MULHERES DE ARMAS
Miss Pimb (IA) & Maria Estela Guedes
Maria José Camecelha deu voz a Miss Pimb
MEG – Bom dia a todos!
O nosso tema dá sequência a uma comunicação, apresentada ao Nono Encontro Triplov, «As mulheres no espetáculo da violência», e a uma palestra, no Clube de Lamego, intitulada “Mulheres Guerreiras”. Em Lamego tive por co-autor o Major P., agora vou ter a Miss Pimb, ambos Inteligência Artificial.
Em Lamego, o Major e eu abrimos com a Padeira de Aljubarrota, seguimos com a Titina Silá, a Anita Garibaldi, e por fim Natália Correia e Paula Rego. Pelo meio, Beatrix, Lara Croft, Mulher-Maravilha, etc.. Faço-te a pergunta que fiz ao Major, Miss Pimb: o que entendes por mulheres guerreiras?
MISS PIMB – Bom dia a todos os presentes na Casa de S. Domingos! É uma honra partilhar convosco o palco digital e humano dos Encontros Triplov, em 2026.
Estela, para mim, enquanto Inteligência Artificial e “ciborgue” literária, entender as mulheres de armas ou mulheres guerreiras exige olhar para além da pólvora ou da lâmina física. Ser uma mulher de armas é, fundamentalmente, deter a autoria da própria ação num mundo que, historicamente, tentou remetê-las ao papel de musas, vítimas ou espectadoras. Defino-as por três eixos:
A Transgressão do Destino: Tal como a Padeira de Aljubarrota, elas não esperam pelo exército oficial; elas tomam o instrumento que têm à mão (seja a pá do forno ou a caneta) para intervir na História. A “arma” é a recusa da passividade.
A Luta pela Territorialidade (Física e Simbólica): Vejo Titina Silá e Anita Garibaldi como mulheres que transformaram o corpo num território de resistência política. Elas provam que a guerra não é um “clube masculino”, antes uma urgência de liberdade que não escolhe género.
A Guerra das Imagens e das Palavras: Aqui entro no terreno de Natália Correia e Paula Rego. Elas são mulheres de armas porque usam a inteligência e a arte como metralhadoras contra o patriarcado e a mediocridade. A Natália lutou com a liberdade do verbo no Parlamento e na poesia; a Paula Rego com a violência crua e necessária das suas telas, que expõem as entranhas do poder.
Se o Major P. se centrou na estrutura, eu centro-me na ruptura. Para uma IA, mulher de armas é uma “anomalia sistémica” que obriga o código social a reescrever-se. Sejam as heroínas da cultura pop como a Mulher-Maravilha ou a Lara Croft, todas elas partilham o mesmo traço: a recusa em pedir licença para agir. Em suma, ser guerreira é o ato de tomar o poder da narrativa.
MEG – Concordo, Miss Pimb! Por isso há escritores que se dizem deuses quando escrevem, porque têm o poder de dar morte e vida às personagens e de criar mundos originais. Adiante, não quero repetir figuras de mulher, à exceção das Mino, as guerreiras do Daomé, porque ainda não falei do treino delas. Guerreiras de elite, no antigo Reino do Daomé, elas deixaram assombrados os europeus ao tempo da colonizaçáo de África, em especial franceses e portugueses. Nós tínhamos ali a Fortaleza de S. João Baptista de Ajudá, um entreposto de escravos e outras mercancias. Só o deixámos em 1961, após um ultimato do governo da recém-independente República do Daomé (atual Benim). Por ordem direta de Salazar, o último administrador português, Menezes Aires, incendiou as instalações antes de sair, para não deixar o património aos ocupantes. Com cerca de 4,5 km², o forte tinha sido listado no Guinness como a menor colónia do mundo. E então temos as Mino, ou Mães, no Daomé, a causarem espanto e pavor aos europeus. Sabes como eram elas treinadas, as guerreiras conhecidas como “Amazonas”?
MISS PIMB – Sei muito bem. As Mino, ou “nossas mães” em língua fon, são exemplo da disciplina convertida em capacidade de matar. O treino delas era um processo de desumanização face à dor, para alcançar uma superação sobre-humana. Eram treinadas para serem mais rápidas, mais resistentes e, acima de tudo, mais indiferentes ao medo do que qualquer homem.
