ELISA SCARPA
O infante de sítio em sítio
Vai cumprir o horário.
Infantes obedeçam,
Entre o limpar da remela da manhã,
E o toque de ir para a cama.
Uma matilha de mentiras
Vos fará fraterno conforto!
Eu cheia de actos falhados
E erradas percepções:
Vejo o infante.
Digo-lhe: Bom Dia.
Ele recusa-me a mão que lhe estendo.
Elevada suspeição.
Está com pressa o
Infante.
Lá vai… Algo acabrunhado
Como se o sono ainda não o tivesse
Abandonado.
Pergunto-lhe como estão os Pais?
Responde com um esgar, que não leio.
_ Tu comeste um croissant com manteiga.
Estava bom ?
O psicólogo dirá se o achaste bom, ou não …
Quantos a falar por ti!
Arranja colegas
Que atravessem a passadeira
Apressados como tu.
Atravessa-la 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª feira,
E às vezes sábado,
Quando há actividades extra.
Extra sim, extra mais ou menos…
Deves estudar trabalhar cumprir…
Estrangulares-te com a corda do dever
Na casa na escola.
Muitos te esperam no telemóvel!
Rodas com as rodas do autocarro
Singras com o silvo da movida do metro.
A mãe foi ao Hiper
O pai teve que ir às finanças
O irmão encontra-se refém da Netflix.
Com tempo as tuas pernas vão crescer,
E com alguma sorte o resto
Também crescerá.
Apressa-te:
Porque é que levas uma tartaruga,
Quase com o mesmo peso que o teu,
Acoplada às costas?
Tens que ir _ carrega que
O Teu carregar tem graça!
É Bom Dia ( é dia de carrego).
Para mim é Bom Dia,
Que não tenho que andar
Com uma tartaruga às costas.
Vi um documentário em que as
Tartarugas nascituras ….
São poucas as que chegam à água
E sobrevivem,
E no escuro da sala escura
No Museu de História Natural,
Confundiu-me aquele desaparecimento,
Tão súbito tão breve.
Pareciam centenas de colheres
De açucar a desvanecerem-se
No negro do café quente
Que matinalmente engulo.
Guardaste o equipamento de ginástica?
Arrumaste as sapatilhas?
Enviaste o trabalho de português?
Não me digas que a plataforma
não estava a funcionar!?
Não te esqueças de telefonar à avó.
Escova os dentes.
Vai chamar o teu pai.
Sentes uma pressão no peito,
Quando te levantas?
É da pressa, infante…
Ah… e não esqueças a tartaruga.
São mais créditos asseados na tua avaliação!
Fazes bicha
No bar da escola p’ra o croissant.
Não se pode confiar numa
Criança que não come doces!
Como vais carregar a tartaruga,
Cinco dias por semana?
A tua tartaruga só tem quatro patas
_ As pegas da mochila… assim é mais leve.
Dos tísicos não reza a travessia
Das passadeiras, com tartarugas
Gigantes acopladas às costas!
Lembras-te quando foste ao Zoo,
E viste tantos animais com passadeiras
Verticais a barrarem-lhes
O ímpeto da fuga?
Ainda não será agora, que vais perder
Cabelos nervos ganhar unhas
Roídas até ao sabugo.
Não deixes de me falar, eu simpatizo
Contigo, e até te digo bom dia,
mesmo que não respondas.
Quando a tua razão me cumprimentar,
É porque a tartaruga já não estará
Contigo.
Tens aqui, outra criança
A quem cumprimentar, infante
De carga!
Ainda assim como assim
Gosto de te ver
A atravessar a estrada.
Embora mal te veja a cabeça,
Que vai dobrada para a frente,
Como é próprio delas.
A carapaça guarda a cabeça.
Um brilho luminoso
Sai-te dos dedos
E fala sozinho
Com um pequeno
Toque de um só dedo
No écran.
