Sessão de lançamento de «Fogo dos Sentidos», de Manuel Sengo (ao centro), no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lamego. À sua esquerda, Teresa Adão, e à direita Hugo Maravilha.
Texto de apresentação do livro.
Por Maria Estela Guedes & Alex P. Zinga
Exmº. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lamego, Engº Francisco Lopes,
Exmº Senhor Vice-Presidente, Dr. Hugo Maravilha,
Ilustres membros do executivo,
Drª Teresa Adão, das Edições Esgotadas,
Caro Manuel Sengo,
Digníssimos convidados, leitores e amigos,
É com enorme satisfação que me apresento hoje neste salão nobre da Câmara, caso para lembrar a primeira vez em que aqui tomei lugar, entre 22 e 24 de junho de 2007, como responsável, com José Augusto Mourão, pelo VII Colóquio Internacional “Discursos e Práticas Alquímicas”, uma iniciativa da plataforma triplov.pt. Nesse ano, o colóquio, já de si alquímico, versava o tema “Alquimias do Feminino”. Tanta alquimia no nosso colóquio, itinerante, que durante mais de dez anos correu o País, assustou os responsáveis da Câmara de Lamego, que talvez não nos quisessem neste salão nobre a experimentar explosivos em retortas e cadinhos. Finalmente tudo acabou bem, o colóquio agradou tanto, mesmo sem transmutações de chumbo em ouro, que acabei agraciada com a Chave de Ouro da Cidade de Lamego. Creio bem que a Chave de Ouro foi um manifesto de reconhecimento do interesse da Alquimia pelo senhor Engenheiro Francisco Lopes, então, como agora, Presidente da Câmara Municipal.
Hoje estou aqui por razão bem distinta, se bem que nada de mais alquímico do que o título «O fogo dos sentidos» do livro de Manuel Sengo: sem fogo, não há espírito nem laboratórios de alquimista.
O poeta nasceu em Urros, uma aldeia do xisto, mas todos o conheceis, por Lamego ser a sua terra adoptiva.
Se a poesia, por definição, é uma tentativa de dar corpo ao invisível, Manuel Sengo faz o caminho inverso: ele pega na matéria mais densa, mais telúrica e mais concreta do nosso mundo e transfigura-a em sopro, em luz e em sentido para a vida.
Como prefaciadora do livro, tive o privilégio de acompanhar a organização deste arco poético. E se em Torre de Moncorvo olhamos para a matriz das suas ‘Raízes’, é aqui, em Lamego, sua terra de adoção, que a poesia de Manuel Sengo encontra o seu apogeu sensorial.
Manuel Sengo é um homem que conhece a terra no seu sentido literal. A profissão de técnico agrícola moldou-lhe o olhar. Onde o cidadão comum vê apenas uma paisagem, o poeta vê uma dinâmica de forças, uma aliança entre o solo e o cosmos. Ele não canta a natureza como um observador distante que se limita a contemplar uma tela de domingo; ele vive-a na sua imanência. O seu verso nasce do campo, brota do suor do labor, da observação dos riachos e das árvores. E é precisamente essa ligação mística que se manifesta num dos poemas mais emblemáticos da segunda parte do livro, intitulado “Velho”, que é, na verdade, uma belíssima carta de amor a esta cidade que hoje nos acolhe. Reservo para o final a leitura inteira deste poema, que fala do que nos é mais caro, melhor conhecido e mais saboroso: a Sé, o lamegueiro, que se diz ter dado nome à cidade, as muralhas do castelo, a torre de menagem e a tão celebrada gastronomia local. São faúlhas afectivas que nos acendem o sorriso da cumplicidade, por se tratar de vivências comuns de grande profundidade.
Para Manuel Sengo, Lamego não é um cenário geográfico; é um corpo vivo que respira. Quando ele diz que os degraus da Senhora dos Remédios “sobem mais dentro de nós do que no corpo cansado”, o poeta opera uma transmutação da fadiga física em elevação espiritual. O granito das nossas igrejas, o eco dos sinos da Sé que atravessa os séculos, e a própria herança gastronómica — quando evoca, mais à frente no poema, o presunto antigo e a bola como biscoito na boca do povo — deixam de ser meros elementos do quotidiano e passam a ser “fios de memória”.
Há porém um elemento vegetal que se destaca nesta obra com uma força totémica: o lamegueiro. Ou, na designação lineana, Ulmus minor. Esta árvore, que está na génese do próprio nome e do brasão da cidade, representada junto ao castelo, é para o poeta a síntese perfeita da sua Terra Mater. À sombra do lamegueiro, Manuel Sengo encontra o equilíbrio conciliador. É a árvore que oferece a sombra generosa, que recolhe os segredos do vento e que testemunha a passagem do tempo. E esta ligação ao território adensa-se quando nos deslocamos para as margens do rio Balsemão, um espaço de trabalho e de poesia pura. Na terceira parte do livro, o poema “Lamegueiro” funciona como documentário lírico sobre uma cidade que corre o risco de se desvanecer na voragem da modernidade, mas que a poesia insiste em imortalizar. É a Lamego dos oito moinhos que “respiravam tempo”, moendo sonhos em grão miúdo; a Lamego do pão nobre, escuro e amarelo que perfumava o ar da aldeia; e, acima de tudo, a Lamego das lavadeiras do rio, mulheres firmes que, de lenço e avental, faziam do trabalho uma dança e tornavam em poemas o cansaço.
