LUÍS DE BARREIROS TAVARES (Org.)


V poemas inéditos do caderno Apontamentos Poéticos (1982) de Manoel Tavares Rodrigues-Leal. Com ligação às revistas Mirada e Caliban.


a Estela Guedes

Desenho a pincel e tinta da china em papel (detalhe – 1989) – © Luís de Barreiros Tavares

 

Extremamente nua. E através dela a sombra
luminosa, a mais íntima coisa e a mais externa
António Ramos Rosa

 

I

Oh praia deserta da minha juventude,

rara inscrição do que se perdeu para sempre…

agora repousa no sul exacto do teu ventre.

Oscila a água do mar, e tudo se recolhe amiúde,

à janela do meu ser, que sabor amargo

de memória e lume… do amor passado, ainda flutua um barco.

Lx. 19/7/82

 

II

A tatuagem, a hera, o que resta

da guerra.

Não te comi como era urgente

comer-te. Como um fruto.

E, enquanto escuto,

cai a tarde misteriosamente.

Lx. 20/7/82

 

III

São os teus lábios,

feitos farrapos.

 

São dons de parágrafos.

 

Leio o teu rosto, releio-o,

como a simetria dum seio.

Lx. 1/8/82

 

Desenho completo a pincel e tinta da china em papel (1989) – © Luís de Barreiros Tavares

 

IV

Sob os sons das águas do verão,

renasço.

Sob o abraço do sol.

que declínio…

e assim vigília e noite.

Que deus me acoite.

Lx. 3/8/82

 

V

Não sei que rio de melancolia

possuía raízes…

são só países de nudez.

Oscilas, e quebras a geometria

de um dia azul.

Lx. 7/8/82

 

Manuscritos dos poemas III e IV

 

Duas publicações recentes com poemas do caderno Apontamentos Poéticos

https://www.miradajanela.com/2025/03/e-o-azul-branco-do-teu-olhar-cinco.html

https://revistacaliban.net/a-curva-do-teu-seio-engendra-a-p%C3%A9rola-do-dia-b575d786b66b

 

Manoel T. R.-Leal – c 2013 – © Luís de B. Tavares – em alto contraste

 

António Ramos Rosa, Volante Verde, Lisboa, Moraes Editores, 1986.