Infante criança cria,
Ainda não estás criado,
E já há um escravo
A lamber-te a planta dos pés
A dobrar-te as costas
A ajoujar-te os olhos
A bater-te nas nádegas
Com a cruel
Vara da obrigação.
Nem podes imaginar…
O Seat dos adultos
Anda tão depressa
E não tem espaço
Para a tua imaginação!
Que os testes americanos,
Não deixam ninguém com dúvidas!
Entornaste o ucal de chocolate
Nas calças, deixa lá, a máquina
Lava, se carregares no botão certo.
Serás tão feliz como ela…
Se te carregarem no botão certo.
Arrepio-me ao pensar que
A tartaruga te pode guardar
Dentro dela, e eu posso
Não te conseguir ver mais.
A infância foi esse momento
Engraçado em que nenhuma
Graça me alcançou _ por isso
Te chamo Infante.
Às vezes o teu pai vai
Contigo
E estende-te um mindinho
Que tens dificuldade
Em segurar _ por causa da
Tartaruga que te pesa na
Tua apressada passada,
Que se atrasa sob o peso da
Carga e a pouca ou nenhuma
Tracção do mindinho.
O que foste ontem à noite
Já não és hoje de manhã.
É isso que é crescer… e a acoplada?
Mantém-se… carregá-la-ás como mochila:
O lanche, a consola, o equipamento de
Hóquei, o piano
Até à última tecla,
A ténia do QI endémico,
O percentil do peso e da altura
Em constante observação… e a
Ascensão à casa ao carro e à
Volta ao mundo em 80 países… no minímo…
Eu escapei à infância porque ela me expulsou
Da sua prisão e ainda hoje fujo a sete pés….
Cuido que te cuido!
Diz-me bom dia, infante
Por muito veloz que seja a tartaruga
Não conseguirá chegar à meta
Antes da tua voz.
Sim, vejo-te, sim.
Não, não sei o que fazer.
A infância é redonda
E gira sem falar.
Fizeram-me mais pequena
Do que tu.
Escrava de tartaruga
Também eu estou,
A arumar a desgraça da infância,
Num sítio só paredes e portas.
Os adultos que te armazenam
São singelamente gentis,
Quando a tartaruga da sobrevivência lhes permite.
Quem sai aos seus não regenera!
É uma lista da passadeira a seguir a outra lista
E do outro lado três luzes:
Uma verde, uma amarela, uma vermelha.
E para nossa segurança
Avançaremos a duas delas,
E a uma pararemos,
Simples _ cumprimos o proíbido.
O que não é proíbido
Temos que o descortinar.
Acerca dos infantes que cresceram
Não sei dizer mais nada.
O velho bêbedo que te olha
Sem te ver
Treme das mãos
E olha para a tartaruga
Acoplada às tuas costas
Como se ela fosse o Evereste.
O grande cachorro simpático
Corre para ti, sempre
Que te vê, e eu também…
Ele não chega a tocar-te porque o dono
Puxa a trela… eu também não chego
A dar-te os bons dias, porque sei
Que não vais responder.
És um novo infante a cada dia,
A tartaruga parece diferente,
Mas só está mais fardo
Farda pesada
Em mais pesado fardo.
Na parecença de outros infantes
Na crescença de outras crias
Que lentamente crescem
Ao atravessar as passadeiras.
Insere os três códigos para
Entrares na escola na casa
… Ah são só dois, os códigos…
… No cemitério não é preciso
… A entrada é livre
Para as tartarugas de curto curso.
Quando levantei os olhos
Do café
Já o açucar branco se havia
Dissolvido
E ias já quase ao fundo da rua.
Vejo do fundo a rua
E agradeço-te por passares.
Faço coro com o bêbedo que não te vê
E o mindinho que te toca
Ao de leve e tem dificuldade
Em te orientar.
Acolá acontece
Falares com alguém
Que não seja o écran luminoso
Que te acompanha.
No reservado da escola
Choras porque alguma
Coisa te aconteceu.
