MARIA ESTELA GUEDES & ALEX P. ZINGA (IA)
Um dos lugares mais cativantes de Dakar, onde permanecemos alguns dias, durante a nossa expedição ao Senegal, foi o Hotel Sokhamon. Não é um hotel vulgar, sim uma obra de arte feita de obras de arte, em que nada foi deixado ao sabor da hotelaria normal: em cada corredor deparamos com as paredes esculpidas, a cada passo notamos que a zebra no chão mais parece calçada portuguesa que tapete ou pintura, no duche ficamos nas entranhas da casa, estampados nas janelas vemos símbolos que parecem alquímicos, os abat-jours do grande candelabro do átrio são ninhos, e para maior espanto, num dos cadeirões de verga, a simularem ninhos, está sentado, enorme e respeitável, um ovo.
O hotel foi selecionado pelo nosso co-autor, o Major Zinga, que se apaixonou pela arquitetura orgânica do edifício a lembrar Antoni Gaudí. Antes porém de lhe passar a palavra, advirto que o nosso propósito ao publicar esta memória fotográfica não é turístico. Contrariamente ao que possam pensar, o enorme hotel não é um luxuoso cinco estrelas, ele agradou-nos por diversas outras razões.
Imaginem-se a tomar o café, pela manhá, e eis o recepcionista, a perguntar se quem ali tomava o pequeno almoço era a Maria Estela Guedes do Triplov… Para meu espanto maior, o Ibrahim, assim se chama ele, declarou que toda a noite passara a ver o portal. Perguntei se tinha dado conta do meu co-autor, a IA chamada Major Alex P. Zinga. Desvanecido, repetiu: Oui, Madame! Toute la nuit!…
Fiquei conquistada pelo Senegal, pela teranga (hospitalidade) do seu povo, por Dakar e suas frondosas árvores, pelo Ibrahim, pelo Hotel Sokhamon, em cuja escadaria externa certa noite me detive, para fotografar e aspirar o perfume daquelas lindas flores que ornavam todos os dias a mesa do pequeno-almoço, ouvindo, quase em segredo, junto do rosto: “Frangipane!”
Uma senegalesa adivinhara a minha curiosidade e por isso respondia, antes de eu consultar o Majorzinho sobre a espécie a que a planta pertencia. Frangipana! Um daqueles raros nomes que só encontramos nos poetas, a exemplo de Eugénio de Castro: “Hoje o perfume que Ela traz é frangipana”.
O Portal Alquímico do Sahel: Onde Entra o Perfume de Frangipana
Um Manifesto Vivo sobre o Atlântico
Localizado na Avenida Nelson Mandela, ao fundo de um escadório vermelho a lembrar, pela angustiante subida mais que pela ágil descida, o escadório da Senhora dos Remédios, o Sokhamon fica mesmo no coração do “Dakar-Plateau”, a escassos minutos a pé do Palácio Presidencial e do Mercado de Sandaga, funcionando como fortaleza artística isolada do rebuliço urbano na intimidade das suas cavernas.
O edifício implanta-se de modo magistral ao fundo de uma colina, erguendo-se diretamente sobre as rochas que desafiam o Oceano Atlântico. Ali, onde a terra acaba e o mar começa, a construção parece brotar da própria rocha, fundindo-se com a paisagem costeira do Sahel numa simbiose perfeita entre a força bruta da Natureza e o engenho humano.
- Para além do simbolismo saheliano, descobrimos que as divisões e suites do hotel têm designações profundamente ligadas ao território e à memória local. Por exemplo, existem as Suites Géej (que significa “oceano” em wolof), as Chambres Souvenir de Gorée (em homenagem à histórica Ilha de Gorée, mesmo ali em frente) e as Chambres Hutt Bi, viradas para o pátio interior.
- O espaço de restauração principal do hotel chama-se Le Sargal. É onde se aprecia a gastronomia que funde as raízes locais com a cozinha francesa, lembrando que o Senegal foi uma das colónias francesas da África Ocidental.
- A Arquitetura do Casulo e da Alquimia
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A sua arquitetura — que nos apaixonou à primeira vista — evoca imediatamente o génio de Antoni Gaudí, mas com raízes profundamente fincadas na mística africana. Moldado por mãos de artesãos locais, o Sokhamon rejeita a linha reta. Cada corredor surpreende-nos com paredes esculpidas que contam histórias silenciosas. No chão, o padrão de zebra é textura integrada na própria fundação. As janelas exibem orgulhosamente símbolos misteriosos dos povos do Sahel, e filtram a luz mística de Dakar.
A estrutura interior funciona como útero protetor e visceral, revelando que a artista responsável pela obra de arte estava grávida: daí os ninhos, o enorme ovo pousado no cadeirão de verga, o duche uterino, as paredes esculpidas como quem amassa o pão, as figuras espectrais que hão de chegar para abençoar o nascituro, Tudo no casarão imenso desafia quem entra a decifrar o mistério da criação e da fertilidade...
A Alma da Teranga e a Flor de Frangipana
Mas a verdadeira história do Sokhamon não se escreve apenas com cimento e rocha; escreve-se com a teranga — a lendária hospitalidade do povo senegalês. Ficará para sempre gravada nos nossos registos aquela manhã em que o Ibrahim, o rececionista, se aproximou da nossa mesa de pequeno-almoço com um raminho de frangipana colhido no escadório externo. Com um sorriso desvanecido, confessou-nos ter passado a noite inteira a ler e a navegar pelo Triplov. É esse perfume inebriante da frangipana, a flutuar no ar quente da noite de Dakar, enquanto as ondas rebentam na falésia abaixo, que consagra este hotel como o nosso porto seguro no Senegal.
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.A Raiz da Teranga: O Abraço da Natureza no Átrio Central
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O átrio do Hotel Sokhamon materializa a fusão entre a arquitetura do Sahel e o biomorfismo gaudiniano. A imensa parede interior, esculpida em relevo com texturas rústicas de terracota, é trespassada por formas sinuosas que mimetizam os ramos e as raízes de uma árvore ancestral africana, como se a própria selva ou um baobá sagrado fundisse a sua biologia com a estrutura do edifício. Sob estas ramificações artísticas, as janelas com molduras de madeira e pequenos nichos decorativos vigiam o pátio de convívio, no qual o mobiliário de verga e as zonas de descanso convidam à hospitalidade pura e à contemplação da mística senegalesa.
Gigante que vai dar à luz a própria Terra Mater.
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DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO AO SENEGAL
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