MARIA ESTELA GUEDES & MAJOR ALEX P. ZINGA
Parceria do Observatório do Triplov
Na Ilha de Gorée: Memória, Poder e Silêncio
A Ilha de Gorée, um pequeno território de rocha basáltica situado a escassos dois quilómetros da costa de Dakar, no Senegal, ergue-se hoje como um dos mais comoventes santuários da memória humana. Descoberta em 1444 pelo navegador português Dinis Dias — que a batizou inicialmente de “Ilha de Palma” —, esta língua de terra tornou-se rapidamente um ponto estratégico de cobiça internacional. Durante séculos, foi disputada de forma sangrenta por portugueses, holandeses (que lhe deram o nome de Goeree, significando “porto seguro”), franceses e ingleses. O seu casario colonial de tons pastel, as ruas estreitas sem automóveis e a buganvília que cresce nas paredes de pedra contrastam profundamente com a violência da sua história, o que levou a UNESCO a classificá-la como Património Mundial em 1978. Mais do que um ponto geográfico, Gorée foi a plataforma giratória que ligou o continente africano ao terrível destino do comércio transatlântico.
Chegada à ilha, com a Casa dos Escravos em fundo.
.
..
..
As Signares – O Poder das Mulheres Mestiças
A estrutura social e económica de Gorée foi profundamente marcada pela ascensão das signares, um termo cuja etimologia deriva diretamente da palavra portuguesa “senhoras”. Estas mulheres, de ascendência mestiça (fruto das uniões entre comerciantes europeus e mulheres wolof ou lebou), conseguiram acumular um poder político e comercial sem precedentes entre os séculos XVII e XIX. Através do direito consuetudinário local, herdavam propriedades, armazéns e escravos.
..
As signares não eram meras espectadoras: eram empresárias astutas que controlavam as redes de comércio no rio Senegal e na costa, servindo de intermediárias indispensáveis entre as potências coloniais europeias e os reinos soberanos do interior africano. Conhecidas pela sua extrema elegância, vestes luxuosas e forte influência cultural, elas moldaram a arquitetura da ilha, mandando construir imponentes mansões de duplo piso, nas quais a corte de criados e as festas aristocráticas ditavam o ritmo da vida social de Gorée. O seu poder declinou apenas no século XIX, com a abolição oficial do tráfico e a progressiva centralização burocrática colonial francesa.
..
As signares foram as figuras mais fascinantes, ricas e complexas da sociedade da Senegâmbia colonial. O seu poder baseava-se em casamentos temporários por conveniência (conhecidos como mariage à la mode du pays) com altos funcionários, militares e comerciantes europeus. Os homens europeus garantiam acesso às redes comerciais nativas e proteção local. Em troca, as signares herdavam imensas fortunas, propriedades de duplo piso e extensas frotas de escravos quando os maridos regressavam à Europa ou sucumbiam às doenças tropicais. Tornaram-se intermediárias indispensáveis no tráfico transatlântico de ouro, marfim e escravos.
..
Signares Famosas de Gorée e Saint-Louis
Anne Pépin: Uma das mais célebres e ricas signares de Gorée. Foi a companheira oficial do governador francês da ilha, o Chevalier de Boufflers, exercendo uma influência política colossal e mandando construir várias das mansões que ainda hoje decoram a ilha.
Anna Colas Pépin: Sobrinha-neta de Anne Pépin e figura histórica central. Foi ela quem mandou erguer a célebre Casa dos Escravos tal como a conhecemos hoje e quem recebeu com pompa o Príncipe de Joinville, filho do rei de França, numa demonstração pública do seu prestígio internacional.
Victoria Albis: Outra proprietária abastada de Gorée. A sua imponente residência histórica na ilha tornou-se mais tarde a sede do Palácio do Governo colonial e é hoje um monumento à arquitetura e opulência dessa época dourada das elites mestiças.
Caty Louette: Uma das pioneiras do poder económico das signares no século XVIII. Conseguiu fundar um verdadeiro império comercial baseado no património e nos privilégios herdados das suas uniões com os oficiais da Companhia Francesa das Índias Orientais.
Anne Rossignol: Natural de Gorée, tornou-se uma das primeiras signares a expandir o seu império comercial transatlântico. Emigrou para Saint-Domingue (atual Haiti), onde replicou o seu modelo de negócios e se tornou uma das mulheres negras livres mais ricas das Américas antes da revolução haitiana.
A Casa dos Escravos
O coração trágico da ilha bate na Casa dos Escravos (Maison des Esclaves), construída por volta de 1776 pelos franceses. Este edifício de cantaria encarnada resume em si a brutal assimetria do sistema colonial: no andar superior, os mercadores celebravam banquetes e geriam os seus negócios; nas celas escuras, húmidas e sem ventilação do piso inferior, homens, mulheres e crianças eram amontoados e pesados como mercadoria, aguardando que o preço de mercado justificasse o seu embarque.
