LEONEL MOURA
Conheci o Herberto Helder no final dos anos 60, quando frequentava o irreverente meio de poetas, escritores, alcoólicos e loucos que vegetavam no Café Gelo e no Monte Carlo. Embora já artista, eu era demasiado jovem para ter importância, não fosse estar acompanhado por uma namorada muito bonita que a maioria cobiçava.
Leonel Moura nos anos 70
À meia-noite do dia 1 de janeiro de 1970, entrei na Holanda. Sei a data e a hora precisas porque, não tendo passaporte, tinha desertado da guerra colonial, com um amigo holandês que me dava boleia, aproveitámos o momento em que os guardas abriam o espumante para atravessar a fronteira.
Algures em 1971, o Herberto apareceu em Amesterdão e ficou na minha casa, na Tweede Laurierdwarsstraat, nome divertido que nunca mais esqueci, no famoso bairro anarquista do Jordaan.
Herberto Helder nos anos 70
Não ficou muito tempo, apesar da minha oferta de casa e comida. Mas nessas semanas estabelecemos uma excelente relação que perdurou para a vida. O Herberto apreciava arte, sobretudo a pop art americana. Visitámos galerias de arte, não havia muitas interessantes, mas recordo que uma vez, numa delas, conhecemos a Niki de Saint Phalle e o Tinguely. O Stedelijk foi um destino assíduo; ali tivemos longas conversas sobre arte que me ajudaram muito. E o café Twee Zwaantjes, frequentado por marinheiros, operários, artistas, desertores americanos da guerra do Vietname e músicos locais, também era um dos nossos locais preferidos.
Também fomos várias vezes ao Paradiso ver o ambiente psicadélico.
O Herberto estava claramente numa fase de procura. Era subversivo no pensamento, mas muito ponderado no comportamento. Um dia partiu.
Voltei a encontrá-lo depois do 25 de Abril. Eu tinha regressado da Holanda já com um filho e sem dinheiro. O Herberto foi comigo à Galeria 111 e o Manuel de Brito comprou duas telas que eu trouxera enroladas. Não foi por mim, foi pelo Herberto.