Vamos partilhar um fragmento desta visão de uma Lamego rural, cuja palha de milho a ouvir segredos escondida dentro dos colchões, já só sobrevive na memória dos versos:
As conversas nasciam como flores do silêncio
Os segredos corriam entre dedos e risos
Enquanto o vento levava promessas à distância
No verão, depois das colheitas
Os colchões eram lavados e enchidos de palha nova
De centeio e folhelhos de milho
Palha que conhecia o rumor das noites
As confissões sussurradas entre lençóis riscados
As histórias de amor e de saudade
que o tempo nunca conseguiu apagar
O que Manuel Sengo nos oferece nestas páginas não é uma erudição hermética ou academicista. A sua linguagem é simples e acessível, porque a sua busca é pela verdade e não pelo ornato das coisas.
Na última parte do livro, inteiramente dedicada aos “Sentidos”, o poeta recorda-nos que a pele pensa, que o cheiro antecede o mundo e que o silêncio não é a ausência de som, sim um sentido invisível em estado puro. Lembraria, agora sim, mas sou eu e não o poeta quem lembra, que devemos a Paul Valéry, o grande poeta francês, a descoberta de que Le plus profond, c’est la peau: o mais profundo é a pele. Outro grande francês, mas agora filósofo, Gilles Deleuze, desenvolveu o conceito expresso no verso nos seus trabalhos sobre a superfície, que pode ser a pele da Terra, haja em vista o seu volume Mille Plateaux, escrito em regime de co-autoria com Felix Guattari. A Filosofia não tem de ir em busca de nenhum sentido profundo, o mais profundo da Filosofia reside na pele da Terra, nas ondas do mar e nas dunas que se movem no deserto.
Intuitivamente, creio, Manuel Sengo comunga estas ideias de que o mais profundo sentido da vida pode residir nas coisas mais superficiais, como os poucos centímetros de solo arável da terra, os degraus do escadório da Senhora dos Remédios, a merenda de bola, presunto e vinho.
A pele é o que há de mais profundo em nós, apesar de órgão superficial, em primeiro lugar por ser receptáculo de carícias, e antes disso por constituir a mais larga porta de que o nosso corpo dispõe para contacto direto com a realidade e por isso porta para reconhecimento do mundo, através de órgãos também eles de superfície, os patentes no título: os sentidos, que o poeta diz serem fogo.
Caminhando para um portal de saída, direi que, ao acolher esta cerimónia, a Câmara Municipal de Lamego não está apenas a apoiar um livro de poemas; ela celebra a sua própria identidade, fundida na sensibilidade de um dos seus cidadãos mais atentos. O “Fogo dos Sentidos” é um convite para que todos nós, nesta atmosfera de sensibilidade filial em relação à nossa cidade-mãe, saibamos ponderar a riqueza emocional em que vivemos. Sabemos que a vida contemporânea nos empurra para o ruído, para a pressa e para a distração. Manuel Sengo, com a sua lucidez e afeto, oferece-nos o oposto: um instante de pausa, de escuta e de contemplação.
Termino regressando ao próprio fecho do poema que dedica a esta terra. Lamego, diz ele, “não se esquece / Fica gravado, como verso teimoso”.
Que este livro possa ser também esse verso teimoso na memória de cada um de vós, lembrando-nos de que viver é manter aceso o fogo dos sentidos.
VELHO
Na encosta onde o Douro respira
A cidade abre-se como um vinho velho
Espesso a degustar
Com sabor de granito e romaria
Lamego é sino que chama
É sombra fresca de lamegueiro
É mulher que dança em lenço bordado
E olhos que brilham no tempo
Na Sé, o silêncio tem séculos
Os degraus da Senhora dos Remédios
Sobem mais dentro de nós
Do que no corpo cansado
Aqui, cada rua é um fio de memória
Cada pedra guarda uma história
Que se conta melhor ao entardecer
Quando o sol se deita sobre as muralhas do Castelo
Na embriaguez da Torre de menagem
E quem parte leva no bolso
Um pedaço de vinho
Uma saudade dobrada em papel
Com a certeza de voltar
Lamego não se esquece
Fica gravado, como verso teimoso
Na boca do povo
Com pedaços de presunto antigo e
bola como biscoito
A acompanhar o repasto do cabritinho
Com perfume de rosmaninho
Muito obrigada a todos,
Maria Estela Guedes & Alex P. Zinga
Lamego, 9 de Julho de 2026
