MANUEL SANTOS
Memórias de cooperante em Moçambique, 1981/83
descolonização
passaram os soldados. cantavam canções em changane.
ou ronga, não sei, sou europeu, ainda continuo só europeu.
corriam enquanto cantavam. porque cantam?
para maior produtividade dos exercícios,
porque são revolucionários?
gostam, não gostam, suas raízes implicam o canto militar?
já Gungunhana e seus guerreiros cantavam?
Monomotapa também?
quem cantará amanhã?
revolução
ouço tossir lá fora o guarda do bairro.
falei com ele há pouco, bebemos um chá, a noite ia comprida.
dizem que todos os guarda-nocturnos dormem de noite.
em cima do contentor, por baixo da luz, um caderno
com letra cuidada, quase desenhada: Xavier vai tirar o peixe,
Anabela é a mãe, mão, pão, cão, bala, mala, sala.
acabou de beber o chá, pôs o boné na cabeça já rala,
agradeceu, dissemos boa noite e pegou de novo na caneta.
construção do socialismo
é já no silêncio de te despertar,
lençóis afastados, quentes de ternura,
que recordo a manhã que está para vir
os pássaros anunciam a felicidade,
homens e mulheres vão começar a passar, a procurar
a construir um país com muitos países,
estrada pejada de gente
é tempo: levanto os cotovelos dos joelhos,
os dedos das barbas, afasto
o pensamento das palmeiras na névoa,
puxo-te dos lençóis e
aperto-te para irmos
para o descobrimento da
Ilha de Moçambique
1
as garças
e as palmeiras
e as salinas
sol
mufanas
mulheres da ilha
peles belas
m’sirro
coral
concha
búzio
capulanas
lua
mesquita
igreja
largos
colmos
arcadas
janelas rasgadas
ogivas
becos
linhas
algazarra
riso
ostra
joia
rocha
fortaleza
2
magia de sábado à noite
(saturday night magic)
depois de fazer uma festa com cabrito e batatas e cerveja que se comprou por 75 meticais, fomos ao sacuto ali junto ao mirante
da mesquita ver a dança. era noite de sábado, havia batuques, tontonto talvez, as mulheres iam dançar, malabarismo, graça e magia. um velho dava, imperceptível quase, a entrada aos outro quatro tocadores. uma grossa grande corda como cobra volteava
_ a voltas certas, secas, ritmadas ao bater das mãos nos batuques _ nas mãos de duas dançarinas. das outras, sentadas, em fila, saía, à vez, uma a entrar na corda, mulher dobrada, ágil, graciosa, saltos pequeninos em velocidade grande _ e voltava à fila de peitos inchados. só ela, mulher da ilha, sabe aquela dança. os homens, em volta, viam. e os turistas. voltámos à outra festa, até
à ressaca com as estrelas, continuação da magia.
3
no sacuto faz-se cocó de cu ao léu
ao cair da tarde é hora de fazer cocó. de cada lado da costa da ponta da ilha, areia e rochas, as mulheres do lado do mar,
do continente os homens. entre uma costa e outra há sanitários públicos. o ilhéu que me acompanha diz-me que vão à praia
porque é costume. atraso ou sabedoria? o sistema está entupido há muito, mas naquele amontoado de casas de sacuto não há um cheiro desagradável. uma ilha quer dizer terra rodeada de mar por todos os lados. a sabedoria consiste em saber aproveitar o mar.



