Conheci o Herberto Helder no final dos anos 60, quando frequentava o irreverente meio de poetas, escritores, alcoólicos e loucos que vegetavam no Café Gelo e no Monte Carlo. Embora já artista, eu era demasiado jovem para ter importância, não fosse estar acompanhado por uma namorada muito bonita que a maioria cobiçava.
À meia-noite do dia 1 de janeiro de 1970, entrei na Holanda. Sei a data e a hora precisas porque, não tendo passaporte, tinha desertado da guerra colonial, com um amigo holandês que me dava boleia, aproveitámos o momento em que os guardas abriam o espumante para atravessar a fronteira.
Algures em 1971, o Herberto apareceu em Amesterdão e ficou na minha casa, na Tweede Laurierdwarsstraat, nome divertido que nunca mais esqueci, no famoso bairro anarquista do Jordaan.
Não ficou muito tempo, apesar da minha oferta de casa e comida. Mas nessas semanas estabelecemos uma excelente relação que perdurou para a vida. O Herberto apreciava arte, sobretudo a pop art americana. Visitámos galerias de arte, não havia muitas interessantes, mas recordo que uma vez, numa delas, conhecemos a Niki de Saint Phalle e o Tinguely. O Stedelijk foi um destino assíduo; ali tivemos longas conversas sobre arte que me ajudaram muito. E o café Twee Zwaantjes, frequentado por marinheiros, operários, artistas, desertores americanos da guerra do Vietname e músicos locais, também era um dos nossos locais preferidos.
Também fomos várias vezes ao Paradiso ver o ambiente psicadélico.
O Herberto estava claramente numa fase de procura. Era subversivo no pensamento, mas muito ponderado no comportamento. Um dia partiu.
Voltei a encontrá-lo depois do 25 de Abril. Eu tinha regressado da Holanda já com um filho e sem dinheiro. O Herberto foi comigo à Galeria 111 e o Manuel de Brito comprou duas telas que eu trouxera enroladas. Não foi por mim, foi pelo Herberto.