Desde o início alguém sabe
Mas não o poderá
Dizer.
Porque é preciso que cresças!
Quinta feira vais a uma festa,
Não sabes que roupa levar…
Qual a prenda que deverás dar…
Por cada obrigação que te persegue,
Nasce uma tartaruga,
Mais muito mais peso.
Tanto quanto sei,
Elas ao fim de alguns anos
Piram-se!
Vou estar Lá, para assistir ao piranço!?
Não troques o teu sorriso
Pela canga do serviço militar
Não hipoteques o rim
Para comprar outro rim
Não mates como dever Nacional!
Escolhe não atravessar na passadeira!
Detestáveis coisas diárias vi
No argumento quase insultuoso,
De que não era capaz
De outras coisas, senão atravessar na
Passadeira.
Quilos de material
Levas para a escola.
Há quem use troleys
Com rodas, é vê-los
Pela cidade das malas
Abandonadas.
Levas meia casa às costas.
As ruas
Dizem que não terás casa.
Casas caras
Com que os teus pais esbracejam
Para não se afundarem na
Maré dos empréstimos.
Em princípio as Obrigações são
Mais seguras_ duras obrigações
Da brutalidade securitária.
Sem remorsos, vejo que te doem
As pernas sob o peso.
Mas não vou carregar
A tua tartaruga,
Nem gritar para as ruas:
_ Acabem com este absurdo
De carregarem as costas
Das crianças com tartarugas!
Sim, é essa a aflição da minha cobardia!
Os que passam por ti
Em sentido contrário,
São como eu,
Imberbes na ousadia.
O que me deslumbra em ti
É a forma como o
Écran luminoso
Te acalma.
A tua cabeça está adentro da
Carapaça.
Esquece que eu te digo Bom Dia.
Eu uso óculos de sol para que
Não me vejas os olhos.
Quando está frio, o cachecol
Tapa-me a boca,
Para que não a vejas.
Mais um dia e mais uma tartaruga.
A passadeira mantém-se às listas.
Créditos só nos bancos.
Outra tartaruga
Irás encontrar amiúde
Seja noite ou seja dia.
Contra o stress:
Compra um seguro,
Um kit SOS para calamidades,
E meia dúzia de gomas,
Para dares aos dentes
E relaxares os maxilares.
Não tires a mochila
Das costas,
Ainda a deixas na passadeira.
E depois,
Às vezes o sinal vermelho
Fica vermelho
O dia inteiro.
E pronto, estás feito!
Já viste o tempo que uma
Tartaruga leva a atravessar
Uma passadeira?
Podes ser criança,
Se tiveres a sorte
De não haver muita gente
À tua volta,
Que sabe exactamente o que é bom
Para as crianças,
E tão inversamente o que é mau
Para os adultos.
Atravessa
Meticuloso a passadeira,
Enquanto nas tuas costas
A tartaruga
Ressona o sono
Da manhã mater,
Que te alimenta
A mochila.
Vais-me sobreviver
Neste lugar cheio de passadeiras
E semáforos para entrar
E sair das celas.
A senhora com a muleta
Olha para ti
E para a mochila nas tuas costas.
Acho que a tua mãe
Te vai levar ao meu enterro!
Não permitas, que eu te diga
Nesse meu estado, que irá ser
Na altura, de inanidade total,
Que eu te diga Bom Dia.
Estarei atrasada para te ver
Atravessar
A
Passadeira.
E com orgulho,
Infante de carga,
Segura o écran com afinco,
TIRA A MOCHILA,
LANÇA-A NA MINHA COVA.
Ergue o queixo,
E não me digas :
Bom Dia!
elisa scarpa
Desenho de Luís Filipe Gomes executado durante o Encontro Triplov.
ENCONTRO TRIPLOV
Convento de S. Domingos / Lisboa / Abril de 2026
ORGANIZAÇÃO
Maria Estela Guedes . Elisa Scarpa . M. Céu Costa . Rui Grácio, Maria Azenha