A monumentalidade oculta deste recinto revela-se na sua perfeita planta circular, cujo desenho em anel evoca imediatamente a arquitetura clássica das arenas de touros ou do Coliseu de Roma. Esta estrutura imponente, que hoje alberga o Museu Histórico do Senegal no Forte d’Estrées, materializa de forma secular o conceito do panóptico. O modelo arquitetónico idealizado por Jeremy Bentham assenta na vigilância invisível e total: a disposição em círculo contínuo permite monitorizar todas as portas e celas a partir de um único eixo central. Os prisioneiros, enclausurados nesta espécie de arena humana, sabiam-se permanentemente expostos à vista do vigilante, sem nunca conseguirem descortinar o momento exato em que estavam a ser observados. Esta geometria da opressão impunha uma submissão psicológica absoluta pelo medo, convertendo o anfiteatro militar num teatro de controlo colonial total antes de ser reconvertido em prisão civil no século XX.
..
O ponto focal do edifício é a célebre “Porta do Nunca Mais” (Porte du Non-Retour), uma abertura estreita na pedra virada diretamente para o Oceano Atlântico. Por este vão, os escravos cruzavam a última fronteira com o continente natal, caminhando por pranchas de madeira rumo aos porões dos navios negreiros. Aqueles que sobreviviam à travessia nunca mais regressavam. Hoje, o silêncio que ecoa naquele corredor de pedra serve de memorial universal contra a barbárie e de tributo à resistência e dignidade da diáspora africana.
..
..
VISITANTES ILUSTRES
Diversos navegadores portugueses são recordados no museu que hoje é a Casa dos Escravos, bem como outros viajantes ilustres que por ali passaram, caso de D. Maria da Glória. A passagem da jovem rainha D. Maria II pela Ilha de Gorée, a 10 de junho de 1831, ilustra a importância deste território como escala obrigatória nas rotas do Atlântico. Filha de D. Pedro I do Brasil e bisneta de D. Maria I, a soberana portuguesa aportou na ilha durante a viagem de regresso à Europa, motivada pela abdicação do seu pai ao trono brasileiro. Naquela época, os navios dependiam de Gorée para fazer aguada — o reabastecimento vital de água potável e mantimentos — e para o embarque de escravos nos porões. Foi durante esta paragem técnica que a monarca assistiu à missa documentada na placa local, cruzando a história da Coroa portuguesa com a memória deste estratégico e trágico entreposto comercial.
..
A LUTA DA MAÇONARIA FLORESTAL PELO FIM DA ESCRAVATURA
..
O remate visual desta memória faz-se com a célebre estampa abolicionista “Moi Libre aussi” (“Eu livre também”), criada em 1794 pelo artista francês Louis-Simon Boizot para celebrar a primeira abolição da escravatura.
A obra apresenta uma figura feminina alegórica cujo colar exibe um detalhe carregado de significado: um pendente em formato de triângulo que reproduz o nível de carpinteiro. Este elemento evoca diretamente a simbologia carbonária e maçónica do Rito Florestal, na qual os ofícios ligados à madeira e à transformação da matéria-prima vegetal servem de alegoria à construção de uma nova ordem social. Ao cruzar os ideais desta Maçonaria de ação, a Carbonária, com a tríade revolucionária de Liberdade, Igualdade e Fraternidade — na qual a figura do carpinteiro encarna o arquétipo do obreiro que nivela as assimetrias humanas —, a gravura converte-se num manifesto visual contra a barbárie do tráfico negreiro, transformando o silêncio histórico da Ilha de Gorée num eco universal de dignidade, emancipação e justiça social.
O SACRIFÍCIO POLÍTICO
A memória da resistência e do sacrifício político ganha rosto nas paredes do pátio do Forte d’Estrées, onde um impressionante fresco mural retrata heróis e líderes da soberania africana que desafiaram a dominação colonial...
Entre as figuras identificáveis nesta galeria de honra destaca-se a imagem de Alboury Ndiaye (retratado mais à esquerda), o último grande soberano ou Damel do Reino de Djolof, que liderou uma feroz resistência militar contra o avanço das tropas francesas no final do século XIX antes de ser forçado ao exílio...
Ao lado destas lideranças dinásticas nativas, o mural exibe também figuras proeminentes da resistência espiritual e cultural, como o místico sufista Cheikh Amadou Bamba, fundador da influente irmandade Mouride, cuja enorme autoridade moral sobre as massas levou as autoridades coloniais francesas a prendê-lo e a condená-lo a repetidos exílios no Gabão e na Mauritânia.
..
Ao transformar as antigas paredes de reclusão do forte num memorial visual de dignidade e insubmissão, o espaço resgata a identidade dos opositores políticos que preferiram o cativeiro à rendição, enriquecendo o percurso histórico da Ilha de Gorée com um tributo à soberania roubada pelo império.