ALEXANDRE HONRADO
KAFKA E O FEMININO
A FORMA DO INOMINÁVEL
Uma das marcas mais ferozes da exibição do poder absoluto da burocracia, com efeitos práticos para lá do simbólico e dos utilitarismos que lhe estão subjacentes, é o enredo inerente em que se estabelece, aprisionando o ser humano comum como a aranha o faria à mosca mais ignorante e desprevenida.
Cair na tentação de burocratizar a leitura e a literatura – fazendo crer que podem explicar-se ou sofrer os formatos da interpretação, à semelhança do ferro que na bigorna é moldado pelo calor de forja e pela força poderosa do ferreiro, que se aproveita de uma matéria resistente tornada maleável para a conduzir a um novo patamar, metamorfoseando-a a seu bel-prazer, levando por vontade própria a matéria-prima a um formato que agrade a um consumidor motivado e ávido, pelo percurso da paciência e da incandescência à etapa vitoriosa do utensílio ou do artefacto exibível (e talvez cobiçável) -, ceder nessa atração é um erro que não devemos cometer com Franz Kafka e com o seu espólio excecional. Esta ideia, aliás, é, como diria Susan Sontag no seu famoso ensaio[1], contra a interpretação. Sontag debruçou-se ela também sobre Kafka, a sua dimensão e obra, tornando-se assim uma das mulheres de Kafka. Entenda-se, passou a ser parte integrante de uma esfera de influência que compõe uma longa lista. Com algum atrevimento, podemos incluir no rol, por exemplo, Paula Rego, Agustina Bessa Luís, Maria Gabriela Llansol, Maria Velho da Costa, Hélia Correia, ou noutra dimensão atrizes como Alessandra Maestrini ou Denise Stoklos…
As figuras maiores da vida de Franz, na sua relação com o universo feminino, obviamente, são as de Felice Bauer, Milena Jesenská – protagonista de uma brevíssima, muito marcante, mas episódica relação -, em relações marcadamente platónicas (e profusa – e delirantemente – epistolares) ou, já em final de vida do escritor, Dora Diamon (ou Diamante).
Não esquecemos a mãe de Franz Kafka, Julie Löwy Kafka e as irmãs do escritor, a preferida Ottla, a mais nova; Elli (Gabiela); e Valli (Valerie). Para não falar das mulheres da ficção, como Frieda Brandenfeld, a noiva de Georg Bendemann (em O Veredito); a mãe e a irmã de Gregor em A Metamorfose (a senhora Samsa e Gret Samsa); a mulher do romance O Processo, que recebe um par de meias de seda do juiz, mas que é a mulher do oficial de diligências (ou porteiro do tribunal).
Não esquecemos as atrizes que tanto admirava (e amava “irracionalmente”, como assumiu em relação a Millie Chissik -Mania Tschissick- ou Flora Klug, que descreve como uma “figura maternal”). Kafka e o Teatro Yiddish (tão profundamente estudado por Evelyn Torton Beck[2]) tinham uma relação próxima. O diário de Kafka regista a sua profunda admiração pelas atrizes da companhia de Löwy[3] que brilhavam nos palcos do teatro iídiche/yiddish, em Praga.
Na lista das relações femininas de Kafka, contam-se muitas outras presenças, das mais diversas proveniências.
Não esquecemos também que Franz Kafka, um homem púdico” na definição de Dora Dyamant” tinha uma vida mundana que o levava a muitos cenários e convívios – e frequentava bordéis com alguma assiduidade.
Querer normalizar Franz Kafka é um erro. É um efeito kafkiano? Podemos parar à porta, mas não saberemos se a mesma nos é destinada, se algum dia se abrirá. Ele tem a forma, a designação do inominável. Não teme o sexo, nem o amor, mas a infinita carga burocrática em que uma família se traduz.
Responsabilidade? Teme a responsabilidade? Teme as limitações? É que esse lado da vida assusta: não é, por muitas razões, a literatura como destino, muito menos para quem é demasiado frágil para permitir a eternidade àquilo que escreve.
Ouvem-se labaredas no fim dos textos de Kafka, mesmo quando acabam em vírgulas e enredos incompletos.
[1] Cf. SONTAG, Susan. (2022). Contra a Interpretação | e outros ensaios. Lisboa: QUETZAL.
[2] Académica norte-americana, já aposentada, autora do livro:
BECK, Evelyn Torton. (1971). Kafka and the Yiddish theater : its impact on his work . Madison: University of Wisconsin Press.
[3] Apesar do apelido igual, sem quaisquer ligações à família materna de Franz Kafka.

