ALEXANDRE HONRADO
KAFKA E EU
ou
as metamorfoses em A Metamorfose
Afastemo-nos da criança que teimou em assustar-se.
Todos os dias desperta de sonos agitados e atemoriza-se, renovada, com o que vê em seu redor. A luz mal entra pelas frinchas da janela; o quarto é bafiento, tem livros a mais, ar pesado e cores duvidosas. Foi ali que, sem idade para tanto, o rapazito leu, de seguida, a crueldade presente na lâmina quente que procurou cegar o correio do czar, Miguel Strogoff; depois testemunhou a ira assassina de Rodion Raskólnikov que utilizou um machado para cometer um duplo homicídio (o da velha agiota Aliona Ivánovna e o da irmã dela, Lizaveta); e procurou compreender ainda os complexos mecanismos presentes no desconforto de um corpo humano que, sem explicação, mas necessariamente arredado de qualquer atributo onírico, se vê transformado em inseto cujo cérebro se mantém humano e a agressão, o horror, parte daqueles que deviam ser os maiores defensores do agredido (sim, os familiares de Gregor Samsa, o caixeiro viajante, ou mesmo o autor da narrativa, Franz Kafka, um vendedor ambulante de histórias de desencantar).
Aproximemo-nos do adulto que resultou da lenta e dolorosa transformação daquela criança em homem. (Todos nós somos produto de metamorfoses, da lagarta que se enreda nos fios de seda dos seus sobressaltos, à mariposa nem sempre atraente que dela resulta depois do longo caminho, em casulos variados, que nos faz crescer até ao fim).
Todos os dias o adulto desperta de sonos agitados, mas a realidade simplificou-se: o quarto tem mais luz, mais ar que corre em direção ao quarto seguinte, ar sempre condicionado por algum capricho, as janelas têm vidro duplo e nenhuma frincha, os livros foram selecionados. As cores são harmoniosas. A lâmina quente reproduziu-se. A profunda alegoria sobre a condição humana que um escritor guindado ao Nobel descreveu em lugar certo – resultando um ensaio sobre a cegueira e fazendo de cada um de nós o Miguel Strogoff de outra era – não surpreende no mundo caótico e bárbaro em que nos movemos (ou entrincheiramos).
O homem não se surpreende. Assustou-se antes, para poder viver agora na indiferença. Não teme a morte – os tiros, as bombas, os venenos, a maçã que possa atingi-lo. Ele sabe sem saber que o pomar de onde surgiu essa maça nada tem a ver com os pomares espirituais ou agrícolas: todas as paisagens pessoais são desconexas, desequilibradas, desconjuntadas, não param de mudar – e essa mutação é a metamorfose que se sucede à metamorfose, as metamorfoses em a metamorfose, como num livro que há muitos anos aterrorizava um rapazinho que trocava a solidão da leitura e da geografia do seu quarto, pelo espaço sem fim das suas viagens pelos medos e pela vitória sobre o pavor (nada de cegueira, sangue na lâmina do machado, corpo de carapaça e pernas finas no lugar da cabeça, do tronco, dos membros prontos a crescer).
Afastemo-nos e aproximemo-nos de A Metamorfose (Kafka, F. 1915).
Veremos as metamorfoses: Gregor Samsa de caixeiro ambulante em enorme inseto condenado ao abandono; da sua família, que permanece quase imóvel até à metamorfose que nela se opera graças à morte do filho, conferindo-lhe uma inesperada mobilidade (saem de casa, tomam novos rumos); do narrador da história, e do seu formato impessoal que usurpa a remissão do protagonista e impede a construção formal de qualquer piedade ou remissão; da própria linguagem, que se escoa na voz humana de Samsa transmudada numa voz impossível de inseto que é afinal a voz ainda humana de um novo Gregor (alerta: os insetos não falam, os humanos não falam assim); e finalmente, a metamorfose mais violenta: a irmãzinha de Gregor torna-se mulher. Já nem o irmão é necessário como ganha-pão de um núcleo tão frágil como o daquele agregado. Ela agora é uma mulher. Zénite das metamorfoses enunciadas (a cegueira de Sandorff representando para o mundo o que não vê; no ventre às escuras que pode ser o casulo da mais fantástica das metamorfoses; no sangue que é atributo de todo o corpo feminino de forma tão singular; na possibilidade de negar ao inseto a dignidade que é reservada a – alguns – humanos).
Zénite, até à última linha de um conto rumo ao infinito.
