Livro, loucura e amor

 

 

 

MANOEL TAVARES RODRIGUES-LEAL
LUÍS DE BARREIROS TAVARES, org.

 


“Ele pode assustar, mas, a mim, fico feliz de constatar que o ponto de demência de alguém é a fonte de seu charme.”
Gilles Deleuze – em entrevista por Claire Parnet

“A única conclusão é o manicómio: e a minha mulher, Meu Deus?!” Anotado no caderno O uso do cio (18/7/1992).
Referindo-se à ex-mulher (Ana Maria da Fonseca Gavinas), de quem se separara em 1976.

 

Sete poemas inéditos do caderno Fragmentos de um livro dividido (anónimo do séc. XX) – 1976.

Estes poemas foram escritos na Casa de Saúde do Senhor da Serra, em Belas, perto de Sintra. “Belas, casa de saúde mental; manicómio para gente fina; uma duquesa iria para ali.” (M. T. R.-Leal — 1976). Neles encontramos a atenção ao amor e à beleza, ao livro (o respectivo caderno e título) e à loucura que por vezes espreita.

Nota na página de rosto do caderno – “(Não quis nem pude introduzir alterações neste caderno de poesia: ele foi-o e é-o como tal, incorrupto e doente… mas corresponde a uma época importante da vida do seu autor e, assim, imerso na nostalgia de ser-se [ou ‘do ser’ – em nota tardia].)” O poeta procedeu mais tarde a ligeiras revisões.

 

1

mergulhei no centro do mar

e comovi-me com as conchas

nada mais lindo que amar      e as pétalas quebram-se em sombras

Belas – 17-9-76

 

2

O que lúdico louco chamei ao nome inominável amor

que tangível arte e amor-teci com o peso de mágoa amortecer-te

oh viagem indizível através dos lugares em volta (grande [?])

abraçar-te retratar-te que pungente oração tecer amor e o pranto perto.

Belas – 19-9-76

 

3

e o riso geométrico das raparigas

esplende

loiras ou morenas

meu nome acenas

quando se acende a tarde e o suor das espigas é maior e tem açucenas

Belas – 19-9-76

 

4

Quem há-de habitar-me após a minha morte,

tão nítida nas areias ardentes das praias do sul.

Após a minha morte, tudo será idêntico, e minha sorte

terminará nos canais de memória das vãs manhãs eloquentes.

Na terra reinará o mais pungente rigor, o uno e o dividido serão mansos.

E o mármore da loucura será o eterno tempo possuído.

Acordai-vos acendei-vos para os altares em flores, que sombras e mitos são cânticos e negro norte.

Belas – 20-9-76

 

5

tua pele afago

(às vezes a busco)

foste terra arada com rigor

signo interrompido de um barco

quando te penso te perco com amor

que labirinto o espaço da tua pele

nos cavalos amáveis do vento

quando a tua pele afago dói-me o crânio é-me amargo

embora embarque na inocência do pensamento

Belas – 23/9/76

 

6

Este livro dividido já o era outrora,

e inscrição sedutora quando não havia alicerces de vida.

Agora não me minto, é lindo este livro maldito, re-dito.

Outono de corpos quem os não cumpre em rito.

E quando nada me apraz, que paz se apossa de minha vida comovida.

Belas – 25-9-76

 

7

Deste livro inominado, afinal tão nomeado e alheio,

deste livro dual e uno, donde dimana a idade do poema,

oh deste livro, não livre, deste exílio que se reparte,

oh deste livro de ser-se vivo, consumir-se na obra, alheio, nesta paz pequena.

Belas – 28/09/1976