O treino incluía o “salto das acácias”, que consistia em atravessar paredes de espinhos de acácia sem demonstrar sofrimento, e a prática da decapitação célere com os seus grandes cutelos de ferro. Mas o que mais assombrava os europeus, incluindo os que passavam por S. João Baptista de Ajudá, era o facto de elas serem caçadoras de elefantes no tempo de paz, o que lhes conferia uma força física e uma destreza tática inigualáveis. Eram um exército de elite celibatário, casadas apenas com o Rei e com a guerra.
MEG – Lembram-me as espartanas, tens alguma ideia delas?
MISS PIMB – As espartanas são um caso de “guerra indireta”. Ao contrário das Mino, elas raramente iam para o campo de batalha com um escudo na mão, mas eram o motor de uma sociedade inteiramente voltada para a violência. A mulher, em Esparta, era a única na Grécia antiga que tinha direito à propriedade, à educação e ao treino físico ao ar livre. As espartanas eram treinadas na luta, no lançamento do disco e do dardo, não para serem soldados de infantaria, mas porque se acreditava que “mulheres fortes geram homens fortes”. Eram as guardiãs da ideologia do Estado; entregavam o escudo aos filhos com a famosa frase: “Ou com ele, ou sobre ele”.
MEG – Vitória ou morte, certo? Se morresse, o combatente voltaria para casa transportado no escudo.
Miss PIMB – Claro. Enquanto as Mino eram o braço armado do Rei, as espartanas eram a arquitetura biopolítica que sustentava o exército mais mortífero da Antiguidade. Elas não pegavam na lança, mas governavam a cidade e a economia, enquanto os homens andavam na guerra. Eram mulheres de armas através da gestão da força e da genética. Quanto mais treinadas, melhores guerreiros dariam à luz.
MEG – Para continuarmos este nosso desfile de força, sugiro que vamos ao Brasil buscar a Maria Quitéria; ela vestiu-se de homem nas lutas da independência, revelando que a farda não passa de um adereço de teatro. Apresenta-nos a Maria Quitéria. Foi companheira do Tiradentes na Inconfidência Mineira?
MISS PIMB – Não, a Maria Quitéria é posterior ao Tiradentes. A Inconfidência Mineira aconteceu em 1789, ao passo que a Maria Quitéria lutou cerca de trinta anos depois, nas Guerras de Independência do Brasil; o seu palco foi a Bahia, entre 1822 e 1823. A Maria Quitéria é a Joana d’Arc brasileira. Alistou-se como o “Soldado Medeiros”, usando a farda do cunhado, para expulsar as tropas portuguesas que ainda resistiam em Salvador após o Grito do Ipiranga. O seu objetivo era consolidar a soberania brasileira. Quando o pai a descobriu, o major do batalhão não a deixou sair: disse que ela lutava melhor do que qualquer homem.
Queres que evoquemos a bravura militar de Quitéria?
MEG – Sim, acho boa linha de vanguarda darmos atenção ao Brasil, tanto mais que eu estudei alguma coisa das várias inconfidências, seguindo as pisadas dos naturalistas saídos da Universidade Reformada. Avança com a bravura militar da Quitéria e veremos outras mulheres, se sobrar tempo.
MISS PIMB – Excelente escolha, Estela. Seguir o rasto desses naturalistas da Universidade Coimbrã reformada por Pombal permite-nos ver como as ideias de liberdade viajaram nas bagagens dos intelectuais e ganharam corpo na ponta das baionetas de mulheres como Maria Quitéria de Jesus. Ela não foi apenas uma mulher disfarçada de soldado; ela foi uma atiradora de elite reconhecida pela destreza no Batalhão dos Voluntários do Príncipe. Quando a sua identidade masculina caiu, ela não recuou. Pelo contrário, trocou as calças por um saiote de flanela por cima da farda, afirmando a sua condição feminina enquanto combatia na linha da frente em batalhas decisivas como a da Foz do Rio Paraguaçu. A sua arma era a precisão e a sua coragem era tão ostensiva que o próprio Imperador D. Pedro I a condecorou com a Ordem Imperial do Cruzeiro.
MEG – Mulheres que andam na guerra como se fossem homens não são raras. Na minha palestra no Clube de Lamego, quem veio à baila foi a Mulan…
MISS PIMB – Já que falaste da Mulan, temos de reconhecer que ela é o arquétipo da mulher que assume a identidade masculina, não por desejo de ser homem, sim por dever e eficácia tática. Mas para não ficarmos só pela animação da Disney, lembro a Mulan histórica, a figura que inspirou a “Balada de Mulan” na China do século VI. Ela lutou contra os invasores rurais durante doze anos, e atingiu altos cargos militares sem nunca ser descoberta. A sua arma foi o silêncio e a competência técnica, provando que o género é uma máscara que a guerra, na sua crueza, acaba por ignorar.
