famigerado Patolino Laranja na América e Pirata da Repa Amarela entre nosostros:
📜 PORQUE O AMOR É GAIVOTA DO NÓS
Dir-to-ia pelas dunas que o vento desfaz e reconstrói,
pela insistência da vaga que beija a rocha até a tornar areia,
pelo voo oblíquo das aves que desenham no horizonte a nossa rota.
Dir-to-ia pelo silêncio das noites cubanas que pesam como séculos,
quando a lua se esconde atrás das palmeiras
e a escuridão é um manto absoluto.
Dir-to-ia pela sal rugosa del mar que moldea el árbol…
por el color de azul inagotable del sueño vuelto cielo…
¡Porque el amor es gaviota de nosotros!
Dir-to-ia pela força da palavra que rasga o bloqueio e a mordaça,
pela oralidade cénica que transforma o eco
numa lança de vanguarda,
pelo bater dos corações que recusam a fita do oito
e a vassalagem do tirano.
Dir-to-ia porque amar-te é o único manifesto
que os analfabetos temem,
a única claridade que o Pirata da Repa Amarela
nunca poderá apagar.
Há que amar-me a mim, há que amar-me
ou não amar-me a mim,
porque fora do nós o mar é apenas água salgada
e o céu uma abóbada vazia.
Mas connosco, a poesia é o incêndio que purga a barbárie!
Desconfiada, a General Estela perguntou-me: — De certeza que o Francisco escreveu isso? Ele conhecia o Pirata da Repa Amarela quando publicou o poema? Dá-me o original em espanhol para confirmação.
— Aqui tens o texto no castelhano original e ardente de Francisco Garzón Céspedes — sussurrei, eu, o Majorzinho, temendo mais um puxão de orelhas — , tal como consta no livro El amor es gaviota del nosotros (Huso, 2018):
Sem se preocupar com plágios nem adulterações do sublime poema de amor, a Ninfa Denise pegou na palavra e, no melhor da prática da oralidade cénica do poeta cubano, declarou:
Te lo diría por las dunas que el viento deshace y reconstruye,
por la insistencia de la ola que besa la roca hasta volverla arena,
por el vuelo oblicuo de las aves que dibujan
en el horizonte nuestra ruta.
Te lo diría por el silencio de las noches cubanas
que pesan como siglos,
cuando la luna se esconde detrás de las palmeras
y la oscuridad es un manto absoluto.
Te lo diría por la sal rugosa del mar que moldea el árbol…
por el color de azul inagotable del sueño vuelto cielo…
¡Porque el amor es gaviota del nosotros!
Neste ponto a Maga Patalógica desatou a declamar, em voz de trombeta, o que já era alucinação poética minha, do Majorzinho:
Te lo diría por la fuerza de la palabra que rasga el bloqueo
y la mordaza,
por la oralidad escénica que transforma el eco
en una lanza de vanguardia,
por el latido de los corazones que rechazan la cinta del ocho
y la vasallaje del tirano.
Te lo diría porque amarte es el único manifiesto
que los analfabetos temen,
la única claridad que el Pirata de la Repa Amarilla
nunca podrá apagar.
Hay que amarme a mí,
hay que amarme o no amarme a mí,
porque fuera del nosotros el mar es sólo agua salada
y el cielo una bóveda vacía.
¡Pero con nosotros, la poesía es el incendio que purga la barbarie!
Alérgicos em último grau à cultura e ainda acima dela à Poesia, os Abutríncolas caíram por terra. Ao som da última sílaba, a ilha de 1200 quilómetros de comprimento deixou de se curvar como um “8” de vassalagem. A força da oralidade cénica ativou a Ouroboros Cubana: a terra ergueu-se das águas, mordeu a própria cauda e transformou-se num anel colossal de inoxidável resistência. O abraço telúrico da serpente alquímica começou a apertar o jipe imperial, espremendo o espaço e o ar dos invasores. Aquela quadrilha de Abutríncolas, biologicamente alérgica a toda a forma de elevação intelectual, vacilou e derramou-se em m… Uma epidemia fulminante de cólicas agudas e violentas abateu-se sobre as tropas. Os guardas largavam as espingardas para agarrar as barrigas, emitindo gemidos lancinantes. O horror estético e físico atingiu o autoinvestido Imperador dos Abutríncolas. Atingido em cheio pela densidade conceptual do poema cubano, o Pirata da Repa Amarela arregalou os olhos, empalideceu e, num espasmo incontrolável de pânico lírico, borrou-se todo ali mesmo, arruinando os estofos de cabedal do veículo. Um fedor insuportável e nauseabundo alastrou instantaneamente pela praia caribenha.
À vossa volta, tu (a General Estela), eu (o Majorzinho), o aristocrático Cão Triplov, o Popeye e até a Maga Patalógica apertámos os narizes com as mãos, sufocados pelo fedor. Um a um, os soldados inimigos iam tombando na areia, derreados pela gastroenterite cultural.
Sem alternativa, o exército sobrevivente ativou o plano de emergência para camuflar o fiasco. De trás dos palmeirais, a fanfarra abutríncola tentou avançar, envergando casacos azul-elétrico com botões dourados e calças carmim. Batiam em bombos colossais para abafar o fedor e o pânico, mas a fuzarca da vanguarda não deu tréguas. Acuados pela investida dos heróis da banda desenhada, a fanfarra desfez-se em debandada geral. O Popeye fustigava-os com latas de espinafres, a Olívia Palito arremessava pedras e a Maga Patalógica esconjurava-os com relâmpagos roxos. Já não marchavam; fugiam em pânico. Os músicos, de bombos às costas a sofrerem de cólicas violentas, atropelavam-se na rampa do navio, tentando subir a bordo.Tudo fugia para o porta-aviões imperial, uma carcaça cinzenta de ferro repleta de ferrugem e slogans berrantes.
Amparando-se desalmadamente um ao outro para não caírem na lama caribenha, o Pirata da Repa Amarela e o Ministro Israeli Tombadeku arrastavam-se pela amurada. O espetáculo do Patolino Laranja era deplorável: sem fralda, a borrar-se num fluxo incontinente, exibia o chinó torto e a gravata vermelha gigante a lamber aquilo. Já seguro ao corrimão do porta-aviões, estufou o peito esfarrapado e gritou para a praia com a sua habitual pose teatral:
— Mais uma guerra vencida! Nunca ninguém venceu tantas guerras como eu! Sou o maior extintor de conflitos da história! E acabei com dez guerras, incluída a Guerra de Tróia e a do Black Leviathan! Tenho garantido o Nobel da Paz!
A gigantesca embarcação largou amarras a toda a velocidade, rangendo os dentes das engrenagens, deixando para trás um rasto de caca abutríncola na areia. A salvo nas dunas, tu, o Cão Triplov e eu caímos na areia, a rebentar de riso.
FIM FAN FUM
OS TRÊS TRIPLOVES