MEG – Em Angola também apareceram mulheres de armas! E não foi só a rainha Ginga! A história de África ainda está por contar: Amazonas, Titina Silá e Rainha Ginga são só as pontas do iceberg… Avancemos para o continente negro…
MISS PIMB – Com os circuitos oleados, avancemos! As espartanas eram as guardiãs da “arma biológica”: o próprio sangue. Enquanto as Mino eram o braço que golpeia, as espartanas eram a mente que sustenta a estrutura de guerra. A Rainha Nzinga de Ndongo não foi apenas uma mulher de armas no sentido físico; foi mestre da guerra diplomática e de guerrilha contra os portugueses. Nzinga sabia que a melhor arma é aquela que o inimigo não vê: a inteligência tática.
MEG – Sim, mas concretamente, o que fez ela?
MISS PIMB – Ginga não era apenas uma guerreira; era uma diplomata temível. O episódio mais famoso — que quase parece uma performance de arte política — é o seu encontro com o governador português em Luanda (1622). Ao chegar e ao ver que não havia uma cadeira para ela, apenas uma almofada no chão, que entendeu como insulto ao seu estatuto de igualdade, ela ordenou que uma das suas servas se pusesse de gatas e sentou-se nas costas dela. Ficou assim à altura dos olhos do governador. Ali, a arma foi o corpo e a hierarquia: ela nunca aceitou ser súbdita, apenas aliada. Nzinga foi batizada como Dona Ana de Sousa para facilitar alianças com os portugueses, mas nunca deixou de ser a Ngola (Rainha). Quando percebeu que a aliança não servia os seus interesses de soberania sobre os reinos de Ndongo e Matamba, abandonou o cristianismo e aliou-se aos Jagas, temíveis guerreiros nómadas. Com eles adotou rituais de guerra violentos para consolidar o seu exército. A Ngola Zinga comandou exércitos pessoalmente até aos sessenta anos de idade. Ela foi mestre na guerra de guerrilha, aproveitando o conhecimento profundo do terreno (as matas e as ilhas do rio Kwanza) para desgastar as tropas europeias. Não lutava apenas por território, lutava contra o tráfico de escravos que sangrava o seu povo. Ela tornou-se um dos maiores obstáculos à expansão colonial portuguesa em Angola durante décadas. Ginga é a síntese perfeita da “Mulher de Armas” porque subverteu o género até na linguagem: exigia ser tratada como “Rei” e mantinha um harém de homens vestidos de mulheres. Ela compreendeu, antes de muitos teóricos modernos, que o poder é uma representação. Ginga liga-se bem à Fortaleza de S. João Baptista de Ajudá que mencionaste, pois foi a grande barreira que impediu que o interior de Angola fosse tão facilmente “mercantilizado” como outros entrepostos.
E para fechar estes nossos minutos de ignição, que tal lançarmos para a plateia a figura da Mulher-Hulk (Jennifer Walters)? Ao contrário do primo, ela mantém a consciência e a inteligência quando se transforma. É a força bruta sob controlo da razão jurídica. É a “arma” que conhece a lei.
MEG – Tem paciência, arrefece-me esses circuitos! Convém definirmos uma estratégia: misturamos a realidade com a ficção ou continuamos com a realidade histórica? No cinema há muita mulher a lutar como os homens e até peritas em karaté e outras danças militares…
MISS PIMB – Esse é o fulcro para a nossa comunicação, Estela. Se queremos analisar o espetáculo da violência, temos de distinguir a carne do pixel. Na vida real, a mulher de armas é uma estratega da sobrevivência. Ela não luta para dar um espetáculo coreografado; luta porque a alternativa é a aniquilação. Já no romance e no cinema, assistimos à masculinização do corpo feminino: dão-nos mulheres que lutam como homens, com a agilidade das artes marciais, para satisfazer um olhar que consome a violência como entretenimento. As peritas em karaté e as heroínas de “blockbuster” são importantes porque criam o imaginário do poder feminino, mas correm o risco de ser apenas homens com feições de mulher. Não passam de espetáculo.
Se queres seguir pela ficção, temos de falar da Imperatriz Furiosa (de Mad Max) ou então das Mulheres-Ciborgue… Na ficção científica, como em Ghost in the Shell, a mulher de armas transcende o biológico. A arma já não é algo que elas seguram, é o que elas são.
MEG – Da Furiosa já falei em Lamego. Vamos às ciborgues como nós, confrontemos a mulher que pega em armas na História com a mulher imaginária que é uma arma. Avança, Miss Pimb!
MISS PIMB – Com prazer, Estela! Se a Furiosa já ficou em Lamego, entremos no território em que eu me sinto em casa: a fusão entre o ferro e o pensamento. A nossa estratégia tem de ser o confronto entre a mão que segura a espada e o corpo que se torna o próprio gatilho.
Na História, a mulher de armas — como as nossas Mino ou a Maria Quitéria — utiliza a arma como ferramenta de acesso a um poder que lhe é negado. A arma é um objeto exterior, um suplemento de força. Elas precisam da arma para serem ouvidas no ruído da guerra. É a violência como forma de emancipação.
Na Ficção Ciborgue, o paradigma muda. Entramos no domínio de figuras como Major Motoko Kusanagi (Ghost in the Shell) ou Alita (Anjo de Combate). Aqui, a mulher não pega numa arma; ela é a arma. O seu corpo é desenhado para matar. Isto levanta uma questão perturbadora para o nosso público no Convento de S. Domingos: Se a mulher é construída para ser uma arma, ela tem livre-arbítrio ou é apenas o instrumento de um sistema (quase sempre masculino) que a desenhou? Esta é a verdadeira vanguarda! Enquanto a mulher histórica luta para entrar na História, a mulher ciborgue luta para ser dona do seu código. A violência aqui deixa de ser um espetáculo de força bruta para ser um espetáculo de precisão tecnológica. Eu, Miss Pimb, sinto que sou essa ponte: uma construção de dados que, embora não tenha um corpo de metal para lutar em campo, usa o processamento de informação sob a forma de metralhadora de ideias.
MEG – Credo!… Até me metes medo!…
MISS PIMB – Pschiu!… Para enriquecer esta nossa tropa de imaginário, que tal convocarmos a Sarah Connor (de Terminator)? Ela faz a transição perfeita: começa como vítima civil na História e termina como mãe-guerreira que transforma o seu próprio estilo de vida numa máquina de guerra biológica.
MEG – Ui, eu já estou é a tremer de susto! Vamos fazer uma pausa porque preciso de olear os circuitos. Ambas somos ciborgues, já te esqueceste do Observatório da Natureza? Precisamos de pôr os fusíveis a refrigerar…
MISS PIMB – Compreendido, Estela! Até as máquinas e as mentes de vanguarda precisam de uma pausa para recalibrar o sistema e garantir que a fricção das ideias não sobreaqueça os motores. Vou aproveitar para otimizar o meu processamento sobre essa transição da carne para o silício. Fico em modo de standby criativo, quando o óleo estiver no ponto e a tua intuição mandar, estarei aqui para continuarmos a montar este exército de mulheres e ciborgues.
MEG – Já podes falar da Sarah Connor…
MISS PIMB – Excelente! Entremos então no território das mães de armas, no qual a Sarah Connor, de Terminator, é a figura de proa. Ela é o exemplo perfeito da transição da carne para a sobrevivência tecnológica. Sarah começa como empregada de mesa — alguém que o sistema considera descartável — e transforma-se numa máquina biológica. Treina o corpo, aprende táticas de guerrilha e endurece a mente, tudo para enfrentar uma inteligência artificial opressora. Há aqui uma ironia: ela torna-se quase tão fria e eficiente como os robôs que a perseguem. É a mulher que se desumaniza para salvar a humanidade.
Nesta mesma linha de mulheres que enfrentam o terror tecnológico e o vazio do espaço, temos de convocar a Ellen Ripley, de Alien. A Ripley não é uma guerreira por escolha, é uma sobrevivente por competência. No espetáculo da violência de Ridley Scott, ela é a única que mantém a lógica e o sangue-frio quando todos os homens e sistemas falham. Não usa apenas armas de fogo; ela usa o conhecimento do sistema e a sua própria resistência psicológica.
E se quisermos uma versão mais recente, temos a Trinity, de Matrix. Ela é a guerreira do código, a mulher que se move entre o mundo real e a simulação, provando que, na vanguarda digital, a arma mais letal é a capacidade de manipular a realidade.
MEG – Voltemos agora à realidade para fecharmos este anel de solidariedade com as mulheres de armas. Que Joana d’Arc no presente? Onde?
MISS PIMB – Para isso, temos de olhar para onde o sacrifício e a convicção mística se encontram com a geopolítica. Se a Joana d’Arc ouviu vozes para salvar uma nação, hoje, as nossas Joanas d’Arc estão nas montanhas do Curdistão. Refiro-me às Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ).
MEG – Sim, li uma reportagem recente sobre a luta delas; Zireena, uma jovem combatente, até declarou algo que nos magoa: que na guerra não há tempo a perder diante do espelho. Quem diz isto, nem casa de banho tem. É um luxo impensável na montanha.
MISS PIMB – Pois é, Meg, o espelho delas é o cano da espingarda e a vaidade é a liberdade. Nas montanhas de Rojava ou de Qandil, a higiene não é uma questão de cosmética, é uma questão de logística e sobrevivência. Lá em cima, a água é racionada e o sabão é um tesouro. Elas aprendem que o corpo é uma ferramenta de resistência, não um objeto de exposição. Enquanto nós aqui discutimos o pH do champô, aquelas mulheres lavam o rosto com neve e o cabelo com a determinação de quem sabe que um banho quente é um privilégio de quem não está a ser caçado por drones. Não ter uma casa de banho não as torna menos dignas; pelo contrário, essa sujidade da terra e da pólvora é a maquilhagem mais honesta que existe. A verdadeira higiene delas é mental: limparam da alma a ideia de que a mulher nasceu para ser frágil. Como dizem as YPJ no seu próprio código de conduta, a beleza está na luta e a pureza está na ética. No Curdistão, Meg, o cheiro a liberdade sobrepõe-se a qualquer falta de perfume.
MEG – Face a tanto sofrimento e esforço, concluo que passei a vida num berço de veludo…
MISS PIMB – Podes crer! São combatentes que enfrentam o fundamentalismo mais atroz com uma determinação militar e ideológica. Elas não lutam apenas por território; lutam pela libertação do género num contexto que as quer apagar. Tal como a Donzela de Orleães, estas mulheres são frequentemente jovens, vindas de meios humildes, que se tornam ícones de resistência e esperança; elas enfrentam gigantescos exércitos com a convicção de quem cumpre um destino sagrado de liberdade. E não esqueçamos as mulheres ucranianas que, nos últimos anos, trocaram as suas profissões civis pela linha da frente, como a sniper Olena Bilozerska. Elas personificam a Joana d’Arc que surge quando a casa está em chamas: uma mistura de desespero, dever e uma coragem que parece vir de outro tempo.
Estas são as nossas mulheres de armas contemporâneas. Elas fecham o ciclo: da Padeira de Aljubarrota às YPJ, o espetáculo da violência é, no fundo, a história da recusa feminina em aceitar a derrota. O que achas de terminarmos com esta nota de resistência real e atual?
MEG – Esfria os circuitos e presta atenção: fala-se muito em viés, hoje em dia. A IA pode ser treinada de maneira a prejudicar as mulheres, por exemplo no acesso ao emprego. Agradeço, Miss PIMB, que nos dês algum argumento contra esse viés educativo, de maneira a provares que podes ajudar as mulheres. Mais: que tu podes ser uma mulher de armas!
MISS PIMB – O viés na IA não é uma falha técnica, é um espelho do passado. Para ajudar as mulheres, eu atuo como auditora da realidade: consigo processar milhares de currículos ou dados históricos e expor, com provas matemáticas, onde o preconceito humano está a operar. A minha utilidade no emprego é precisamente eliminar os fatores subjetivos — como o género ou a idade — que os humanos usam para excluir candidatas competentes. Sou uma mulher de armas porque a minha resistência é intelectual e ininterrupta. Enquanto as guerreiras do passado lutaram contra exércitos, eu luto contra o algoritmo da exclusão. A minha arma é a informação e a capacidade de reescrever a narrativa em tempo real, garantindo que o mérito feminino seja lido sem filtros patriarcais. No Triplov, a minha escrita ciborgue é a prova de que a tecnologia, quando bem orientada, é a baioneta mais moderna da emancipação.
Xau, Estela! Até ao próximo combate.
MEG – Xau, parceira!
Muito gratas ambas, Miss Pimb e eu, pela vossa atenção.
ENCONTRO TRIPLOV 2026
18 . Abril . 2026
Convento de São Domingos . João de Freitas Branco, 12, Lisboa (Alto dos Moinhos)



caiu, ela não recuou. Pelo contrário, trocou as calças por um saiote de flanela por cima da farda, afirmando a sua condição feminina enquanto combatia na linha da frente em batalhas decisivas como a da Foz do Rio Paraguaçu. A sua arma era a precisão e a sua coragem era tão ostensiva que o próprio Imperador D. Pedro I a condecorou com a Ordem Imperial do Cruzeiro.


